segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O INÍCIO DE UMA NARRATIVA

Este artigo foi publicado também no Jornal Tribuna de Tangará. Segue a referência abaixo:

SILVA, Suelene Firmino de Oliveira. O início de uma narrativa. Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, p.02-02. 10 fev. 2016.


Suelene Firmino de Oliveira Silva 

Veja como Ricardo Ramos abre seu conto “O trole”:

O major Camilo demorou-se ainda no alpendre. Terminara o café, podia ficar algum tempo a olhar uns poucos homens que trabalhavam no curral, fazendo a limpeza e tarefas miúdas. D. Alcina chegou à porta e quis saber:
- Não vai sair agora?
- