quinta-feira, 6 de outubro de 2016

LITERATURA: CRIAÇÃO E ANÁLISE

Dante Gatto

A análise literária prescinde da consciência da criação. Vamos refletir neste sentido.
Lukács (2009, p.39), diante do problema da filosofia histórica das formas argumenta que na época pós-helênica perdeu-se a periodicidade filosófica, “[...] os gêneros se cruzam num emaranhado inextrincável”. O objetivo não é mais claro. Mas “a imanência do sentido à vida [...] por maiores que sejam as comoções, pode perder o brilho, mais jamais ser totalmente dissipada. (LUKÁCS, 2009, p.39).
            Só a grande épica, defende Lukács (2009, p.44), pode dar forma à totalidade extensiva da vida. O que o drama pode fazer é dar forma à totalidade intensiva da essencialidade. No “aprisionamento formal”, tendo a existência perdido sua “totalidade espontaneamente integrada e presente aos sentidos”, o drama encontrou um mundo problemático, mas “capaz de tudo conter e fechado em si mesmo”.
O sujeito da épica, na grande épica, continua Lukács (2009, p.48), homem empírico da vida, tem sua presunção criadora e subjulgadora, mas transforma-se em homem comum da existência cotidiana, de modo tão inesperadamente óbvio, em humildade, em contemplação, em admiração muda perante o sentido de clara fulgência que se tornou visível a ele. Nas formas épicas menores, o sujeito enfrenta seu objeto de maneira mais soberana e autosuficiente. O narrador pode até observar “com o gesto frio e altivo do cronista” as manobras, absurdas para eles, do destino dos homens, “revelador de abismos e prazeroso para nós”; ainda que ele eleve à única realidade um pequeno recanto do mundo, ordenado, circundado de desertos caóticos e ilimitados da vida e cristalize esta experiência viva.

A completude dessas formas épicas, portanto, é subjetiva: um fragmento de vida é transposto pelo escritor num contexto que o põe em relevo, o salienta e o destaca da totalidade da vida; e a seleção e a delimitação trazem estampado, na própria obra, o selo de sua origem na vontade e no conhecimento do sujeito: elas são, em maior ou menor medida, de natureza lírica. (LUKÁCS, 2009, p.48-49).

Mircea Eliade (1992, p.28) argumenta que toda criação humana é uma réplica da cosmogonia. “A Criação do Mundo torna-se o arquétipo de todo gesto criador humano, seja qual for seu plano de referência”.
O romance, enquanto epopeia burguesa moderna, supõe, como o poema épico, uma visão total do mundo e da vida. Esta visão da totalidade na arte implica substituir à totalidade extensiva do real, a totalidade intensiva da essencialidade na coerência estética da obra de arte. Iracema não é simplesmente um anagrama de América, bem como Clara dos Anjos não é somente uma jovem negra vitimada pelo destino em um mundo reacionário e preconceituoso, mas ela é a representação artística, como caráter épico, de todas as mulheres negras.
Exemplar a consciência artística de Mário de Andrade bem como seu trabalho criador, na medida em que configurou Carlos, de Amar, verbo intransitivo como “constância cultural brasileira constatada”. (LOPEZ, 1999, p.18). Ora, Carlos se configurava o país, a nação, a pátria.
Devemos, pois, estabelecer uma espécie de pacto analítico orientador do exame aos nossos personagens e as situações narrativas, e isto implica uma adequada orientação metodológica.

REFERÊNCIAS

LUKÁCS, Georg. A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico. 2. ed. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Duas Cidades, 2009.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. Tradução de Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
LOPEZ, T. P. A. Uma difícil conjugação. In: ANDRADE, M. Amar, verbo intransitivo, Idílio. 16. ed. Belo Horizonte: Villa Rica, 1999. p.9-44. 

sábado, 1 de outubro de 2016

CONCERTEZA ALGUMA CERTEZA

Luana Franavia de Souza Pinto 

O que significa aquele mal-estar que nos causa certos termos assumido por certo grupo de falantes, atualmente? Refiro-me, de uma forma muito geral: por um lado aos que não são sensíveis aos padrões adotados pela academia e, por outro, aos alijados do sistema educacional. O fato é que o fenômeno existe.
Bem, os termos em questão, conforme retirei de um post do facebook (“mim adiciona”, “agente vai”, “concerteza” etc.) merecem uma observação isenta, devemos estar librtos do inevitável mal-estar. Como uma justificativa primeira, em nome da liberdade que proponho, está o argumento que o pronome “você” não nos causa nenhum dissabor ao ouvi-lo. Sua origem etimológica, no entanto, encontra-se na expressão de tratamento de deferência “vossa mercê”, que se transformou sucessivamente em vossemecê, vosmecê, vancê e você. Por um lado, a democracia das relações fez sem sentido a deferência, mas, por outro, os ouvidos sensíveis, em princípio, devem ter estranhado e condenado o “você”.
O termo “concerteza” é o que mais gosto. Ora, “com certeza” significa uma certeza plena, robusta, quase incontestável, não é? Surgiu, pois, um significado que carecia de outro significante e o “com”, enquanto partícula acompanhadora (não sei a metalinguagem adequada), aproxima-se à palavra “certeza” para deixar a certeza mais certeza, e, ainda, o “m” do “com”, faz uma concessão à norma padrão e apolinicamente se metamorfoseia em “n”, e, por fim, agarra a certeza e saem juntinhos: concerteza.
Vou adotar o concerteza, porque ele vai se tornar a pedra de toque da intelectualidade.
A própria ignorância das regras do jogo, ao escrever erradamente, é sintomática. Por que alguns condenam e no mesmo sistema alguns adotam? A situação é bastante complexa e abriga no seu âmago um problema infinitamente maior que o erro em relação à norma que estabelecemos como padrão. O que acontece? Eles, os errados, se comunicam sem precisar do sistema e na própria expressão subjaz uma poderosa crítica aos padrões estabelecidos. Ora, eles, os errados, não se importam conosco, os certos, concerteza não se importam com as nossas certezas, mas nós precisamos nos importar com eles, sob pena do nosso fracasso enquanto professores. Eles não precisam de nós, mas nós precisamos deles.
Ora, as mudanças estão ocorrendo e da insensibilidade criadora dos errados, no que se refere à norma padrão, nós devolvemos insensibilidade também. Mas não há nenhuma grandeza na nossa insensibilidade. Há, sim, preconceito, afastamento social e estagnação.
Há um aspecto ideológico, também, no nosso preconceito às inovações linguísticas que precisamos superar. É nesse aspecto, aliás, que deve repousar o desconforto. Estamos acostumados a discriminar quem fala ou escreve erradamente. Quando uma pessoa com pouca formação apresenta um argumento poderoso que incomoda a elite, aplica-se este recurso ideológico desautorizando o referido discurso como se quem não fala ou escreve corretamente, segundo os padrões da norma culta, não pensa corretamente. Falácia perversa de exclusão. Um interlocutor honesto, na mais profunda acepção da palavra, deve corrigir uma argumentação, falada ou escrita, se for o caso, depois de aferir a qualidade da informação em termos de conteúdo. A inteligência, a perspicácia, a consciência não prescindem de formação. Conheço muito analfabetos que me apresentaram respostas sábias em detrimentos de intelectuais que arranham a questão até, por vezes, cerceados pelos próprios estudos. Talvez seja por conta disso mesmo que se procura tanto, academicamente, aproximar o pensamento culto à contribuição popular. Por vezes, numa apresentação procuramos acertar a todo custo o nome desse o daquele pesquisador estrangeiro por conta da corriqueira desautorização do nosso discurso. Até ao corrigir uma avaliação, por exemplo, se tem que tomar o maior cuidado para, primeiramente, não adentrar ao conteúdo inibido pelos erros ortográficos. Erros ortográficos podem até ser passíveis de nota, mas preservando a qualidade das ideias. No caso, por fim, de um estudante de letras, por exemplo, uma consciência importante está em aprimorar-se nos padrões cultos, sem estagnação, antes de avaliar a subversão, sempre saudável.