terça-feira, 21 de junho de 2016

A CONDIÇÃO FEMININA: DO ALIJAMENTO SOCIAL AO CORAÇÃO SELVAGEM

Silvana Verciano

Desde o nascimento, a mulher traz o estigma das responsabilidades peculiares, herdadas desde a antiguidade, cuja maior evidência está na sagrada escritura: Deus, ao expulsar o primeiro casal do paraíso, Adão e Eva, decreta à mulher, como forma de punição (por terem pecado), que a mesma teria as suas dores multiplicadas, ao dar a luz à filhos e o desejo dela seria somente para o seu marido e, em contrapartida ele a dominaria. A história sagrada está na base do papel da mulher na sociedade. A ela é relegada a posição de auxiliar, sujeita a mando e desmandos do homem. Ficou também designada ao cuidado da casa, dos filhos, do marido e tudo que ela fizer vai girar em torno da família, como se ela não tivesse vida própria, como se necessitasse da autorização do chefe da casa para respirar. Alias ainda hoje o texto de Gênesis (3.16) é usado para justificar a submissão feminina. Com efeito, a Bíblia delineou o modelo de representação lógica da mulher, enfatizado pelo cristianismo medieval como forma de controle que perdura até os dias de hoje.
A personagem Joana do romance Perto do Coração Selvagem (1944), de Clarice Lispector, é a representação da própria inquietação, é a imagem da transgressão, do relançar-se contínuo de uma força que se sustenta nessa própria condição, na ruptura e na descontinuidade.  Temos ainda uma mulher, Joana, em busca do sentido de sua existência que se vê diante dos desafios do dia a dia, das convenções sociais e religiosa, relações familiares entre outras situações. Enfim, Clarice nos traz diversas possibilidades de se pensar o papel social da mulher, de problematiza-lo, enfrenta-lo e refletir sobre tal condição e submissão. Nesta obra a autora aponta a situação dramática da mulher dentro da estrutura social:

Julgava mais ou menos isso: o casamento é o fim, depois de me casar nada mais poderá me acontecer. Imagine: ter sempre uma pessoa ao lado, não conhecer a solidão. – Meu Deus! – não estar consigo mesma nunca, nunca. E ser uma mulher casada, quer dizer, uma pessoa com destino traçado. Daí em diante é só esperar pela morte. Eu pensava: nem a liberdade de ser infeliz se conservava porque se arrasta consigo outra pessoa. (LISPECTOR, 1980, p.159).

Está nisso uma ideia de subversão às regras ao não se submeter à supremacia do discurso masculino, é uma ameaça à representação estável buscada e idealizada por seu marido Otávio, enquanto representante na narrativa do mundo patriarcal. Afinal, quem disse que é dever da mulher esperar o marido de volta do trabalho, alimentar bem os filhos, cuidar da educação dos mesmos, e ao mesmo tempo, cuidar das obrigações do lar, como limpar, lavar, passar e cozinhar? São apenas convenções sociais reproduzidas através de várias instâncias sociais dentre elas a Igreja, o Estado e a Família. Pode-se notar em Perto do Coração Selvagem uma identidade feminina que luta para apropriar-se de si mesma, longe do reflexo do cônjuge, rompendo com definições preconcebidas.
Assim, a escritora aponta a trágica situação da mulher dentro da estrutura social. Em determinado momento, ela deseja se libertar da rotina que lhe é imposta pela vida cotidiana: ou ela se molda e se torna uma mulher de acordo com as convenções e expectativas de uma determinada sociedade; ou ela não se enquadra, e é rejeitada por ser diferente. A quebra da rotina trará a sensação de liberdade, no entanto provocará sentimentos de angústia e de medo diante da situação nova; e se a rotina é mantida o enfado tende a se agravar. E assim, o ser mulher vai destruindo e enfraquecendo os laços que a une a própria vida, isto é, ao coração selvagem.
Perto do Coração Selvagem, cabe lembrar novamente teve sua primeira publicação em 1944, mas, não obstante todas as conquistas das mulheres nesses últimos sessenta anos, a tensão trágica permanece: a necessidade de se libertar dos paradigmas do cotidiano se contrapõe à convencionalidade e expectativas da sociedade, isto é, a aceitação fere á consciência enquanto ser e a rejeição implica a exclusão do quadro social que, por condição humana, anseia por ser aceita.
A dramaticidade da situação ganhou relevâncias nesse momento histórico sob a evidência da cultura do estupro e da contraditória valorização da condição de “bela, recatada e do lar”. Implicações claras do alijamento social da mulher da participação social, relegando-a à patriarcal submissão e perspectivas fascistas. E a mensagem de Lispector se faz pertinente mais do que nunca. Da tensão que se insinua vigorosa, para onde devemos ir? O próprio título do romance diz tudo: devemos ir para mais parte do coração selvagem, conquistando nossa condição humana.

Referências

LISPECTOR, Clarice. Perto do Coração Selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
BÍBLIA SAGRADA. 43. ed. São Paulo: edição Pastoral Paulus, 2001.

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