segunda-feira, 4 de abril de 2016

OS DESAFIOS DA MULHER ESCRITORA

Veronica Cristina Silva
Dante Gatto

Vivemos um tempo em que a mulher, segundo Castro (1991, p.222), liberta-se de sua escravidão metafísica. Até 1970, apenas três escritoras, no contexto da literatura brasileira, tinham merecido reconhecimento: Raquel de Queirós, Cecília Meireles e Clarice Lispector. Isto, segundo Schmidt (1995, p.183), denuncia uma condição de “invisibilidade”, a negação da legitimidade cultural da mulher como sujeito do discurso, exercendo funções de significação e representação. Nossa tradição estética, europeia, define a criação artística como um dom essencialmente masculino, sintetizado na figura de Deus Pai, que criou o mundo. À mulher fica destinada a reprodução. Nos sistemas simbólicos de representação, o paradigma, verdades humanas universais ficam para a experiência masculina. A feminina foi neutralizada.
Ria Lamaire (1994, p.58-9) identifica a história literária como “um fenômeno estranho e anacrônico”. É pela idéia de ancestralidade que são legitimadas a situação atual. Nos discursos das ciências humanas, as representações masculinas sobre a mulher, como o sexo “natural, essencial e universalmente” mais fraco, podem ser consideradas como uma das formas mais radicais deste tipo de legitimação de poder. A genealogia e a história literária criam a ilusão de uma só história, de uma única tradição.
Não há tradição intelectual puramente feminina, argumenta Nancy Campi de Castro (1991, p.226-7), mas, no caso, o impacto feminino pelo uso específico, ou apropriação, de material produzido por outros pensadores. Nem todos os textos escritos por mulheres são exemplos de compromissos antipatriarcais. Descrição de experiências típicas de mulheres (a maternidade, por exemplo) não é, necessariamente, um ato feminista: não é o objeto, “mas a perspectiva política é que define a relativa unidade da crítica feminista”. A feminilidade é expressa por meio de padrões impostos que devem parecer naturais. “Ao patriarcado interessa que se acredite que há uma essência do feminino, chamada feminilidade”. Destaca-se daí as oposições binárias como macho e fêmea, feminino e masculino, que conduzem a muitas outras como atividade e passividade, sol e luz, dia e noite, pai e mãe, inteligência e sensibilidade, que acabam por constituir um sistema patriarcal de valores. Cabe ao sujeito aceitar a inserção na Ordem Simbólica desses princípios binários se o que se quer é a imersão, o Real. O risco à liberdade não está na estrutura uma vez que tais oposições sempre existiram, mas está, segundo Castro (1991, p.223), “naqueles que transformam uma presumida universalidade na garantia para seu próprio discurso de poder.”
Nessas circunstâncias, percebe-se que as mulheres estão colocadas num campo de força que a compele a adotar uma falsa identidade, por exemplo, assumindo apenas a sua função de procriadora. A linguagem, nesse esquema, torna-se um instrumento de manipulação do patriarcado.
A tradição da cultura feminina, de desafios e transgressões, continua Schmidt (1995, p.187-189), força a abertura de um espaço dialógico de tensões e contrastes que desequilibra as relações simbólicas congeladas do ponto de vista do masculino. O feminino, por sua fez, superando o estado de passividade e conformidade, conscientemente, destrói o discurso de exclusões e rompe o silêncio: o objeto fala. Uma dupla conquista envolve a literatura feita por mulheres: a conquista da identidade e a conquista da escritora. O caminho de superação deve se fazer na luta pela reconstrução da categoria “mulher” – “lugar potencialmente privilegiado” – para reconceituar o feminino e promover a recuperação da experiência abafada pela tradição cultural dominante. O fazer literário tem, pois, o poder – como prática micropolítica – de colaborar na reconstrução da noção de diferença do sujeito à hegemonia do idêntico (atuando no nível da subjetividade e da auto representação) que, por sua vez, desestruturará o sistema binário de gênero, corroendo as relações de poder subjacentes. O resultado foi a inclusão da multiplicidade, heterogeneidade e legitimidade à noção de cultura. Por um lado, quando se usa a expressão escrita feminina quer se referir a texto de autoria feminina escrito do ponto de vista da mulher e em função de representação particularizada e especificada no eixo da diferença; por outro, a expressão, hoje, rompe o sentido vinculado à crítica do século XIX, (“uma sensibilidade contemplativa e exacerbada”). O resgate do termo exige colocá-lo dentro de uma prática libertadora em termos culturais, históricos e políticos. Não se trata, portanto, de encerrá-la num caráter ontológico e metafísico, mas a expressão “escrita feminina”, de fato, pela força com que se apresenta, nos quadros da Cultura Ocidental, ganha, um estatuto epistemológico. “Ela é um forma de contestar o caráter misógino ainda presente em critérios de avaliação de textos literários e que levam críticos a referir-se a escritoras usando paradigmas masculinos”.

Referências

CASTRO, N. C. de. O feminino em Questão: uma leitura de Elizabeth Wright e de Toril Moi. ANAIS DO IV SEMINÁRIO NACIONAL MULHER E LITERATURA. Niterói: UFF/Abralic, 1991, p.222-230.
LAMAIRE, Ria. Repensando a história literária. In: BUARQUE DE HOLANDA, Heloísa (Org.). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p.58-71.
SCHMIDT, R. T. Repensando a cultura, a literatura e o espaço da autoria feminina. In.: NAVARRO, Márcia Hoppe (Org.). Rompendo o silêncio. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1995, p.182-189.

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