sexta-feira, 11 de março de 2016

A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA POBREZA E DA INFÂNCIA NO POEMA “MENINOS CARVOEIROS” DE MANOEL BANDEIRA

Este artigo foi publicado, também, no Jornal Tribuna de Tangará. Segue a referência abaixo:

BRITO, Geni Mendes. A representação social da pobreza e da infância no poema 'Meninos carvoeiros' de Manoel de Barros. Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, p.02-02. 09 mar.2016.

Geni Mendes de Brito

Tomando como suporte teórico o texto de Alfredo Bosi “Entre a Literatura e a História” (2013) ‘a poesia é ainda necessária’? (p.9) e retomando a frase: “a poesia é ainda nossa melhor parceira para exprimir o outro e representar o mundo” (p.20), apresento aqui um pequeno ensaio interpretativo sobre o poema “Meninos Carvoeiros” do poeta Manuel Bandeira.
Bosi nos fala da poesia como uma representação da linguagem, e que essa linguagem não consegue falar diretamente das coisas, da realidade e nem abarca o mundo diretamente, mas procura revelar o mundo que está escondido dentro de cada homem, de cada realidade. E esta realidade nos é revelada através do poema “meninos carvoeiros” de Manuel Bandeira que nos apresenta alguns aspectos relacionados à pobreza e ao trabalho infantil como representação da vida social brasileira. Refletindo sobre as questões sociais no Brasil, a pobreza e a miséria são elementos marcantes e chocantes existentes na nossa sociedade, caracterizada pela falta de proventos primários como moradia, comida, roupas, juntando a esses elementos a carência de educação, saúde, lazer, completando assim a miséria material de um povo explorado e sofrido.
Manoel Bandeira nos retrata de forma poética esta dramática realidade quando nos confronta com as questões relacionadas à pobreza e a exploração da mão de obra infantil. Tomando ainda a afirmação de Bosi quando diz” a poesia dá ao homem o estímulo para refletir”, ou seja, a poesia cria e nos ajuda a repensar a vida, discutir as questões sociais, sem com isso, ser obrigada a se relacionar com o mundo lá fora.
É importante perceber que, do ponto de vista tradicional, a poesia lírica sempre nos foi apresentada como uma manifestação do ‘estado de alma’ e do ‘sentimento individual’ do poeta, deixando de lado uma interpretação crítica das questões sociais. Sob essa perspectiva, percebe-se que a poesia de Manuel Bandeira revela questões para além de seu estado de espírito ou de seu sentimento individual. Nesta poesia, o autor nos apresenta um discurso capaz de problematizar os homens e a sociedade em que ele está inserido.
“Meninos Carvoeiros” é uma denúncia quanto a miséria e ao trabalho infantil, bem como a injustiça social presente no contexto atual brasileiro, em que se vê a exploração da mão de obra de ‘pequenos trabalhadores’. O poema nos leva a refletir sobre os “meninos carvoeiros” e a relação que tem com a situação de miséria vivida por milhões de brasileiros. Vejamos alguns elementos que podemos analisar no poema para percebermos esta visão de denuncia social apresentada pelo poeta:

“Meninos Carvoeiros”.
Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
- Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.

Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem.

(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe, dobrando-se com um gemido.)
- Eh, carvoeiro!

Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingênua parece feita para eles...
Pequenina, ingênua miséria!
Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!

-Eh, carvoero!
Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado,
Encarapitados nas alimárias,
Apostando corrida,
Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos desamparados.


Manoel Bandeira através deste poema nos apresenta um diálogo com a sociedade brasileira expondo os problemas que a mesma enfrenta, ou seja: a pobreza e a exploração da mão de obra infantil. Estes problemas fazem parte da realidade vivida por milhares de crianças que são obrigadas a trabalhar para ajudar no sustento da família. 
Em “meninos carvoeiros” nos é retratado também a representação da pobreza na pessoa de “uma velhinha dobrando-se com um gemido” - são personagens que representam as pessoas marginalizadas tanto na sociedade brasileira como em muitos países afora.  Primeiro, os meninos, pobres, carvoeiros, obrigados a trabalhar, uma vez que o lugar de toda criança é na escola, assim nos afirma nossa Constituição Educacional; segundo, a questão de ‘velhos’ pobres e muitas vezes, abandonados por familiares e pela sociedade.
 Por meio de uma linguagem simples e poética, Manoel Bandeira nos traz em seu poema problemáticas sociais preocupantes que parecem esquecidas em um mundo onde parece “não se ter tempo” para enxergar os frutos da pobreza, tais como o trabalho infantil e o descaso com os idosos.
Podemos concluir que a poesia de Manoel Bandeira tem um caráter de engajamento ao denunciar a exploração de menores, e associa os “meninos carvoeiros”, aos próprios animais raquíticos, alienados, que não se dão conta da “ingênua miséria” em que vivem.

REFERÊNCIA
BOSI, Alfredo. Entre a Literatura e a História. São Paulo: Editora 34, 2013.