terça-feira, 21 de junho de 2016

A CONDIÇÃO FEMININA: DO ALIJAMENTO SOCIAL AO CORAÇÃO SELVAGEM

Silvana Verciano

Desde o nascimento, a mulher traz o estigma das responsabilidades peculiares, herdadas desde a antiguidade, cuja maior evidência está na sagrada escritura: Deus, ao expulsar o primeiro casal do paraíso, Adão e Eva, decreta à mulher, como forma de punição (por terem pecado), que a mesma teria as suas dores multiplicadas, ao dar a luz à filhos e o desejo dela seria somente para o seu marido e, em contrapartida ele a dominaria. A história sagrada está na base do papel da mulher na sociedade. A ela é relegada a posição de auxiliar, sujeita a mando e desmandos do homem. Ficou também designada ao cuidado da casa, dos filhos, do marido e tudo que ela fizer vai girar em torno da família, como se ela não tivesse vida própria, como se necessitasse da autorização do chefe da casa para respirar. Alias ainda hoje o texto de Gênesis (3.16) é usado para justificar a submissão feminina. Com efeito, a Bíblia delineou o modelo de representação lógica da mulher, enfatizado pelo cristianismo medieval como forma de controle que perdura até os dias de hoje.
A personagem Joana do romance Perto do Coração Selvagem (1944), de Clarice Lispector, é a representação da própria inquietação, é a imagem da transgressão, do relançar-se contínuo de uma força que se sustenta nessa própria condição, na ruptura e na descontinuidade.  Temos ainda uma mulher, Joana, em busca do sentido de sua existência que se vê diante dos desafios do dia a dia, das convenções sociais e religiosa, relações familiares entre outras situações. Enfim, Clarice nos traz diversas possibilidades de se pensar o papel social da mulher, de problematiza-lo, enfrenta-lo e refletir sobre tal condição e submissão. Nesta obra a autora aponta a situação dramática da mulher dentro da estrutura social:

Julgava mais ou menos isso: o casamento é o fim, depois de me casar nada mais poderá me acontecer. Imagine: ter sempre uma pessoa ao lado, não conhecer a solidão. – Meu Deus! – não estar consigo mesma nunca, nunca. E ser uma mulher casada, quer dizer, uma pessoa com destino traçado. Daí em diante é só esperar pela morte. Eu pensava: nem a liberdade de ser infeliz se conservava porque se arrasta consigo outra pessoa. (LISPECTOR, 1980, p.159).

Está nisso uma ideia de subversão às regras ao não se submeter à supremacia do discurso masculino, é uma ameaça à representação estável buscada e idealizada por seu marido Otávio, enquanto representante na narrativa do mundo patriarcal. Afinal, quem disse que é dever da mulher esperar o marido de volta do trabalho, alimentar bem os filhos, cuidar da educação dos mesmos, e ao mesmo tempo, cuidar das obrigações do lar, como limpar, lavar, passar e cozinhar? São apenas convenções sociais reproduzidas através de várias instâncias sociais dentre elas a Igreja, o Estado e a Família. Pode-se notar em Perto do Coração Selvagem uma identidade feminina que luta para apropriar-se de si mesma, longe do reflexo do cônjuge, rompendo com definições preconcebidas.
Assim, a escritora aponta a trágica situação da mulher dentro da estrutura social. Em determinado momento, ela deseja se libertar da rotina que lhe é imposta pela vida cotidiana: ou ela se molda e se torna uma mulher de acordo com as convenções e expectativas de uma determinada sociedade; ou ela não se enquadra, e é rejeitada por ser diferente. A quebra da rotina trará a sensação de liberdade, no entanto provocará sentimentos de angústia e de medo diante da situação nova; e se a rotina é mantida o enfado tende a se agravar. E assim, o ser mulher vai destruindo e enfraquecendo os laços que a une a própria vida, isto é, ao coração selvagem.
Perto do Coração Selvagem, cabe lembrar novamente teve sua primeira publicação em 1944, mas, não obstante todas as conquistas das mulheres nesses últimos sessenta anos, a tensão trágica permanece: a necessidade de se libertar dos paradigmas do cotidiano se contrapõe à convencionalidade e expectativas da sociedade, isto é, a aceitação fere á consciência enquanto ser e a rejeição implica a exclusão do quadro social que, por condição humana, anseia por ser aceita.
A dramaticidade da situação ganhou relevâncias nesse momento histórico sob a evidência da cultura do estupro e da contraditória valorização da condição de “bela, recatada e do lar”. Implicações claras do alijamento social da mulher da participação social, relegando-a à patriarcal submissão e perspectivas fascistas. E a mensagem de Lispector se faz pertinente mais do que nunca. Da tensão que se insinua vigorosa, para onde devemos ir? O próprio título do romance diz tudo: devemos ir para mais parte do coração selvagem, conquistando nossa condição humana.

