domingo, 17 de abril de 2016

A QUESTÃO DA FÉ EM O GUARANI DE JOSÉ DE ALENCAR

WEBER, Clairton José. A questão da fé em O Guarani de José de Alencar. Tribuna de Tangará (ISSN 2357.7541), n. 1701, ano XXVI. Tangará da Serra, p.02-02. 27 abr. 2016. 

Clairton José Weber

A obra de José de Alencar, tido por todos como o fundador do romance brasileiro, apesar das dezenas de anos que seguem a sua organização e primeira publicação – considerados também todos os trabalhos de ordem da crítica literária que se seguiram – ainda oferece muitas possibilidades de interpretação e análise.
O Guarani, obra que serve como base para nossa reflexão de hoje é leitura obrigatória no Ensino Médio, invariavelmente aparece em questões de vestibular ou concursos. Ocorre, contudo, que a leitura deste romance – e isso acontece com todos os outros – quando se é jovem é uma leitura difícil. Alguns aspectos contribuem para isso, em especial o tempo histórico (o romance escrito por volta de 1850 está ambientado no século XVII, às margens do Rio Paraíba, e tem por protagonista o índio Peri). Então, uma segunda leitura, já adulto é recomendável.  Antônio Soares Amora explica que o romance O Guarani teria sido publicado só em 1857. “[...] belo romance que de pronto elevou o gênero, entre nós, a uma altura de qualidade e significação nacional, equivalente ao que ele atingira noutras literaturas.” (AMORA, 1977, p. 91).
Quando fazemos uma segunda leitura, já com mais experiência tanto no campo intelectual propriamente dito ou puramente baseado nos aspectos que se referem ao senso comum (o nosso conhecimento de mundo), começamos a perceber que de fato, José de Alencar merece os elogios que a ele foram atribuídos ao longo destes mais de cem anos (Alencar morreu em 1877).
Não é segredo para ninguém (pelo menos entre os que leram O Guarani), que a ligação entre o índio Peri e sua Cecí ou a personagem Cecília, ultrapassava ao que se pode considerar uma paixão. Aliás, em momento algum Peri considerou seu sentimento como algo inerente ao idílio. O que uniu os dois personagens foi uma imagem que impregnou fortes e indecifráveis sentimentos no índio. (Entendemos sentimento aqui como estado ou condição psicológica, e suas manifestações, originadas das pulsões de afeto). A imagem de Nossa Senhora Aparecida, que ele havia visto sob as cinzas depois de um ataque dos índios a uma pequena comunidade de portugueses, em Vitória. Transcrevo a seguir uma pequena parte dessa narrativa, feita pelo próprio Peri a D. Antônio de Mariz:

Na casa da cruz, no meio do fogo, Peri tinha visto a senhora dos brancos, era alva como a filha da lua; era bela como a garça do rio.
Tinha a cor do céu nos olhos; a cor do sol nos cabelos; estava vestida de nuvens, com um cinto de estrelas e uma pluma de luz.
O fogo passou; a casa da cruz caiu.
De noite Peri teve um sonho; a senhora apareceu; estava triste e falou assim:
“Peri, guerreiro livre, tu és meu escravo; tu me seguirás por toda a parte, como a estrela grande acompanha o dia”.
A lua tinha voltado o seu arco vermelho, quando tornamos da guerra; todas as noites Peri via a senhora na sua nuvem; ela não tocava a terra, e Peri não podia subir ao céu. (ALENCAR, 1999, pág. 96).

O índio Peri (bom selvagem, ser íntegro e primitivo) viu na jovem Cecília, filha de D. Antônio de Mariz a personificação da santa que lhe apareceu num sonho. O que é narrado por Alencar neste romance de uma forma ou de outra se torna verossímil a partir desta associação. Rosenfeld aponta um surto de pietismo nas origens do Romantismo na Europa, onde mais valia “[...] o exercício intenso e sincero da emoção e do sentimento devotos, ao êxtase e à contemplação beatíficas.” (ROSENFELD, 2002, p. 266).
É de se supor que Alencar tenha lido Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), calvinista convertido ao catolicismo e depois reconvertido ao credo protestante, ao que informa Rosenfeld. As concepções de Rousseau geraram nos românticos europeus o interesse pelo exotismo e pelo indianismo. Alencar – que buscava construção de uma literatura brasileira americanista diferenciada da europeia – também deve ter observado isso quando, a partir de 1848 traçou as primeiras linhas de O Guarani obra que inaugura o Romantismo em prosa no Brasil e tido como um romance indianista.

[...] o Romantismo privilegia, ainda que por vias antes artística e secular, tendências e buscas similares cujo foco e âmbito preferenciais também se situam no interior do sujeito, de seu ego e mundo psíquico, e que também desembocam, com grande frequência, em aspirações e indagações religiosas. (ROSENFELD, 2002, p. 266).

As opções feitas por José de Alencar para dar verossimilhança à sua narrativa, no que tange a inclusão de elementos de cunho religioso são motivos de pesquisa e reflexão. Ele utiliza a imagem de Nossa Senhora Aparecida, como elemento místico, podemos dizer assim, pois o índio Peri ainda não havia sido catequizado – não tinha capacidade de perceber que a imagem na “casa da cruz”, uma igreja, naturalmente –, significava muito para os homens brancos, invasores e inimigos.
Mas isso, segundo bem observa João Alexandre Barbosa da Universidade de São Paulo, no prólogo da edição de O Guarani lida para a elaboração deste artigo “[...] é apenas uma parte de sistema mais rico de significações [...]”.

REFERÊNCIAS
ALENCAR, José de. O Guarani. 24. ed. São Paulo, Ática 1999.
AMORA, Antônio Soares. História da Literatura Brasileira. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 1977.
ROSENFELD, Anatol. Romantismo e Classicismo. In: GUINSBURG, J. (Org.). O Romantismo. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 2002. p. 261-274.

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