terça-feira, 17 de maio de 2016

O TRÁGICO NA PREDESTINAÇÃO

Everaldo Alves da Silva

Quando nos propomos a estudar o trágico, a obra Anatomia da Critica de Northop Frye (1912-1991) se faz uma das primeiras indicações bibliografias. Uma questão proposta pelo crítico então se nos afigura perturbadora: “O trágico não se limita ao drama, nem as ações que terminam em desastres, mas podem terminar serenamente, ou num estado de espírito ambíguo, difícil de definir”. (FRYE, 1973, p.203). A razão disto é que tomamos o trágico pela estética da tragédia em que o desfecho catastrófico se faz necessário, mas o trágico deve ser visto num horizonte muito mais amplo. Podemos identifica-lo em toda parte e em qualquer forma literária. Ora, trazemos um sentimento trágico da vida e no que se refere às possibilidades de estudo a forma é um diferenciador enquanto grau apenas. O que quero dizer: o dramático é mais propício ao trágico que se instala em toda parte, porque está em nós. Mas não esperem neste texto uma definição do trágico, mas uma tentativa de iluminar sua grandeza.
Dizendo de outra maneira, o trágico, em sua essência, é intemporal e sobrevive enraizado em muitas literaturas, desde as mais antigas obras, como a tragédia Édipo Rei de Sófocles, (430 a.C.), bem como em contros do século XX, da literatura brasileira. Abordaremos estas evidências no conto “Fortunato ou o forçoso da felicidade” de José de Mesquita (1892-1961), do livro Espelho de Almas, publicado em 1930.
A predestinação persegue os dois protagonistas: “- Apolo disse um dia, que eu [Édipo] me casaria com a minha mãe. E derramaria o sangue de meu pai... – aí de mim porque resolvi muitos anos, viver longe de Corinto...”  (SÓFOCLES, 2003, p.36) choraria Édipo a fatalidade da sua sina. Da mesma maneira: “- Me chamo Fortunato, [...] sou o homem mais feliz deste mundo [...]. Eu nasci predestinado para ser feliz. (MESQUITA, 1930, p.19-20).
Para os gregos da era clássica, destino e predestinação são duas vertentes que se fundem, a verdade absoluta e irrevogável em que deuses intervêm diretamente na vida e destino dos homens e não há mortal que possa mudar uma determinação ou decisão anunciada por um oráculo.
Pois bem, o destino de ambos os personagens, Édipo e Fortunato, já estavam escritos e cada um deles estava predestinado a padecer de seus males: Édipo a derramar o sangue de seu pai o Rei Laios e casar-se com sua mãe, e ter filhos com ela; Fortunato, por sua vez, predestinado a ser feliz e não conhecer a infelicidade em nenhuma circunstância, ainda que a procurasse em diversas instâncias de sua vida. Aliás, a condição de Fortunato, digamos assim, a infelicidade da felicidade é assunto que ainda abordaremos em outro artigo, tendo em vista que é uma situação cronicamente trágica e pode parecer inverossímil a um típico espírito burguês.
Nas duas histórias, os personagens Édipo e Fortunato têm algumas características em comum: Fortunato ficou conhecido pelos seus grandes feitos nas artes, nos jogos e no amor, acumulou riquezas e admiração dos amigos, mas mesmo com toda sua glória, o destino continuava a ser condutor de sua jornada terrena. A bravura e sagacidade de Édipo lhe deram reconhecimento e grandeza, além de poder e riqueza e em toda a sua trajetória de vida, desde que seu pai o mandou para a morte quando recém-nascido, na salvação, crescimento e glória nas terras de Corinto. O destino foi soberano no controle das ações e o conduziu para o desfecho catastrófico. Após saber que matara seu pai, e casara-se com a sua própria mãe, julgava ser a morte muito pouco como punição. Preferiu ferir os próprios olhos e viver em exílio e solidão. As marcas do trágico não se limitam a morte de seu pai e o casamento com sua mãe e sim na incapacidade de mudar sua predestinação. Fortunato também, não pensava na morte como solução para seu problema. “Devo dizer que jamais me passou pela mente procurá-la: a minha felicidade, a minha noção de vida excluiria por si só, a hipótese mesmo longínqua do suicídio”. (MESQUITA, 1930, p.27). Ora, a morte pode ser trágica, mas o trágico está mais em viver do que morrer.
No conto de Mesquita, o trágico está na luta de Fortunato entre o querer ser infeliz e não conseguir mudar seu destino, deixando evidencias de que dinheiro e fama, não são sinônimos de felicidades. A almejada felicidade, por fim, é alcançada de uma maneira inusitada, mas que evidencia o trágico no seu sentido mais profundo: Fortunado fica infeliz com a impossibilidade de ser infeliz. A maior das diferenças no desfecho das duas obras é que Édipo teve confirmada sua predestinação no começo da obra anunciada. O destino, o arrastou para o fim que lhe era prescrito pelo oráculo de Delfos. Fortunato, no entanto, lutou insistentemente e na frustração de sua jornada encontrou o que tanto sonhava: a infelicidade de ser impotente para mudar o seu destino.
Numa tentativa de conceituar o trágico, poderíamos dizer que a felicidade humana está em se ter autonomia sobre a nossa própria vida e o trágico se configura em qualquer forma de cerceamento à liberdade do ser.

Referências
SÓFOCLES. Rei Édipo. São Paulo: E.booksbrasil.com, 2005. 115 p. Disponível em: <http://www.uesb.br/editais/2015/01/edital-008-15-textos/Edipo-Rei-Sofocles.pdf>. Acesso em: 17 maio 2016.

MESQUITA, José de. Fortunato ou o forçoso da felicidade. In: MESQUITA, José de. Espelho de Almas. Rio de Janeiro: Anais da Biblioteca Nacional, 1932. p. 18-31. Disponível em: <http://www.jmesquita.brtdata.com.br/1932_Espelho de Almas.pdf>. Acesso em: 17 maio 2016.

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