quarta-feira, 8 de junho de 2016

REFLEXÕES ACERCA DO CIÚME NA LITERATURA: EURÍPEDES E EDUARDO MAHON

Cindy Silva Cossolin

O ciúme é um dos vários sentimentos da condição humana, presente desde sempre. Sinalizado, inclusive, na Bíblia Sagrada, em “Provérbios” (27:4): “Crueldade do furor, ímpetos da cólera: mais quem pode suportar o ciúme?” (BÍBLIA SAGRADA, 1971, p.810). Essa manifestação emocional está presente em incontáveis narrativas ao longo da história da literatura e, na maioria dos casos com desfecho catastrófico, frequentemente a morte.
Um exemplo de narrativa trágica tendo o ciúme como alicerce é a tragédia Medéia de Eurípedes (480 a.C.-406 a.C.). Trata da história de uma mulher abandnada pelo marido que prometeu casamento a outra moça mais jovem, a princesa de Lolcos, na Tessália. Entorpecida pela dor da perda, Medéia definha em estado de tristeza profunda: “Jaz sem comer, o corpo abandonado à dor, consumindo nas lágrimas todo o tempo, desde que se sentiu injuriada pelo marido, sem erguer os olhos, sem desviar o rosto do chão”. (EURÍPEDES, 2004, p.5).
De tanto lamentar e maldizer o esposo infiel, Medéia é expulsa pelo Rei Creonte que teme a vingança como era prerrogativa dos gregos. Com mais essa humilhação, ela perde a sanidade, implora mais um dia nas terras de Creonte, dizendo-lhe palavras afáveis, mas a finalidade é consumar silenciosamente a morte de seus próprios filhos e de sua rival, como confessa à Diké (filha de Zeus).
Ao concretizar o assombroso plano, Medéia recebe um criado de Jasão, que vem às pressas clamar que ela fuja das terras de Creonte, pois a morte da princesa levou também a morte de Creonte que desesperado ao ver o corpo da filha sem vida, debruça-se sobre a falecida, e é consumido pelo poderoso veneno. Medéia, então, parte para a segunda parte da sua vingança: matar os filhos. Ela, ainda, não permite a Jasão nem sepultar ou tocar os corpos, como era ritual sagrado aos gregos antigos, e foge, finalizando dessa forma a tragédia.
Emoção forte, presente também na contemporaneidade, temos “Ciúme”, conto de Eduardo Mahon, no livro Doutor Funéreo e outros contos de morte (2014): antes mesmo da traição, o sentimento sucumbiu o personagem: “O ciúme não era razoável. Já passara do limite do machismo, para entrar no lamacento terreno do patológico.” (MAHON, 2014, p.62). No caso, um velho médico, rico, com filhos e ex-esposas, que se casará com uma ninfeta “gostosíssima”, conforme o narrador explícita:

Casaram-se com larga diferença de idade. De idade e tudo o mais, não sejamos hipócritas. Ele, médico, quatro filhos, duas ex-mulheres, dono de uma pequena clínica de cirurgia plástica, rico, gordo, calvo, sessenta e poucos anos; ela, universitária, dezenove anos, pobre e gostosíssima: currículo invejável de um para o outro. (MAHON, 2014, p.62).

O casamento seguia com altos e baixos: “Após as crises de ciúme nas quais rasgavam roupas, destruíam a louça, e plantavam hematomas nas pernas, braços, e pescoços, amavam-se febrilmente.” (MAHON, 2014, p.62). E tem mais: “Arrependeu-se pela piscina, porque não a queria tomando sol. Mesmo que não houvesse jardineiro ou piscineiro para espiar as curvas da ninfeta, a imagem da seminudez exposta o fazia arrepiar de ciúme.” (MAHON, 2014, p.64). Ele chega ao ponto de proibi-la de pôr os pés para fora da soleira de casa, com pavor de que algum outro homem apreciasse a sua beleza.
 A morte do médico se revela de forma sucinta, quando um rapaz que faz pesquisas populacionais toca a campainha da mansão, onde o casal morava e é surpreendido com a notícia de que somente a jovem ainda residia lá, viúva.
Na tragédia clássica grega, o ciúme que a esposa traída sentia, levou-a a traçar a morte de seus filhos e de sua rival, que acabou se estendendo ao Rei Creonte. Terrível, não é? Com Mahon, a morte, apesar de discretamente tecida, é tão trágica quanto a anterior. O marido ciumento foi trocando a liberdade da esposa pelas comodidades que só o dinheiro pode fornecer, e ela: “aceitou resignada a profissão de madame.” (MAHON, 2014, p.62). Nisso, o médico bloqueou tanto a presença da esposa no mundo que acabou por anular a sua própria existência, já que reduzia sua vida ao ciúme.
Ora, a que constatação, por fim, não restou de tais leituras? O ciúme mata o ser, mesmo que o defunto ainda respire. E talvez tal morte seja mais trágica que a morte física.

Referências

BIBLIA SAGRADA. Provérbios. Cuiabá: Escola profissionais salesianos, 1971.
EURÍPIDES. Medéia. Texto integral. Tradução de Miroel Silveira e Junia Silveira Gonçalves. São Paulo: Martin Claret, 2004.
MAHON, Eduardo. Ciúme. In.: Dr. Funéreo e outros contos de morte. Cuiabá: Carlin & Caniato, 2014. p.62-64. 

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