Referências

LISPECTOR, Clarice. Perto do Coração Selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
BÍBLIA SAGRADA. 43. ed. São Paulo: edição Pastoral Paulus, 2001.

domingo, 12 de junho de 2016

O INFERNO NO IMAGINÁRIO INFANTIL: UMA REFLEXÃO PARA BRASILEIROS

Clairton José Weber

Em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, publicado pela primeira vez há mais de setenta anos (em 1938, pela José Olympio), temos, novamente a narração da sina dos retirantes nordestinos. Ramos coloca em cena uma família: pai, mãe, dois filhos pré-adolescentes e a cachorra Baleia.
Nosso objetivo aqui é estabelecer uma comparação entre o que se passa entre um dos filhos de Fabiano (personagem protagonista da novela de Graciliano Ramos) e o personagem principal do romance de James Joyce Retrato do artista quando jovem (publicado em 1916, narra experiências de infância e adolescência de Stephen Dedalus, alter ego do autor), no que concerne especificamente à concepção do que seja o inferno.
Numa determinada idade – todos os pais sabem disso –, as crianças estão impregnadas dos “por ques”. Querem saber tudo e não se contentam com uma rala explicação. De alguma forma precisam materializar o que lhes chega por palavras. A palavra inferno surge na vida do “menino mais velho” – assim eram chamados os filhos de Fabiano, pelo narrador de Vidas Secas, quando o pai recebe uma benzedeira para curar da “espinhela caída” – costume mantido até hoje, inclusive aqui em Tangará da Serra. A benzedeira, sinhá Terta usava um linguajar estranho que o menino não entendeu:

Ele nunca tinha ouvido falar em inferno. Estranhando a linguagem de sinhá Terta, pediu informações. Sinhá Vitória [a mãe], distraída, aludiu vagamente a um certo lugar ruim demais, e como o filho exigisse uma descrição, encolheu os ombros. (RAMOS, 1986, p. 54).

