segunda-feira, 18 de julho de 2016

SOBRE O FEMINISMO

Dante Gatto

A condição das mulheres na sociedade patriarcal passou, há algum tempo, a ser uma das minhas preocupações por conta do estudo do trágico que me fiz adepto academicamente, mas, principalmente, minha preocupação em relação às mulheres é da ordem do cotidiano e penso que, neste aspecto, não sou diferente aos demais homens, machistas ou não. Um terreno inóspito, no entanto, quer seja ao estudo ou à vida como todos já experimentaram.
Ao buscar refletir nesse sentido me vi um tanto quanto desamparado, afinal, eu não tenho um útero e isto faz muito sentido ao movimento feminista se bem que ainda estou mais para aceitação do que para compreensão. Como Sócrates naquele conhecido Banquete, cujo tema escolhido foi o amor, recorreu a uma sacerdotisa, Diotima, eu recorri a uma feminista do meu círculo de amizade. Segue, abaixo, sem aspas ou recolhimento suas considerações acerca do feminismo:

Eis uma dialética do feminismo:
1)      Nascemos para amar. O amor suscita felicidade e, desde sempre buscamos correspondência nesse sentido;
2)      Há infinitos objetos amorosos que a vida e a cultura nos proporcionam: amamos nossos pais, nossos irmãos, nossos amigos, nossos animais;
3)      A maneira íntima que, por vezes, o amor se projeta implica uma vontade de plenitude, de totalidade de tal forma que queremos entrar naquele corpo, tomar pose dele, ser parte dele, e um instinto feroz acompanha todo o envolvimento amoroso. Talvez, seja essa a forma mais profunda de amor, como a maternidade;
4)      Essa forma mais profunda de amor que busca uma unidade de dois pode envolver uma mulher;
5)      Essa mulher, inevitavelmente, está marcada por uma cultura que a determinou como objeto e posse de, pelo menos, um homem;
6)      A grandeza do ser está no seu potencial amoroso e a projeção mítica máxima está no Deus Pai, todo poderoso etc., à medida que o seu amor é incomensurável. “Amai o teu próximo como a ti mesmo”, sentenciou o Deus vivo;
7)      Ele (homem) a ama (mulher). Mas que amor é este? Diferente dos demais amores, porque mais orgânico, mais doloroso, mais inevitável, mais visceral, mas ainda ele não ama um igual, mas um objeto;
8)      A relação que persiste, ainda, entre homens e mulheres é de dominação, que implica vítimas e algozes num contexto em que todos são infelizes.
O feminismo é o grito da mulher negando a condição de objeto. Tal negação, no entanto, não se faz fácil, porque está incrustrado no inconsciente coletivo com uma legitimidade divina. Mas ela grita: “ama-me como a ti mesmo”. Ela grita: “vamos destruir a realidade que nos faz diferentes, tirar todos os escolhos da cultura que determina a sociedade dividida em sexo e nos faz a todos infelizes, ainda que você não perceba”. Tal revolução não é fácil, porque abala condicionamentos profundamente sedimentados com os quais nos reconhecemos, abalam as instituições todas moldadas para uma sociedade patriarcal.
Por fim, a quem beneficiaria sobremaneira toda uma revolução feminista (é como designo as transformações necessárias para uma sociedade sexualmente igualitária)? Beneficiaria ao homem, sobretudo, porque experimentariam uma condição amorosa plena. E o que implica isto? Ora, como já disse: implica a completude enquanto ser, isto é, a completa felicidade possível.

O feminismo é uma forma profunda e crítica de amor.

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