quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O TRÁGICO NA CONTEMPORANEIDADE: DO DESTINO E DA NECESSIDADE

Mayara Landin de Oliveira

Dante Gatto

Este artigo também foi publicado no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência:

OLIVEIRA, Mayara Landin de; GATTO, Dante. O trágico na contemporaneidade: do destino e da necessidade. Tribuna de Tangará (ISSN 23577541), Tangará da Serra, 01 out. 2014, p.07.

O espírito lúdico do povo grego antigo se fundava no choque do destino (Moira) e da necessidade (Ananké) enquanto configuração do trágico. Aquele de peso mítico e está de ordem racional. Aliás, eles emprestaram isto para o mundo ocidental como herança. Não é nada difícil demonstrar tal assertiva, tendo em vista as infinitas situações trágicas que a arte desde sempre tem explorado. A tragédia shakespeariana que colocou o amor de Romeu e Julieta no centro de uma rincha familiar, talvez, seja o exemplo mais famoso.
Se, por um lado, a ciência se faz ciência por conta de superar as limitações do senso comum; por outro, há uma sabedoria da vida cotidiana que devemos ficar atentos. É o caso da força do destino, ou seja, uma ideia de fatalidade (fatum) que inscreve “o homem num contexto que o determina, a predestinação a ser tal ou tal”. (MAFFESOLI, 2000, p.17).
A ideia de destino se combina ao imperativo categórico da vida. Ora, vivemos porque estamos vivos e é neste mundo que nos cabe viver. A arte prefigura esse combate de morte, mas absorve a morte na vida. Tiramos, por fim, benefício da morte e na própria vida transcendemo-la. A relação com a fatalidade enraíza-se profundamente nas histórias humanas e exprime-se regularmente em inúmeras práticas contemporâneas.
            O trágico contemporâneo, no entanto, conforme identifica Maffesoli (2000, p.23), vai combinar a vaidade humana no que se refere às suas ações ao sentimento de precariedade e brevidade da vida, “que se exprimem, mais ou menos conscientemente, no trágico latente ou no hedonismo ardente [...]”. Forte e complexa tal ligação (trágico e hedonismo): “a vida é vivida sob a forma de avidez”, do consumo intenso e vazio, do querer tudo e imediatamente, da ação política ou o projeto profissional, mesmo que esse tudo fique rapidamente superado. O sentido do fatum subjacente a tudo isso traduz bem uma maneira de viver que se harmoniza ao mundo tal como ele é, porque é o único que se tem, o único que é dado a viver.
            O trágico agora não é mais dramático, mas, tende a afirmar-se como força no retorno da necessidade. “Essa ananké que, para os eruditos, não tinha rosto, tem, pelo contrário, nos nossos dias, uma multitude deles”. (MAFFESOLI, 2000, p.24). E a fatalidade, agora, está na nossa impotência diante das coisas, não há como intervir no seu curso, a própria força que a religiosidade ganhou é bem um sintoma de aceitação da fatalidade. A História, enquanto racionalidade, sobre o qual se pode agir, foi substituída pelo destino que devemos assumir. A importância que toma, ou que retoma, a procura do prazer é, a este respeito, esclarecedora, argumenta Maffesoli (2000, p.25), “de tal modo é verdade que, tradicionalmente, a cultura do prazer vai a par com a consciência trágica do destino” em que faz parte, também, a “teatralidade quotidiana, a busca do supérfluo, senão mesmo do frívolo, evidentemente, a importância dada ao carpe diem, sem esquecer o culto do corpo sob a suas diversas modulações”.
            Maffesoli (2000, p.26) reconhece uma espécie de sabedoria para uso das jovens gerações, uma “nova sabedoria trágica” que é uma forma de heroísmo “que assumindo o que pode ter de irrevogável os amores vividos, as adesões ideológicas, as revoltas pontuais, não entende instituí-los em ‘família, crença, partido’. Tudo formas esclerosantes e potencialmente mortíferas”. Exemplar disto, sem adentrar na questão, são as recentes manifestações populares no Brasil, escandalosamente, desinstitucionalizadas. A necessidade, no seu sentido filosófico, “gera heróis, novos cavaleiros da pós-modernidade, capazes de arriscar a vida por uma causa que pode ser, ao mesmo tempo, idealista e perfeitamente frívola.
            O Presente é o nosso horizonte. As sociedades tradicionais investiam no passado, as épocas progressistas, como a modernidade, no futuro. Nós só temos o presente, porque nos falta utopia. O legado do socialismo falido foi o capitalismo eterno, não é? Restou-nos, como Maffesoli (2000, p.26) argumenta, uma “ética do instante”: da submissão à Moira e nas máscaras circunstancias da Ananké.

Referência

MAFFESOLI, Michel. Uma vida sem objetivo. In: ______. O eterno instante: o Retorno do Trágico nas sociedades Pós-Modernas. Lisboa: Instituto Piaget, 2000. p.17-43.

Nenhum comentário:

Postar um comentário