terça-feira, 7 de junho de 2016

O SENTIDO TRÁGICO DA MORTE

Este texto foi publicado também no Jornal Tribuna de Tangará:
GATTO, Dante ; TORRES, Isamar Valdevino Froio . O sentido trágico da morte. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, p. 06, 21 maio 2014.

Isamar Valdevino Froio Torres
Dante Gatto

Foi esplendoroso, mas breve o tempo da tragédia grega. Talvez a maneira mais didática em pensa-la seja por meio da sua morte. O racionalismo socrático está neste processo. Nietzsche argumenta que da mesma forma que Platão não podia entender o primeiro plano da atividade poética, Sócrates não podia entender a tragédia. Eurípedes pensava de maneira similar, na medida em que concebia o belo enquanto inteligibilidade. Como sabemos, os três grandes dramaturgos gregos foram Ésquilo, Sófocles e Eurípides, mas este último já se configura o arauto de uma nova arte, por conta do racionalismo.
O que foi a história do homem senão um processo de ascensão da burguesia? O pensamento mítico foi cedendo terreno ao pensamento racional. Nietzsche explica o fenômeno (1984, p. 17): antes de Sócrates, as “maneiras dialéticas” eram proscritas pela boa sociedade, tidas como inconvenientes. O racionalismo tornou-se forçoso como remédio e, diante disto, não é pequeno o perigo de que outra força nos tiranize: ou sucumbir ou ser absolutamente racional. Opera-se, pois, uma completa inversão de valores. Agora, qualquer concessão aos instintos e ao inconsciente nos rebaixa.
Na perspectiva kantiana, conforme Schiller (1964, p.47), razão é a faculdade das ideias, que, como postulado, ultrapassa o conhecimento conceitual e científico, uma vez que acolhe elementos de ordem sensível (entendemos sentindo) é por conta disto inventamos a arte. No entanto, praticamos cotidianamente o termo razão numa dimensão puramente de articulação de conceitos. Na verdade, o que praticamos é uma confusão do termo razão com o termo racionalismo. Racionalismo seria, pois, a razão eclipsada, atacada do pragmatismo que imprimimos à vida. Aliás, todos os ismos acabam resumindo o adjetivo à uma perspectiva reduzida e limitada.
A força irreprimível da palavra, no mundo da Grécia antiga, enquanto suprimento da democracia no século V a.C., vicejou no horizonte ainda dominado pela coerência mítica e o resultado disto foi a tragédia grega, como já nos referimos. O herói passou a prestar conta à comunidade, como um cidadão que se tornou, e na adequação a essa nova ordem é que se criaram condições propícias à inevitável catástrofe, que representa o encontro consigo mesmo. Não havia saída. Foi em momentos específicos de forte racionalismo, como na Grécia antiga ou na Inglaterra elisabetana, pela forte pressão da realidade. A tragédia, portanto, ganhou lugar na literatura como resposta à tentativa de suprimir os sentimentos e encarcerar o ser.
O racionalismo alcançou o paroxismo com o pragmatismo burguês ao mesmo tempo, por falta de saída, em que fomos inventando a “produtividade do espírito” (LUKÁCS, 2009, p.31) nas infinitas formas de conciliação e sublimação. A tragédia passou a ser individual e psicológica, metonímica de um contexto maior; e o júbilo ao despedaçamento dionisíaco, que tornava terrível a perspectiva nietzschiana, e por vezes incompreendida, ganha sentido de pura realização do espírito, de morte psicológica.
No heroísmo clássico era forçosa a ênfase na posição social. O herói estava atrelado ao destino da casa ou do reino que o homem de posição incorporava, conforme argumenta Williams (2002, p.74-75). Era inevitável, portanto, que houvesse rejeição da burguesia. O indivíduo era uma entidade em si mesma e não o Estado. Isto implicou perda e ganho: o sofrimento individual podia ser considerado de maneira mais séria e direta, mas se perdia o caráter geral e público da tragédia. Ora, a ideia de uma ordem trágica passou a conviver com a perda de qualquer ordem desse tipo. No âmbito da teoria isto significou “a abstração da ordem e a sua mistificação”. Uma consequência foi a substituição da posição social na tragédia ao jogo de títulos dos dramas de costumes. A condição significativa da posição de rei (encarnação do povo) tornou-se um cerimonial vazio (condes, duques etc). “[...] uma ordem social reduzida a uma educação clássica sem viço ou vida”. A ligação homem, Estado e mundo tornou-se uma ordem puramente abstrata.
O despertar da consciência para a ausência de vida na existência se configura como elemento da tragédia contemporânea. Morremos para uma forma de vida ao mesmo tempo em que nascemos para outra, mesmo que as amarras do corpo não se tenham rompido. A tragédia antiga no mais das vezes implicava desfecho catastrófico. O páthos trágico, no entanto, agora, perde a grandeza por conta da necessidade de olhar o detalhe que cresce em significação como saída possível. Agora, a morte conquista seu mais profundo significado trágico, na consciência da inteireza da vida. Agora, podemos entender o trágico como reinvenção do ser e sua significação epifânica. Esta nisto a permanência da tragédia em todas as formas literárias por meio do trágico e sua sobrevivência como lírica da alma.

Referências

LUKÁCS, Georg. A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico. 2. ed. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Duas Cidades, 2009.
NIETZSCHE, F. W. Crepúsculo dos Ídolos ou filosofia a golpes de martelo. Trad. Edson Bini e Márcio Pugliesi. São Paulo: Hemus, 1984.
SCHILLER, Friedrich. Teoria da tragédia. São Paulo: Herder, 1964.
WILLIAMS, Raymond. Tragédia moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

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