sábado, 11 de junho de 2016

O DIA DOS NAMORADOS: SENSIBILIDADE E MÁSCARA

Erenil Oliveira Magalhães

O dia dos namorados é uma data celebrada todos os anos e por vezes ficamos submersos em toda modalidade de propaganda. O comércio nesse período investe pesado com o intuito de gerar lucro, e isto é perfeitamente normal, afinal, vivemos num mundo capitalista, alimentado por produção e consumo.
Pertencemos a um contexto em que, muitas vezes, as aparências falam mais alto e tiram todo encantamento que pode ser esse momento. É trágico pensar que ninguém realmente se importa com o outro, e às vezes o amor é medido simplesmente pelo ter, tornando mecânico os relacionamentos. E por que não pensarmos no ser especial e como podemos fazer a diferença na vida do outro? O sentido dessa diferença não está nos mecanismos externos da realidade, mas no misterioso desvendamento do ser. Nesse sentido, é preciso fazer diferença. Assim, tudo que está fora disso ficaria em segundo plano: o presente que alimenta a máquina capitalista seria uma consequência de demonstração sincera de carinho e de bem querer, atrelada ao sentimento. O presente, portanto, deve ser algo que exterioriza tudo isso que brota do âmago do ser.
Com toda certeza, o habitual presente não pode se tornar o mais importante, e se isso acontece, como testemunhamos muitas vezes, é porque o interior não é tão significativo e não pode sustentar a profundidade do significado do ser especial, de fazer sentido na vida do outro.
Precisamos ir além disso: é concebível que as propagandas explorem esse afã de demonstrar o sentimento de singularidade na vida do outro, afinal o comércio só sobrevive se vender. Portanto, não cabe ao comércio e aos publicitários refletir sobre o caráter elevado do presente do dia dos namorados, mas é significativo à vida quando identificamos tal preocupação e a propaganda se revela arte. Cabe a nós concebermos o presente como mera consequência da presentificação da vida do namorado na vida da namorada e vice-versa. O amor não pode ser medido pelo tamanho da conta bancária. Ora, o valor do presente material está em dignificar o presente, o momento, nem que seja uma pétala de uma flor destroçada ou um olhar que, por vezes, custa o olho da cara.
Como já enfatizamos, a medida do presente deve estar na valorização do ser, mas isso não implica no esquecimento do ter. A administração desse convívio essencial (individual e social, que seja) é que dá a dimensão da tragédia da vida. A valorização do ter em desequilíbrio com o ser tem uma resposta interior que no mais das vezes não conseguimos interpretar e somos solapados por um sentimento tácito que identificamos por vários nomes: tristeza, angústia, melancolia, depressão e solidão. Solidão mesmo que estejamos acompanhados.
Resumindo o que queremos dizer: as máscaras devem cair. A máscara é a mais clara evidência do trágico. Quando surgiram, no teatro antigo, tinham a clara significação que o ator assumia outra personalidade. Acolhia-se o jogo facilmente, penso eu, pela evidência mimética. Com o tempo foi-se dispensando as máscaras, porque cabia ao talento do ator assumir a máscara se bem que sempre fazem alguma maquiagem quando se trata, por exemplo, do corcunda de Notre-Dame ou do Cyrano etc.
As contradições do sentimento amoroso levam as pessoas a assumir o recurso da máscara, pelo menos para si mesmo. A ficção já explorou isto exaustivamente, porque é lúdico e trágico. Aliás, o trágico está na essência do lúdico, mas haveremos de explorar tal questão em momento oportuno.
Nas máscaras que nos impomos reside o aspecto trágico dos relacionamentos amorosos, mas também pode estar associado à falta de sensibilidade de perceber o outro com todos os seus defeitos e limitações como identifica Fábio de Melo: “Só nos sentimos amados de verdade quando podemos nos mostrar de fato, quando podemos dizer eu sou só isso [...] e que o outro perceba que ele precisa desse pouco que você pode ser [...] E só assim começamos nos fazer bem e também fazer bem ao outro”. O mesmo Fábio de Melo ainda orienta que devemos entrar na vida do outro para fazê-lo melhor, sob pena de não fazermos a menor diferença. Nesse sentido, a máscara é descartável e o embrutecimento dos apelos do ter é doentio, em se considerando o que nos é essencial, o que mais nos interessa, o ser.
Dê um presente para você mesmo neste dia dos namorados, além do presente que dará ao outro: abra um canal de sensibilidade para o ser e olhe com mais clareza para ele ou ela, e jogue fora as máscaras do ter. Se por acaso você perder o namorado ou a namorada chore que faz bem, enquanto discernimento da tragédia da vida, e isto, paradoxalmente, vai te fazer mais feliz e de uma felicidade duradoura, porque plena do ser.

Nenhum comentário:

Postar um comentário