sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O SER ARQUIVADO

Mauricéia Gonçalves de Magalhães Santos


“A desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas.” Marx.

Ítalo Moriconi reúne em uma coletânea Os cem melhores contos brasileiros do século. Dentro desta compilação há contos primorosos, dos mais variados autores, que desenham o século XX com rigorosa maestria, trazendo à lume um percurso literário e histórico de nossas letras. Na segunda metade do século XX, notadamente nos anos 70, temos o apogeu do conto no Brasil: a qualidade deste gênero supera a da década anterior, afirma Ítalo Moriconi. Intensificam-se os impulsos revolucionários dentro de uma atmosfera de repressão e violência política. O consumismo exacerbado, a internacionalização e o capitalismo selvagem que anula gradativamente os seres, são os motes do contista desta época, para trazer à tona uma realidade que se revela obscura, assustadora e alienante.
Dentre os vários contos da obra de Moriconi, selecionamos O Arquivo (SANT’ANNA,  2009, p.382-384), de Victor Gildice que seguramente continua tão atual quanto na época em que foi lançado. O cenário é o do proletariado e, inserido nele, sua degradação nas mãos do capital, do mercado que corrompe e extingue a essência do ser.
Nosso protagonista, "joão”, em minúsculas mesmo (des) constrói-se gradativa e paradoxalmente durante uma breve narrativa que se revela-se, a priori, nonsense. A pequenez, a nulidade, o fenômeno da reificação, este refletido por Luckàcs em sua obra História e consciência de classe (LUCKÁCS, 2003), é evidenciado neste pequeno conto de Gildice. Tal reificação, nos termos de Luckács, baseia-se num fato de uma relação entre pessoas tomar o caráter de uma coisa, ocultando o traço de sua essência fundamental, isto é, a relação entre os homens. As relações reificadas são representadas a partir das (in) ações do protagonista deste conto.
Ao iniciarmos a leitura, somos surpreendidos com uma narrativa singular e, à medida que o texto avança, temos a necessidade de voltar ao seu início, porque, equivocadamente, acreditamos que há algo de desusado na elaboração deste. Vejamos o início da história:

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos. joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso.  Limitou- se a sorrir, a agradecer ao chefe. (SANT’ANNA,  2009, p.382).

Quais reflexões podemos extrair desta narrativa? Partimos, deste modo, das seguintes assertivas: joão, funcionário comum, tem seu ordenado reduzido gradualmente ao longo de sua trajetória, um rapaz novo e, teoricamente, com fôlego para buscar sua ascensão profissional. O que acontece, contraditoriamente, é um processo de retrocesso, não só salarial, mas, também, espacial, e principalmente humano. Diante destes decréscimos salariais, joão se vê obrigado a mudar de casa e ficar mais distante do centro da cidade: “Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor. Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.” (SANT’ANNA, 2009, p.382). E, conforme os anos iam passando, as “recompensas” aconteciam: o segundo corte salarial, “a empresa atravessava um período excelente”, muitos sorrisos, agradecimentos, contentamentos, novas mudanças, joão começa a comer menos, e isto o ajuda, afinal, está mais esguio, a pele torna-se menos rosada. O narrador, ironicamente, afirma que joão prossegue em sua “luta”, apesar de supostas intrigas de colegas que o invejam. Ele não desiste e passa a trabalhar mais duas horas diárias, como recompensa “ganha” mais um decréscimo em seu salário, rebaixamento de posto e, além disso, menos cinco dias de férias. A narrativa vai tomando consequências inusitadas, joão deixa de jantar, estava “mais ágil”, “mais leve”, as roupas tornam-se desnecessárias. E a vida vai passando com “novos prêmios”, “novas alegrias”. Quando completou sessenta anos, seu salário correspondia a dois por cento do inicial. O processo de declínio é enaltecido e aclamado sarcasticamente pelo narrador:

O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo. O corpo era um monte de rugas sorridentes. (SANT’ANNA, 2009, p.383).

Ao final da narrativa, joão, então, com quarenta anos de serviço, é convocado pela chefia e tem sua função reduzida, agora, é limpador de sanitários e, por conta da eliminação do salário, terá de pagar para se manter na empresa. Agradece todos os benefícios e pede sua aposentadoria, mas esta lhe é negada. Diante de tantas benesses, joão não consegue emitir qualquer argumento e afasta-se: “O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu.  A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento. joão transformou-se num arquivo de metal.” (SANT’ANNA,  2009, p.384).
A partir de um nome comum, joão, a personagem revela-se metonímia da classe operária, que sofre com as pressões e as opressões do mercado capitalista, em que a busca desenfreada por ascensão é incrustrada como sendo algo que pode lhes oferecer uma felicidade, que revela-se forjada. Sabe-se que à medida que os desejos cessam, em que são “satisfeitos”, outras prioridades surgem. No caso do conto, é a degradação, a redução absurda que simbolizam os desejos e anseios de joão. O acúmulo de coisas, de valores impostos pelo mercado transformam o ser humano em produto, em coisa a ser consumida. A satisfação, que é felicidade, está atrelada à momentos que proporcionam prazer fora do capital, fora do próprio ganho, do auto centramento e que sai do plano egoísta, é algo altamente subjetivo, e perceber a vida sob outros vieses, não capitalistas, está cada vez mais problemático. A personagem ilustra, quando se transforma em arquivo, o que de fato ocorre com os “objetos” “joões” assalariados, a ideia de estes são apenas coisas a serem arquivadas e, posteriormente, incineradas para serem substituídas por outras peças, a fim da contínua manutenção do mercado. O capital privilegia a sua própria satisfação – neste caso a monetária - e isso provem de um processo de massificação, alienação e nulidade coletiva que remonta os séculos, desde antes da Revolução Industrial, mesmo que para isso o ser seja sacrificado em defesa do ter. O conto de Gildice explica o quão impiedoso é o sistema no qual estamos inseridos e, mesmo que involuntariamente, estamos nos submetendo adestradamente.

REFERÊNCIAS

SANT’ANNA, A. O Arquivo. In: MORIGONI, Ítalo (Org.). Os cem melhores contos brasileiros do Século. São Paulo: Objetiva, 2009. p.382-384.
LUCKÁCS, George. História e consciência de classe. Estudos sobre a dialética Marxista. Trad. Rodnei Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
GASSET, José Ortega Y. A desumanização da arte. Trad. de Ricardo Araújo. 6ª ed. São Paulo: Cortez, 2008.