            Ainda no mesmo dia, o menino insistiu, então: “Sinhá Vitória falou em espetos quentes e fogueiras. – A senhora viu? Aí sinhá Vitória se zangou, achou-o insolente aplicou-lhe um cocorote.” (RAMOS, 1986, p. 54).
No outro lado do mundo, uma personagem de James Joyce, também se impressionava com a descrição do inferno. O garoto estudava num colégio administrado por padres. Os professores, naturalmente padres. Lá a descrição do inferno vem com todos os detalhes, o que impregnou penosas impressões no jovem Dedalus.
Os sermões que se estenderiam por quatro dias como parte da comemoração do aniversário de São Francisco Xavier, despertou a alma do jovem Delalus para um desespero sem amparo. “A débil claridade do medo tornou-se em terror  do espírito, quando a voz rouquenha do pregador derramou morte dentro de sua alma.” (JOYCE, 1987, p. 118). A longa reflexão do jovem Dedalus se dá embalada pelas sugestões do pregador e o narrador passa da morte ao julgamento que aprofunda o sentimento trágico da vida no jovem protagonista. Na medida em que ele recorda seu passado, faz seu julgamento. “A morte, a causa de terror para os pecadores, é o abençoado momento para aquele que caminhou pelo caminho reto, cumprindo plenamente os deveres da sua estada na vida [...]” (JOYCE, 1987, p. 120).
Stephen Dedalus tinha lá os seus “pecados” – os pecados dos seus dezesseis anos vividos sem muitas regras –, divagava durante o sermão do Padre Arnall. Julgou-se culpado e condenado ao fogo do inferno que nunca apaga. Ouviu atentamente o sermão que descreveu a queda de Lúcifer, Adão e Eva e a passagem de Jesus Cristo sobre a terra. “O inferno é uma estreita, negra e sórdida prisão fétida, uma habitação de demônios e de almas perdidas, cheia de fogo e de fumaça” (JOYCE, 1987, p. 125), enumerava o pregador. E Dedalus se imaginou neste lugar.
Nas páginas que seguem, com riqueza de detalhes, o narrador (pelos sermões do padre) vai descrevendo o inferno. Fala do fogo que não emite nenhuma luz e diferentemente do fogo como conhecemos (o fogo terrestre) que consome e se consome, o fogo do inferno nunca termina. Fala do tormento dos condenados, do lamento dos pecadores e do tempo perdido: “Tempo existe, tempo existiu, mas tempo não existirá mais!” (JOYCE, 1987, p. 128). Eis a sentença trágica dos pecadores. E o jovem, diferentemente do filho mais velho de Fabiano, obteve, mesmo sem ter solicitado, uma descrição do inferno. “Stephen desceu a nave da capela, com as pernas tremendo e o couro cabeludo se arrepiando em sua cabeça como se as mãos de fantasmas o estivessem tocando.” (JOYCE, 1987, p. 129).
Mas o Padre Arnall não parou por aí. No dia seguinte, retoma o assunto enumerando as penas a que são submetidos os pecadores, já no inferno. A primeira é a da perdição: “[...] os danados no inferno, para seu maior tormento, têm uma compreensão total daquilo que perderam e compreendem que devido aos seus pecados o perderam para sempre.” (JOYCE, 1987, p. 132). Depois fala do castigo da consciência. Extensão e intensidade. “Ilimitada extensão de tormento, incrível intensidade de sofrimento, incessante variedade de tortura – [...]” (JOYCE, 1987, p. 135). Isso tudo, por toda a eternidade.
No posfácio da edição de Vidas Secas, consultado para esse artigo, Valores e misérias das vidas secas o professor Álvaro Lins dá o tom do narrador da obra brasileira: “Com uma fria impassibilidade, o romancista contempla a miséria humana de seus personagens. Não lhes concede a mínima piedade.” (RAMOS, 1986, p. 131).
De qualquer forma, se o Ocidente legou-nos uma concepção terrível de inferno com uma punição implacável, a miséria estética de Ramos evitou tal apreensão, deixando à vida terrena, calcinada pela seca, toda a imensidade do sofrimento infernal, com a utopia do céu de Baleia, pela remissão da morte: “Baleia tremia toda, a cabecinha fatigada na pedra. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás”. (RAMOS, 1986, p. 91).
Quanta desesperança, por vezes, a realidade brasileira nos oferece, como a seca de Graciliano, anunciando a redenção transcendental como única saída.
        
REFERÊNCIAS
JOYCE, James. Retrato do artista quando jovem. Trad. José Geraldo Vieira. Rio de Janeiro: Ediouro, 1987.
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 57 ed. São Paulo: Record, 1986.

