segunda-feira, 23 de maio de 2016

A ATMOSFERA TRÁGICA DO GOLPE (o impeachment de Dilma Rousseff)

Dante Gatto

Os bastidores do golpe ficaram expostos em 22 de maio de 2016, para quem ainda não tinha clareza, com aquelas escutas telefônicas do senador líder do PMDB. Coisa feia, mas a atmosfera é muito maior e abarca mesmo o espírito do tempo.
A pós-modernidade implicou uma mudança radical, principalmente no que concerne a uma perspectiva de futuro. Esta na base disso a desilusão da modernidade por conta do fim das utopias, principalmente as promessas do socialismo real. O resultado disso é que o presente ganhou em significação e as particularidades se fizeram mais relevantes que a universalidade abstrata, e os paradigmas hegemônicos acabaram sendo contestados. Sob esse clima surgiu, por exemplo, o Mercosul e o Brasil se uniu, também, a outros países que fogem ao Eurocentrismo que, inclusive, abarca os Estados Unidos: a Rússia, a China e a África do Sul. Um clima generalizado de solidariedade pelos mais fracos e as minorias. Deu-se vez a um investimento no espaço local, na vida comunitária. Apesar da aparente uniformização do mundo (“globalização”, “mundialização”) o que assistimos foi uma multiplicidade de atividades, de mestiçagens, de sincretismos musicais, filosóficos, religiosos. Resulta disto, dentre infinitas sinergias, o mimetismo tribal conjugado às realizações pessoais.
A vida se apresenta em sua diversidade e conquista a preocupação dos estudos culturais e todas as instituições voltadas à vida social. Aliás, no pacote das preocupações está as identidades antes atiradas a sua própria solidão; está as diferenças, alteridades, antes disfarçadas pela suposta necessidade de instaurar uma unidade que vagamente chamamos de universal: “o macho, adulto e branco sempre no comando” como cantou Caetano Veloso. A inclusão passou a fazer parte da pauta do dia e as minorias conquistaram espaço de participação como nunca antes: os índios, os negros, a comunidade LGBT foi reconhecida e conseguiram direitos importantes como a união homoafetiva, e o próprio conceito de família tradicional não implica mais o conjunto pai, mãe e filhos. Foram infinitas as transformações, assustadoras até, e saudáveis, pensando na filosofia da inclusão.
No Brasil, a preocupação social deu origem a numerosas medidas, inclusive, numa preocupação de compensação por injustiças sociais e históricas como as cotas para negros nas universidades e mesmo bolsas que tentaram redimir o alijamento imposto pelo neoliberalismo. A mulher, a maior das minorias avançou em termos de conquistas de um espaço de igualdade e fizemos uma mulher presidente (ou presidenta, que seja). O clima era propício.
Resumindo, pelo meu olhar, o mundo ficou mais acolhedor, mais diversificado, mais democrático, mais humano, mais colorido. Mas se multiplicaram, também, os descontentes, renitentes às mudanças, preservadores dos valores tradicionais e das rígidas instituições já sacramentadas, inclusive as religiões, principalmente as de matriz evangélica, inserindo Deus ostensivamente em cena. E surgiram verdadeiras aberrações como Bolsonaro que, aliás, tem seus adeptos e não são poucos, saudosos da ditadura. Mas o fenômeno parece mundial, tendo em vista que o presidente negro estadunidense está em vias de ser substituído por um radical de direita e xenófobo.
Se nos bastidores do golpe está, notadamente, uma tentativa de encerrar as investigações de corrupção, no sentido de salvar as instituições degradadas, inclusive o STF, a atmosfera do golpe está, principalmente, no ódio à política social. Duas forças significativas se inserem no processo: o neoliberalismo e tendências de extrema-direita como o fascismo. A retração da economia (alimentada também pelos articuladores do golpe), é claro, teve parcela significativa nessa atmosfera e a mídia fez a sua parte na medida da parcialidade e no jogo de interpretações reduzidas.
Os primeiros dias do governo provisório já delinearam claramente a situação, na medida em que, pelas primeiras medidas, denota-se um ataque aos direitos trabalhistas, comprometendo mesmo o legado de Getúlio e o afastamento das mulheres em nome da competência. A evidência do fascismo, resumindo brutalmente o fenômeno, está na legitimação do explorado ao autoritarismo do explorador como se tem observado.
O mais interessante é que ambas as partes do conflito (direita e esquerda, que seja), tragicamente, não cedem terreno, fecham-se, por vezes, à realidade dos fatos, procurando justificativa ao seu posicionamento. Sempre foi assim? Se o trágico nasceu do choque do destino e da necessidade, talvez, agora, dialeticamente, a força arquetípica do mito reduza tudo finalmente ao destino: o homem estaria reduzido a um contexto que o determina e predestinado a ser isto ou aquilo? Por vezes até eu mesmo penso que não dei chance a experiência, mas já nasci de esquerda, já nasci afeito a utopia comunista e adverso às religiões.

Muito trágico.

3 comentários:

  1. Percebo - me, também, com essa tendência de esquerda, comunista, mas não sei se nasci de tal modo. A indignação ao sistema capitalista tem me movido e me sustentado na luta por dias melhores para todos...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Então Bruna, pode ser que eu tenha esquecido, por conta da idade, minhas primeiras experiências de horror às experiências da sociedade burguesa e da igreja que a subsidiava. Não sei. Eu tenho que estudar mais sobre isto.

      Excluir
  2. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir