domingo, 12 de junho de 2016

O INFERNO NO IMAGINÁRIO INFANTIL: UMA REFLEXÃO PARA BRASILEIROS

Clairton José Weber

Em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, publicado pela primeira vez há mais de setenta anos (em 1938, pela José Olympio), temos, novamente a narração da sina dos retirantes nordestinos. Ramos coloca em cena uma família: pai, mãe, dois filhos pré-adolescentes e a cachorra Baleia.
Nosso objetivo aqui é estabelecer uma comparação entre o que se passa entre um dos filhos de Fabiano (personagem protagonista da novela de Graciliano Ramos) e o personagem principal do romance de James Joyce Retrato do artista quando jovem (publicado em 1916, narra experiências de infância e adolescência de Stephen Dedalus, alter ego do autor), no que concerne especificamente à concepção do que seja o inferno.
Numa determinada idade – todos os pais sabem disso –, as crianças estão impregnadas dos “por ques”. Querem saber tudo e não se contentam com uma rala explicação. De alguma forma precisam materializar o que lhes chega por palavras. A palavra inferno surge na vida do “menino mais velho” – assim eram chamados os filhos de Fabiano, pelo narrador de Vidas Secas, quando o pai recebe uma benzedeira para curar da “espinhela caída” – costume mantido até hoje, inclusive aqui em Tangará da Serra. A benzedeira, sinhá Terta usava um linguajar estranho que o menino não entendeu:

Ele nunca tinha ouvido falar em inferno. Estranhando a linguagem de sinhá Terta, pediu informações. Sinhá Vitória [a mãe], distraída, aludiu vagamente a um certo lugar ruim demais, e como o filho exigisse uma descrição, encolheu os ombros. (RAMOS, 1986, p. 54).

            Ainda no mesmo dia, o menino insistiu, então: “Sinhá Vitória falou em espetos quentes e fogueiras. – A senhora viu? Aí sinhá Vitória se zangou, achou-o insolente aplicou-lhe um cocorote.” (RAMOS, 1986, p. 54).
No outro lado do mundo, uma personagem de James Joyce, também se impressionava com a descrição do inferno. O garoto estudava num colégio administrado por padres. Os professores, naturalmente padres. Lá a descrição do inferno vem com todos os detalhes, o que impregnou penosas impressões no jovem Dedalus.
Os sermões que se estenderiam por quatro dias como parte da comemoração do aniversário de São Francisco Xavier, despertou a alma do jovem Delalus para um desespero sem amparo. “A débil claridade do medo tornou-se em terror  do espírito, quando a voz rouquenha do pregador derramou morte dentro de sua alma.” (JOYCE, 1987, p. 118). A longa reflexão do jovem Dedalus se dá embalada pelas sugestões do pregador e o narrador passa da morte ao julgamento que aprofunda o sentimento trágico da vida no jovem protagonista. Na medida em que ele recorda seu passado, faz seu julgamento. “A morte, a causa de terror para os pecadores, é o abençoado momento para aquele que caminhou pelo caminho reto, cumprindo plenamente os deveres da sua estada na vida [...]” (JOYCE, 1987, p. 120).
Stephen Dedalus tinha lá os seus “pecados” – os pecados dos seus dezesseis anos vividos sem muitas regras –, divagava durante o sermão do Padre Arnall. Julgou-se culpado e condenado ao fogo do inferno que nunca apaga. Ouviu atentamente o sermão que descreveu a queda de Lúcifer, Adão e Eva e a passagem de Jesus Cristo sobre a terra. “O inferno é uma estreita, negra e sórdida prisão fétida, uma habitação de demônios e de almas perdidas, cheia de fogo e de fumaça” (JOYCE, 1987, p. 125), enumerava o pregador. E Dedalus se imaginou neste lugar.
Nas páginas que seguem, com riqueza de detalhes, o narrador (pelos sermões do padre) vai descrevendo o inferno. Fala do fogo que não emite nenhuma luz e diferentemente do fogo como conhecemos (o fogo terrestre) que consome e se consome, o fogo do inferno nunca termina. Fala do tormento dos condenados, do lamento dos pecadores e do tempo perdido: “Tempo existe, tempo existiu, mas tempo não existirá mais!” (JOYCE, 1987, p. 128). Eis a sentença trágica dos pecadores. E o jovem, diferentemente do filho mais velho de Fabiano, obteve, mesmo sem ter solicitado, uma descrição do inferno. “Stephen desceu a nave da capela, com as pernas tremendo e o couro cabeludo se arrepiando em sua cabeça como se as mãos de fantasmas o estivessem tocando.” (JOYCE, 1987, p. 129).
Mas o Padre Arnall não parou por aí. No dia seguinte, retoma o assunto enumerando as penas a que são submetidos os pecadores, já no inferno. A primeira é a da perdição: “[...] os danados no inferno, para seu maior tormento, têm uma compreensão total daquilo que perderam e compreendem que devido aos seus pecados o perderam para sempre.” (JOYCE, 1987, p. 132). Depois fala do castigo da consciência. Extensão e intensidade. “Ilimitada extensão de tormento, incrível intensidade de sofrimento, incessante variedade de tortura – [...]” (JOYCE, 1987, p. 135). Isso tudo, por toda a eternidade.
No posfácio da edição de Vidas Secas, consultado para esse artigo, Valores e misérias das vidas secas o professor Álvaro Lins dá o tom do narrador da obra brasileira: “Com uma fria impassibilidade, o romancista contempla a miséria humana de seus personagens. Não lhes concede a mínima piedade.” (RAMOS, 1986, p. 131).
De qualquer forma, se o Ocidente legou-nos uma concepção terrível de inferno com uma punição implacável, a miséria estética de Ramos evitou tal apreensão, deixando à vida terrena, calcinada pela seca, toda a imensidade do sofrimento infernal, com a utopia do céu de Baleia, pela remissão da morte: “Baleia tremia toda, a cabecinha fatigada na pedra. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás”. (RAMOS, 1986, p. 91).
Quanta desesperança, por vezes, a realidade brasileira nos oferece, como a seca de Graciliano, anunciando a redenção transcendental como única saída.
        
REFERÊNCIAS
JOYCE, James. Retrato do artista quando jovem. Trad. José Geraldo Vieira. Rio de Janeiro: Ediouro, 1987.
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 57 ed. São Paulo: Record, 1986.

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