sábado, 11 de junho de 2016

O DIA DOS NAMORADOS: SENSIBILIDADE E MÁSCARA

Erenil Oliveira Magalhães

O dia dos namorados é uma data celebrada todos os anos e por vezes ficamos submersos em toda modalidade de propaganda. O comércio nesse período investe pesado com o intuito de gerar lucro, e isto é perfeitamente normal, afinal, vivemos num mundo capitalista, alimentado por produção e consumo.
Pertencemos a um contexto em que, muitas vezes, as aparências falam mais alto e tiram todo encantamento que pode ser esse momento. É trágico pensar que ninguém realmente se importa com o outro, e às vezes o amor é medido simplesmente pelo ter, tornando mecânico os relacionamentos. E por que não pensarmos no ser especial e como podemos fazer a diferença na vida do outro? O sentido dessa diferença não está nos mecanismos externos da realidade, mas no misterioso desvendamento do ser. Nesse sentido, é preciso fazer diferença. Assim, tudo que está fora disso ficaria em segundo plano: o presente que alimenta a máquina capitalista seria uma consequência de demonstração sincera de carinho e de bem querer, atrelada ao sentimento. O presente, portanto, deve ser algo que exterioriza tudo isso que brota do âmago do ser.
Com toda certeza, o habitual presente não pode se tornar o mais importante, e se isso acontece, como testemunhamos muitas vezes, é porque o interior não é tão significativo e não pode sustentar a profundidade do significado do ser especial, de fazer sentido na vida do outro.
Precisamos ir além disso: é concebível que as propagandas explorem esse afã de demonstrar o sentimento de singularidade na vida do outro, afinal o comércio só sobrevive se vender. Portanto, não cabe ao comércio e aos publicitários refletir sobre o caráter elevado do presente do dia dos namorados, mas é significativo à vida quando identificamos tal preocupação e a propaganda se revela arte. Cabe a nós concebermos o presente como mera consequência da presentificação da vida do namorado na vida da namorada e vice-versa. O amor não pode ser medido pelo tamanho da conta bancária. Ora, o valor do presente material está em dignificar o presente, o momento, nem que seja uma pétala de uma flor destroçada ou um olhar que, por vezes, custa o olho da cara.
Como já enfatizamos, a medida do presente deve estar na valorização do ser, mas isso não implica no esquecimento do ter. A administração desse convívio essencial (individual e social, que seja) é que dá a dimensão da tragédia da vida. A valorização do ter em desequilíbrio com o ser tem uma resposta interior que no mais das vezes não conseguimos interpretar e somos solapados por um sentimento tácito que identificamos por vários nomes: tristeza, angústia, melancolia, depressão e solidão. Solidão mesmo que estejamos acompanhados.
Resumindo o que queremos dizer: as máscaras devem cair. A máscara é a mais clara evidência do trágico. Quando surgiram, no teatro antigo, tinham a clara significação que o ator assumia outra personalidade. Acolhia-se o jogo facilmente, penso eu, pela evidência mimética. Com o tempo foi-se dispensando as máscaras, porque cabia ao talento do ator assumir a máscara se bem que sempre fazem alguma maquiagem quando se trata, por exemplo, do corcunda de Notre-Dame ou do Cyrano etc.
As contradições do sentimento amoroso levam as pessoas a assumir o recurso da máscara, pelo menos para si mesmo. A ficção já explorou isto exaustivamente, porque é lúdico e trágico. Aliás, o trágico está na essência do lúdico, mas haveremos de explorar tal questão em momento oportuno.
Nas máscaras que nos impomos reside o aspecto trágico dos relacionamentos amorosos, mas também pode estar associado à falta de sensibilidade de perceber o outro com todos os seus defeitos e limitações como identifica Fábio de Melo: “Só nos sentimos amados de verdade quando podemos nos mostrar de fato, quando podemos dizer eu sou só isso [...] e que o outro perceba que ele precisa desse pouco que você pode ser [...] E só assim começamos nos fazer bem e também fazer bem ao outro”. O mesmo Fábio de Melo ainda orienta que devemos entrar na vida do outro para fazê-lo melhor, sob pena de não fazermos a menor diferença. Nesse sentido, a máscara é descartável e o embrutecimento dos apelos do ter é doentio, em se considerando o que nos é essencial, o que mais nos interessa, o ser.
Dê um presente para você mesmo neste dia dos namorados, além do presente que dará ao outro: abra um canal de sensibilidade para o ser e olhe com mais clareza para ele ou ela, e jogue fora as máscaras do ter. Se por acaso você perder o namorado ou a namorada chore que faz bem, enquanto discernimento da tragédia da vida, e isto, paradoxalmente, vai te fazer mais feliz e de uma felicidade duradoura, porque plena do ser.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

ASPECTOS DO REALISMO LITERÁRIO NA PERSPECTIVA DO TRÁGICO

Este texto foi publicado também no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência:

GATTO, Dante; MENDONÇA, Adriana Monteiro. Aspectos do realismo literário na perspectiva do trágico. Tribuna de Tangará (ISSN 23577541), Tangará da Serra, p. 7, 23 jul. 2014.

