sábado, 7 de maio de 2016

O QUINZE DE RAQUEL DE QUEIRÓZ


Este artigo foi publicado, também, no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, a referência:

WEBER, Clairton José. O Quinze de Raquel de Queiróz. Tribuna de Tangará (ISSN 2357.7541), n. 1703, ano XXVI. Tangará da Serra, p.02-02. 19 mai. 2016. 

Clairton José Weber

Quando estudamos literatura, tem-se por princípio a identificação do objeto em análise. Pode ser uma obra – neste caso, via de regra autor e obra são associados a um período literário –, as obras se diferenciam em conteúdo e forma. Pode ser o conteúdo (o que está sendo narrado) e, também aspectos formais. Perscrutamos de todas as maneiras os elementos da narrativa (enredo, narrador, personagem, espaço e tempo), contudo, o objetivo do pesquisador é sempre interpretativo e está no núcleo de ação dramática, o problema humano inserido nele.
O romance de Rachel de Queiróz, objeto deste artigo, foi produzido no início do século XX e retrata também a angústia e sofrimento dos retirantes, pois o ambiente é o sertão nordestino e o período narrado abrange uma das maiores estiagens registrada na região. Romance social, cravam pesquisadores sem titubear. Claro, os obstáculos enfrentados e superados pelas personagens descrito na obra não deixam dúvidas. Contudo, temos alguns outros aspectos que podem ser observados em O Quinze, especialmente nos dias que correm.
O impacto incomensurável na vida das pessoas, ocasionado pela seca do Nordeste brasileiro é sempre retratado como uma tragédia (acontecimento catastrófico). A forma dramática de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, grandes expoentes da Grécia antiga, é usada por sinônimo para descrever a agonia do povo nordestino nesses períodos de estiagem. Aceitamos isso porque de fato não temos medida, nos faltam palavras para descrever a angústia e o sofrimento das pessoas. Neste caso, Rachel de Queiróz o fez com maestria. Algumas passagens da obra são constantemente citadas para exemplificar, como é o caso das “tripas do bode”. É uma obra de ficção e isso não podemos perder de vista, mas a estiagem que assolou o Nordeste brasileiro foi real.
Retomando a questão relacionada ao estudo da literatura, vamos dirigir nosso olhar para o “motivo desequilibrador” do romance. Sim, este é um romance. O mote principal da narrativa é a seca. É ela que dá verossimilhança ao que é narrado. Tudo gira em torno da estiagem. Até aqui, nada de novo. Ocorre, porém, que no período narrado, o país dava seus primeiros passos com a força do trabalho remunerada. Os trabalhadores já não eram mais escravos. Recebiam vencimentos com certa regularidade, mas, o tratamento a eles dispensado ainda trazia subjacente a cultura escravocrata enraizada por dezenas de anos no povo nordestino. Havia uma sutil (velada) submissão nessa relação trabalhista. Percebemos isso na narrativa de Queiróz e mais: nos parece que está tanto no subconsciente de empregadores e de empregados. O sertanejo retirante que veio a São Paulo nas condições narradas em O Quinze não era mais escravo, mas, o que o diferenciava do negro que outrora empregava seu braço sem remuneração nenhuma?
A família de Chico Bento, que neste caso vai representar milhares de outras já não é mais retratada no romance. A narrativa reencontra as personagens Conceição e Vicente no sertão nordestino três anos depois. A chuva reestabeleceu certa normalidade e o romance vai discutir outro elemento motivador de tragédias humanas, o amor. Se, por um lado, a seca suscita o conflito (o drama, no caso), por outro há a questão da convivência neste processo de transição. O núcleo da ação dramática nesta narrativa é o amor: o amor sob o estigma da seca. A seca será o background. Conceição desenvolveu uma concepção de amor a partir de uma realidade muito específica. Não se precisa da literatura para contar a história da seca, mas a literatura é necessária para contar do que a seca (contingência da vida) fez com o amor.
Conceição, uma personagem impensável para os romances românticos, criava um dos filhos do casal retirante Chico Bento e Cordulina. Refletia muito sobre o casamento, sobre suas perspectivas neste campo e, numa festa típica de comunidades interioranas definiu assim a questão:

“– Ora o amor!... Essa história de amor, absoluto e incoerente, é muito difícil de achar... eu, pelo menos nunca o vi... o que vejo, por aí, é um instinto de aproximação muito obscuro e tímido, a que a gente obedece conforme as conveniências... Aliás, não falo por mim... que eu, nem esse instinto... Tenho a certeza que nasci para viver só...” (QUEIRÓZ, 1993, p. 148).

Ora, o amor!
REFERÊNCIAS
AMORA, Antônio Soares. História da Literatura Brasileira. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 1977.
QUEIROZ, Rachel de. O Quinze. 71 ed. São Paulo: Arx, 1993.


Clairton José Weber é pesquisador do grupo Tranco – o trágico na contemporaneidade.

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