quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O QUE MOVE O MUNDO?

Este artigo foi publicado, anteriormente, no Jornal Tribuna de Tangará. Segue a referência abaixo:

WEBER, Clairton José. O que move o mundo? Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, p.02-02. 02 mar. 2016.

Clairton José Weber

             Responder a essa pergunta é um verdadeiro desafio, porque implica um enorme e interminável exercício de inserção ao mundo interior que raramente visitamos. É claro que não temos resposta para isso. Nem encontraremos tão fácil mesmo perscrutando as melhores publicações da filosofia, da literatura, da teologia e até da economia. Existe uma peça publicitária muito bem sucedida e exibida já há alguns anos pelo canal FUTURA que sugere serem as perguntas que movem o mundo. Também é. Mas existem outras possibilidades. Uma delas é apontada pelo filósofo espanhol Miguel de Unamuno (1864-1936), na obra Do sentimento trágico da vida. Uma publicação de valor inestimável. Uma preciosidade.
          A obra é uma viagem pelas grandes e fundamentais angústias do ser humano e em especial, no capítulo “Fé, esperança e caridade”. Unamuno discorre amplamente sobre esses temas já bastante abrangentes e sugere que seria a dor o elemento que na essência move o mundo.

Essa dor dá esperança, que é a beleza da vida, a suprema beleza, o supremo consolo. E como o amor é dor, é compaixão, é piedade, a beleza surge da compaixão e procura o consolo temporal. Trágico consolo. E a suprema beleza é a da tragédia. Tristes ao sentirmos que tudo passa, que passamos, que passa o que é nosso [...] (UNAMUNO, 2013, p. 180).

            Unamuno explica que a dor é a raiz da personalidade e une todos os seres. Ele sugere que a dor tem os seus níveis, que permeia as aparências até a eterna angústia. “[...] a fonte do sentimento trágico da vida, que se estabelece no fundo da eternidade e ali desperta o consolo”. (2013, p.181). E a angústia é algo muito mais profundo, mais íntimo e mais espiritual que a dor. A dor nos diz que existimos, a dor nos diz que existem os que amamos, ensina o filósofo. Ora, a dor também é algo espiritual, “a revelação mais imediata da consciência e talvez recebamos o corpo apenas para que a dor se manifeste.” (2013, p. 185).
          O espírito, quando limitado pela matéria, onde tem que viver, toma consciência de si e o enfrentamento se dá com a dor. “A dor é o obstáculo que a matéria coloca ao espírito, é o enfrentamento da consciência com o inconsciente”. (2013, p. 186). Retomando a reflexão central, vamos destacar uma arrebatadora afirmação de Unamuno: a suprema preguiça é não desejar loucamente a imortalidade. (2013, p. 187). Qual entre nós não deseja a imortalidade? Viver para sempre, ainda que de outra maneira, em outro corpo talvez, em outro mundo...

REFERÊNCIAS
UNAMUNO, Miguel de. Do sentimento trágico da vida. Trad. John O’Kuinghttons. São Paulo: Hedra, 2013.

Um comentário:

  1. Profunda incursão pelo mundo a carecer das nossas visitas mais constantes, amigo! Parabéns! Você me lembrou o esforço de Michelangelo a esculpir com perfeição o bicho homem! Bela e oportuna reflexão.

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