Dante Gatto
Adriana Monteiro Mendonça

            Ao se pensar no trágico somos, de imediato, levado a sua origem que é de ordem religiosa. Se não podemos dizer que o pensamento trágico nasceu da religião, podemos, com certeza, dizer que ele se tornou reconhecível por meio dela. Eliade (1992, p.12) começa a sua obra O sagrado e o profano referindo-se ao livro de Rudolf Otto, Das Heilige (1917), que trouxe a novidade de estudar a religião a partir das modalidades da experiência religiosa e não da ideia de Deus. Conseguiu, assim, esclarecer o conteúdo e o caráter específico dessa experiência que não está no lado racional e especulativo da religião, mas no lado irracional. A ideia de Deus já é uma racionalização.  
          O próprio impulso de conhecer é coisa instintiva, mas tendemos a racionalizar o conhecimento. Unamuno foi incisivo nesse sentido:

[...] Mas será que podemos conter esse instinto que leva o homem a querer conhecer e, sobretudo, a querer conhecer o que leva a viver, e a viver sempre? A viver sempre, não a conhecer sempre. Porque viver é uma coisa e conhecer outra e, talvez haja entre ambas tal oposição, que não possamos dizer que tudo o que é vital é anti-racional, e não só irracional, e tudo o que é racional, antivital. Esta é a base do sentimento trágico da vida. (UNAMUNO, 1996, p. 33). 

A condição trágica do Homem é de caráter ontológico, o que implica necessariamente seu lugar privilegiado enquanto matéria literária. Queremos dizer: conhecemo-nos à medida das experiências trágicas que vivemos.
Em outras ocasiões, refletimos as condições do trágico: o forte racionalismo que, por vezes, por condições econômicas e sociais, imprimimos à vida. Ora, o racionalismo tenta negar a nossa essência irracional. Isto implica, metaforizando, encarcerar o deus. Com Dioniso preso temos também Apolo impotente em se pensando na dinâmica do trágico como Nietzsche queria.
            O realismo literário surgiu em momento de forte racionalização, principalmente como antítese do idealismo romântico. Fazia-se imprescindível voltar o olhar e a razão para a realidade, tendo em vista que se mergulhara numa espécie de patologia do sentimentalismo. As correntes científicas da época, como sabemos, deram respaldo e condições propícias para a efetivação do fenômeno. A literatura como nunca dantes esteve, no final do século XIX, subserviente à ciência. Pela teoria do evolucionismo, de Darwin, o homem passa a ser visto meramente como um animal, regido pelo instinto biológico. O positivismo defendia posturas exclusivamente materialistas e limitava o conhecimento das coisas apenas quando estas podem ser provadas cientificamente. A realidade é apenas aquilo que vemos, pegamos e podemos explicar, totalmente contraria as teorias metafísicas. O determinismo e o experimentalismo tiveram, também, papel importante. Passou-se a acreditar que o homem é fruto do meio, da raça e do momento histórico, bem como, não se deve afirmar nada antes de comprovado. O chamado Romance de Tese ou Romance Experimental ganhou significação neste contexto. O Bovarismo constituiu-se num fenômeno do período. As causas da decadência moral da mulher no século XIX estariam ligadas à excessiva leitura de livros românticos, à vida ociosa e a religiosidade.
         Ao dizer que a literatura se mostrou subserviente à ciência não devemos generalizar, mas há casos exemplares, mesmo sob a regência de grandes escritores como Eça de Queirós, que exagerou no bovarismo. Caso exemplar está no conto “No Moinho”. A protagonista acaba limitada no seu desempenho trágico: de santa passa a Vênus de uma maneira completa e radical. Temos, pois, a tentativa de provar que o romantismo era um mal e sabemos que não necessariamente as coisas são assim como há pouco nos esclareceu Unamuno. Ficou-se, pois, na aparência da realidade.
A descrição da aparência do fenômeno da realidade objetiva, o imediatamente perceptível, em detrimento da essencialidade, era a proposta do positivismo para a literatura. Sente-se, pois, o abalo a especificidade do literário que para nós é o trágico. No caso do conto “No Moinho”, a dinâmica do narrador é fortemente parcial: em um primeiro momento praticando visão compartilhada e discurso indireto livre se trazia à tona a consciência da protagonista (essencialidade) para, depois, quando degradada, abandoná-la, praticando uma visão de fora que só descreve as ações, na perspectiva objetiva do realismo. Temos com isso um prejuízo para o trágico que, inclusive, compromete até a verossimilhança da narrativa. Se, como afirmamos, o forte racionalismo induz ao trágico, porque é a negação da nossa natureza irracional, a resposta a tal negação não deve se reduzir à pura irracionalidade como foi o caso de Maria da Piedade.

