domingo, 28 de fevereiro de 2016

UBIRAJARA DE JOSE DE ALENCAR: QUE ROMANCE É ESTE?

Alessandra Cristina da Silva

O romance se constitui de nove capítulos, perfeitamente nominado (“O caçador”, “O guerreiro”, “A noiva”, “A hospitalidade”, “Servo do amor”, “O embate nupcial”, “A guerra”, “A batalha” e “União dos arcos”), constituídos por breves cenas, em parágrafos breves também, típico da prosa poética com a qual Alencar já havia se consagrado com Iracema publicado em 1865, nove anos antes. Ubirajara veio a luz em 1874. Pode-se dizer que se está na fase final da produção romanesca de Alencar. Em 1877 publicaria seu último romance: Encarnação. Trata-se, Ubirajara, da ascensão do caçador Jaguarê ao guerreiro Ubirajara, identificado como “senhor da lança” que unirá a nação Araguaia à nação Tocantim, consagrando-se líder de ambas. Tal união tem na base o amor do guerreiro araguaia por Araci, virgem Tocantim.
            Narrativa temporalmente linear, livre de elipses, pausas ou alongamentos. Inicia-se no momento em que o jovem guerreiro Jaguarê procura um inimigo, no ritual de consagração enquanto adulto, no caso “capaz de resistir ao seu braço robusto” (ALENCAR, 1959, p.9); até o momento em que se consagra senhor de duas nações e toma Jandira como serva da sua esposa Araci: esta esposa tocantim; aquela esposa Araguaia. O desfecho, por fim, terá dois tempos. Primeiramente, será a vitória esmagadora na guerra contra os tapuias, com intervenção direta de Ubirajara, dispensando, aliás, a legião de guerreiros das duas nações. “Ubirajara lançou-lhe seus guerreiros, que tinham fome de vingança; porém o terror de sua lança dava asas aos fugitivos”. (p.118). O segundo tempo do desfecho será a acomodação de uma situação inusitada: Araci traz Jandira à presença de Ubirajara, senhor do arco das duas nações e aconselha: “Ele deve repartir seu amor por elas, como repartiu a sua força”. (p.118). Jandira, por sua vez, argumenta: “— Jandira é serva de tua esposa; seu amor a obrigou a querer o que tu queres. Ela ficará em tua cabana para ensinar a tuas filhas como uma virgem araguaia ama seu guerreiro”. (p.118). Ubirajara divide seu abraço às duas: “— Araci é a esposa do chefe tocantim; Jandira será esposa do chefe araguaia; ambas serão as mães dos filhos de Ubirajara, o chefe dos chefes, e o senhor das florestas”. (p.119). A realidade social torna a situação verossímil.
Bakthin (1988, p.402) identificou que as definições normativas do romance dadas pelos próprios romancistas procuravam uma variante precisa como única forma correta de romance. Elas refletem a luta do romance com os outros gêneros e consigo mesmo em dada etapa do seu desenvolvimento e se aproximam da posição singular do romance na literatura. A criação de um novo tipo de romance no séc. XVIII é acompanhado por uma série de expectativas e julgamentos particularmente significativos. Estabelecem, os ideólogos do romantismo, as seguintes características: (1) o romance não deve ser poético no sentido pelo qual os outros gêneros literários se apresentam como tais; (2) a personagem do romance não deve ser heroico (épico ou trágico); (3) O personagem deve ser apresentado não como algo acabado e imutável, mas transformável pela vida e (4) O romance deve ser para o mundo contemporâneo aquilo que a epopeia foi para o mundo antigo.
Diante do nosso objeto de estudo, o romance Ubirajara o que se tem é prosa poética, como é típico de Alencar; tem-se o herói épico em grande medida na posição de protagonista; tem-se um personagem acabado, por conta da sua inflexibilidade diante da organização social a que está submetido e, por fim, o romance de Alencar, circunscrito a um microcosmo bem definido se torna anacrônico às perspectivas do mundo contemporâneo. Portanto, todas as características elencadas são descartadas no acabamento estético alencariano em Ubirajara.
Se o romance se consagra pela forma em que a totalidade extensiva do mundo, como ocorria na epopeia, só encontra saída, no presente, pela totalidade intensiva da essência como argumentou Lukács, o microcosmo selecionado e as pretensões nacionalistas de Alencar deram luz a uma obra que desafia os paradigmas do cânone. Além disso, tornar verosímil o arranjo poligâmico, transcendendo a moral burguesa em nome da dialética da realidade torna o romance passível de estudo neste sentido como ao que já demos início.

Referência

ALENCAR, José de. Ubirajara. São Paulo: Bentivegna, 1959.

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