quinta-feira, 9 de junho de 2016

ASPECTOS DO REALISMO LITERÁRIO NA PERSPECTIVA DO TRÁGICO

Este texto foi publicado também no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência:

GATTO, Dante; MENDONÇA, Adriana Monteiro. Aspectos do realismo literário na perspectiva do trágico. Tribuna de Tangará (ISSN 23577541), Tangará da Serra, p. 7, 23 jul. 2014.

Dante Gatto
Adriana Monteiro Mendonça

            Ao se pensar no trágico somos, de imediato, levado a sua origem que é de ordem religiosa. Se não podemos dizer que o pensamento trágico nasceu da religião, podemos, com certeza, dizer que ele se tornou reconhecível por meio dela. Eliade (1992, p.12) começa a sua obra O sagrado e o profano referindo-se ao livro de Rudolf Otto, Das Heilige (1917), que trouxe a novidade de estudar a religião a partir das modalidades da experiência religiosa e não da ideia de Deus. Conseguiu, assim, esclarecer o conteúdo e o caráter específico dessa experiência que não está no lado racional e especulativo da religião, mas no lado irracional. A ideia de Deus já é uma racionalização.  
          O próprio impulso de conhecer é coisa instintiva, mas tendemos a racionalizar o conhecimento. Unamuno foi incisivo nesse sentido:

[...] Mas será que podemos conter esse instinto que leva o homem a querer conhecer e, sobretudo, a querer conhecer o que leva a viver, e a viver sempre? A viver sempre, não a conhecer sempre. Porque viver é uma coisa e conhecer outra e, talvez haja entre ambas tal oposição, que não possamos dizer que tudo o que é vital é anti-racional, e não só irracional, e tudo o que é racional, antivital. Esta é a base do sentimento trágico da vida. (UNAMUNO, 1996, p. 33). 

A condição trágica do Homem é de caráter ontológico, o que implica necessariamente seu lugar privilegiado enquanto matéria literária. Queremos dizer: conhecemo-nos à medida das experiências trágicas que vivemos.
Em outras ocasiões, refletimos as condições do trágico: o forte racionalismo que, por vezes, por condições econômicas e sociais, imprimimos à vida. Ora, o racionalismo tenta negar a nossa essência irracional. Isto implica, metaforizando, encarcerar o deus. Com Dioniso preso temos também Apolo impotente em se pensando na dinâmica do trágico como Nietzsche queria.
            O realismo literário surgiu em momento de forte racionalização, principalmente como antítese do idealismo romântico. Fazia-se imprescindível voltar o olhar e a razão para a realidade, tendo em vista que se mergulhara numa espécie de patologia do sentimentalismo. As correntes científicas da época, como sabemos, deram respaldo e condições propícias para a efetivação do fenômeno. A literatura como nunca dantes esteve, no final do século XIX, subserviente à ciência. Pela teoria do evolucionismo, de Darwin, o homem passa a ser visto meramente como um animal, regido pelo instinto biológico. O positivismo defendia posturas exclusivamente materialistas e limitava o conhecimento das coisas apenas quando estas podem ser provadas cientificamente. A realidade é apenas aquilo que vemos, pegamos e podemos explicar, totalmente contraria as teorias metafísicas. O determinismo e o experimentalismo tiveram, também, papel importante. Passou-se a acreditar que o homem é fruto do meio, da raça e do momento histórico, bem como, não se deve afirmar nada antes de comprovado. O chamado Romance de Tese ou Romance Experimental ganhou significação neste contexto. O Bovarismo constituiu-se num fenômeno do período. As causas da decadência moral da mulher no século XIX estariam ligadas à excessiva leitura de livros românticos, à vida ociosa e a religiosidade.
         Ao dizer que a literatura se mostrou subserviente à ciência não devemos generalizar, mas há casos exemplares, mesmo sob a regência de grandes escritores como Eça de Queirós, que exagerou no bovarismo. Caso exemplar está no conto “No Moinho”. A protagonista acaba limitada no seu desempenho trágico: de santa passa a Vênus de uma maneira completa e radical. Temos, pois, a tentativa de provar que o romantismo era um mal e sabemos que não necessariamente as coisas são assim como há pouco nos esclareceu Unamuno. Ficou-se, pois, na aparência da realidade.
A descrição da aparência do fenômeno da realidade objetiva, o imediatamente perceptível, em detrimento da essencialidade, era a proposta do positivismo para a literatura. Sente-se, pois, o abalo a especificidade do literário que para nós é o trágico. No caso do conto “No Moinho”, a dinâmica do narrador é fortemente parcial: em um primeiro momento praticando visão compartilhada e discurso indireto livre se trazia à tona a consciência da protagonista (essencialidade) para, depois, quando degradada, abandoná-la, praticando uma visão de fora que só descreve as ações, na perspectiva objetiva do realismo. Temos com isso um prejuízo para o trágico que, inclusive, compromete até a verossimilhança da narrativa. Se, como afirmamos, o forte racionalismo induz ao trágico, porque é a negação da nossa natureza irracional, a resposta a tal negação não deve se reduzir à pura irracionalidade como foi o caso de Maria da Piedade.

Referências
MIRCEA, Eliade. O sagrado e o profano. Tradução de Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

UNAMUNO, Miguel de. Do sentimento trágico da vida. Organização e tradução de John O’Kuinghttons. São Paulo: hedra, 2013.

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