sábado, 30 de abril de 2016

O SENTIDO TRÁGICO DO AMOR

Bruna Marcelo de Freitas
Dante Gatto

Dizer “eu te amo” tornou-se um peso terrível, porque carregaram a condição amorosa de infinitas restrições humanas. Não amamos quando pensamos que amamos, porque o amor é aquilo que não se sabe e não se diz. Quando tentamos articular um sentido para o amor ele já nos escapou, porque perdemos aquela situação primeira, anterior ao verbo. Quando repetimos “eu te amo” já estamos no espaço de outra ordem.
A situação mais tosca e usual é aproximar o amor da sexualidade e do instinto de procriação, mas foi historicamente conveniente que assim fosse, não é verdade? Inventaram o termo amizade que seria um desdobramento do amor. Alguém até disse que a amizade é o amor espiritualizado. De qualquer forma, o que entendemos por amor são formas limitadas e circunscritas às contingências sociais e o amor fica carregado do peso de tal circunstância.
Paixão ainda não é amor, porque é um impulso para fora. O amor é um impulso para dentro. É o sentido iconoclasta da paixão que faz com que ela se aproxime do amor. Inventaram o termo amor paixão para diferenciar do amor romântico que configura uma situação verdadeiramente aberrante. Aproximam o sentido de paixão à sofrimento e doença não injustificadamente. O que pesa é uma preocupação profilática em aparar arestas. Isto não foi premeditado por elites dominadoras ou coisa do tipo. Foi uma saída da trágica condição humana.
O primeiro sentido trágico do amor está naquele mito que Aristófanes conta no Banquete para Agatão, que Platão escreveu para louvar o seu mestre Sócrates: da bipartição, da perdida unidade primitiva e a trágica condenação da procura. O sentido da incompletude para mim é o mais significativo. Depois veio as prerrogativas burguesas que fizeram valer uma série de regras: a monogamia, o casamento etc., e fizeram isto parecer uma coisa natural, uma condição humana. E o termo amor acabou limitado e condicionado por um sentido moral que valeu inclusive na modernidade. A contemporaneidade anuncia, sem dúvida, a supressão dos paradigmas, instaurando o tempo do super-homem nietzschiano, para além do bem e do mal, de todas as morais em nome da plena realização dos seus impulsos instintivos reguladores.
O amor, no sentido da bipartição, da completude negada, tem um fundamento sagrado, e o amor no sentido da superação da completude por meio dos interesses pragmáticos da vida social burguesa tem um fundamento histórico e sociológico e foi nesse processo que acabamos perdendo o amor ou, pelo menos, confundimos bastante as coisas, uma vez que o amor é tomado como sinônimo de completude, no sentido de tornar a vida suportável.
Acabamos aceitando a busca do amor no outro, num processo de aceitação do outro, da felicidade do outro, e isto, sem dúvida, é muito produtivo para um sistema que se alimenta do consumo. O amor tem sim um sentido de completude, enquanto conquista, mas é um projeto pessoal e transcende ao objeto. Ora, o fetichismo capitalista transfere tudo ao objeto. É a lógica de um sistema demoníaco.
O amor está perdendo o peso que o capitalismo colocou nele em nome da produtividade, porque, agora, na contemporaneidade, está, digamos assim, se desinstitucionalizando. Um filme inglês de 1994, Four Weddings and a Funeral é exemplar do que estou tentando argumentar aqui: entre quatro casamentos e um funeral vai se efetivando a relação de vários casais, acentuando os interesses que os aproximam que resultam em casamento. No entanto, o casal, cujo sentimento se insinua sem interesse de outra ordem (sexo, filhos, comércio, estabilidade), não consuma o contrato, isto é, não se casam.
Desde sempre, corremos atrás das mulheres, e vice-versa, mas isto não é amor. As circunstâncias históricas e materiais ganharam em significação e demos ao conjunto de possibilidades o mesmo nome. O tempo do viver e o tempo adequado ao amadurecimento do léxico nunca se coadunam e criam o entretempo da poesia, “entre o ser e as coisas”, como diria Drummond.

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