Referências
MIRCEA, Eliade. O sagrado e o profano. Tradução de Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

UNAMUNO, Miguel de. Do sentimento trágico da vida. Organização e tradução de John O’Kuinghttons. São Paulo: hedra, 2013.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

REFLEXÕES ACERCA DO CIÚME NA LITERATURA: EURÍPEDES E EDUARDO MAHON

Cindy Silva Cossolin

O ciúme é um dos vários sentimentos da condição humana, presente desde sempre. Sinalizado, inclusive, na Bíblia Sagrada, em “Provérbios” (27:4): “Crueldade do furor, ímpetos da cólera: mais quem pode suportar o ciúme?” (BÍBLIA SAGRADA, 1971, p.810). Essa manifestação emocional está presente em incontáveis narrativas ao longo da história da literatura e, na maioria dos casos com desfecho catastrófico, frequentemente a morte.
Um exemplo de narrativa trágica tendo o ciúme como alicerce é a tragédia Medéia de Eurípedes (480 a.C.-406 a.C.). Trata da história de uma mulher abandnada pelo marido que prometeu casamento a outra moça mais jovem, a princesa de Lolcos, na Tessália. Entorpecida pela dor da perda, Medéia definha em estado de tristeza profunda: “Jaz sem comer, o corpo abandonado à dor, consumindo nas lágrimas todo o tempo, desde que se sentiu injuriada pelo marido, sem erguer os olhos, sem desviar o rosto do chão”. (EURÍPEDES, 2004, p.5).
De tanto lamentar e maldizer o esposo infiel, Medéia é expulsa pelo Rei Creonte que teme a vingança como era prerrogativa dos gregos. Com mais essa humilhação, ela perde a sanidade, implora mais um dia nas terras de Creonte, dizendo-lhe palavras afáveis, mas a finalidade é consumar silenciosamente a morte de seus próprios filhos e de sua rival, como confessa à Diké (filha de Zeus).
Ao concretizar o assombroso plano, Medéia recebe um criado de Jasão, que vem às pressas clamar que ela fuja das terras de Creonte, pois a morte da princesa levou também a morte de Creonte que desesperado ao ver o corpo da filha sem vida, debruça-se sobre a falecida, e é consumido pelo poderoso veneno. Medéia, então, parte para a segunda parte da sua vingança: matar os filhos. Ela, ainda, não permite a Jasão nem sepultar ou tocar os corpos, como era ritual sagrado aos gregos antigos, e foge, finalizando dessa forma a tragédia.
Emoção forte, presente também na contemporaneidade, temos “Ciúme”, conto de Eduardo Mahon, no livro Doutor Funéreo e outros contos de morte (2014): antes mesmo da traição, o sentimento sucumbiu o personagem: “O ciúme não era razoável. Já passara do limite do machismo, para entrar no lamacento terreno do patológico.” (MAHON, 2014, p.62). No caso, um velho médico, rico, com filhos e ex-esposas, que se casará com uma ninfeta “gostosíssima”, conforme o narrador explícita:

Casaram-se com larga diferença de idade. De idade e tudo o mais, não sejamos hipócritas. Ele, médico, quatro filhos, duas ex-mulheres, dono de uma pequena clínica de cirurgia plástica, rico, gordo, calvo, sessenta e poucos anos; ela, universitária, dezenove anos, pobre e gostosíssima: currículo invejável de um para o outro. (MAHON, 2014, p.62).

O casamento seguia com altos e baixos: “Após as crises de ciúme nas quais rasgavam roupas, destruíam a louça, e plantavam hematomas nas pernas, braços, e pescoços, amavam-se febrilmente.” (MAHON, 2014, p.62). E tem mais: “Arrependeu-se pela piscina, porque não a queria tomando sol. Mesmo que não houvesse jardineiro ou piscineiro para espiar as curvas da ninfeta, a imagem da seminudez exposta o fazia arrepiar de ciúme.” (MAHON, 2014, p.64). Ele chega ao ponto de proibi-la de pôr os pés para fora da soleira de casa, com pavor de que algum outro homem apreciasse a sua beleza.
 A morte do médico se revela de forma sucinta, quando um rapaz que faz pesquisas populacionais toca a campainha da mansão, onde o casal morava e é surpreendido com a notícia de que somente a jovem ainda residia lá, viúva.
Na tragédia clássica grega, o ciúme que a esposa traída sentia, levou-a a traçar a morte de seus filhos e de sua rival, que acabou se estendendo ao Rei Creonte. Terrível, não é? Com Mahon, a morte, apesar de discretamente tecida, é tão trágica quanto a anterior. O marido ciumento foi trocando a liberdade da esposa pelas comodidades que só o dinheiro pode fornecer, e ela: “aceitou resignada a profissão de madame.” (MAHON, 2014, p.62). Nisso, o médico bloqueou tanto a presença da esposa no mundo que acabou por anular a sua própria existência, já que reduzia sua vida ao ciúme.
Ora, a que constatação, por fim, não restou de tais leituras? O ciúme mata o ser, mesmo que o defunto ainda respire. E talvez tal morte seja mais trágica que a morte física.

Referências

BIBLIA SAGRADA. Provérbios. Cuiabá: Escola profissionais salesianos, 1971.
EURÍPIDES. Medéia. Texto integral. Tradução de Miroel Silveira e Junia Silveira Gonçalves. São Paulo: Martin Claret, 2004.
MAHON, Eduardo. Ciúme. In.: Dr. Funéreo e outros contos de morte. Cuiabá: Carlin & Caniato, 2014. p.62-64. 

terça-feira, 7 de junho de 2016

O SENTIDO TRÁGICO DA MORTE

Este texto foi publicado também no Jornal Tribuna de Tangará:
GATTO, Dante ; TORRES, Isamar Valdevino Froio . O sentido trágico da morte. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, p. 06, 21 maio 2014.

Isamar Valdevino Froio Torres
Dante Gatto

Foi esplendoroso, mas breve o tempo da tragédia grega. Talvez a maneira mais didática em pensa-la seja por meio da sua morte. O racionalismo socrático está neste processo. Nietzsche argumenta que da mesma forma que Platão não podia entender o primeiro plano da atividade poética, Sócrates não podia entender a tragédia. Eurípedes pensava de maneira similar, na medida em que concebia o belo enquanto inteligibilidade. Como sabemos, os três grandes dramaturgos gregos foram Ésquilo, Sófocles e Eurípides, mas este último já se configura o arauto de uma nova arte, por conta do racionalismo.
O que foi a história do homem senão um processo de ascensão da burguesia? O pensamento mítico foi cedendo terreno ao pensamento racional. Nietzsche explica o fenômeno (1984, p. 17): antes de Sócrates, as “maneiras dialéticas” eram proscritas pela boa sociedade, tidas como inconvenientes. O racionalismo tornou-se forçoso como remédio e, diante disto, não é pequeno o perigo de que outra força nos tiranize: ou sucumbir ou ser absolutamente racional. Opera-se, pois, uma completa inversão de valores. Agora, qualquer concessão aos instintos e ao inconsciente nos rebaixa.
Na perspectiva kantiana, conforme Schiller (1964, p.47), razão é a faculdade das ideias, que, como postulado, ultrapassa o conhecimento conceitual e científico, uma vez que acolhe elementos de ordem sensível (entendemos sentindo) é por conta disto inventamos a arte. No entanto, praticamos cotidianamente o termo razão numa dimensão puramente de articulação de conceitos. Na verdade, o que praticamos é uma confusão do termo razão com o termo racionalismo. Racionalismo seria, pois, a razão eclipsada, atacada do pragmatismo que imprimimos à vida. Aliás, todos os ismos acabam resumindo o adjetivo à uma perspectiva reduzida e limitada.
A força irreprimível da palavra, no mundo da Grécia antiga, enquanto suprimento da democracia no século V a.C., vicejou no horizonte ainda dominado pela coerência mítica e o resultado disto foi a tragédia grega, como já nos referimos. O herói passou a prestar conta à comunidade, como um cidadão que se tornou, e na adequação a essa nova ordem é que se criaram condições propícias à inevitável catástrofe, que representa o encontro consigo mesmo. Não havia saída. Foi em momentos específicos de forte racionalismo, como na Grécia antiga ou na Inglaterra elisabetana, pela forte pressão da realidade. A tragédia, portanto, ganhou lugar na literatura como resposta à tentativa de suprimir os sentimentos e encarcerar o ser.
O racionalismo alcançou o paroxismo com o pragmatismo burguês ao mesmo tempo, por falta de saída, em que fomos inventando a “produtividade do espírito” (LUKÁCS, 2009, p.31) nas infinitas formas de conciliação e sublimação. A tragédia passou a ser individual e psicológica, metonímica de um contexto maior; e o júbilo ao despedaçamento dionisíaco, que tornava terrível a perspectiva nietzschiana, e por vezes incompreendida, ganha sentido de pura realização do espírito, de morte psicológica.
No heroísmo clássico era forçosa a ênfase na posição social. O herói estava atrelado ao destino da casa ou do reino que o homem de posição incorporava, conforme argumenta Williams (2002, p.74-75). Era inevitável, portanto, que houvesse rejeição da burguesia. O indivíduo era uma entidade em si mesma e não o Estado. Isto implicou perda e ganho: o sofrimento individual podia ser considerado de maneira mais séria e direta, mas se perdia o caráter geral e público da tragédia. Ora, a ideia de uma ordem trágica passou a conviver com a perda de qualquer ordem desse tipo. No âmbito da teoria isto significou “a abstração da ordem e a sua mistificação”. Uma consequência foi a substituição da posição social na tragédia ao jogo de títulos dos dramas de costumes. A condição significativa da posição de rei (encarnação do povo) tornou-se um cerimonial vazio (condes, duques etc). “[...] uma ordem social reduzida a uma educação clássica sem viço ou vida”. A ligação homem, Estado e mundo tornou-se uma ordem puramente abstrata.
O despertar da consciência para a ausência de vida na existência se configura como elemento da tragédia contemporânea. Morremos para uma forma de vida ao mesmo tempo em que nascemos para outra, mesmo que as amarras do corpo não se tenham rompido. A tragédia antiga no mais das vezes implicava desfecho catastrófico. O páthos trágico, no entanto, agora, perde a grandeza por conta da necessidade de olhar o detalhe que cresce em significação como saída possível. Agora, a morte conquista seu mais profundo significado trágico, na consciência da inteireza da vida. Agora, podemos entender o trágico como reinvenção do ser e sua significação epifânica. Esta nisto a permanência da tragédia em todas as formas literárias por meio do trágico e sua sobrevivência como lírica da alma.

Referências

LUKÁCS, Georg. A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico. 2. ed. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Duas Cidades, 2009.
NIETZSCHE, F. W. Crepúsculo dos Ídolos ou filosofia a golpes de martelo. Trad. Edson Bini e Márcio Pugliesi. São Paulo: Hemus, 1984.
SCHILLER, Friedrich. Teoria da tragédia. São Paulo: Herder, 1964.
WILLIAMS, Raymond. Tragédia moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.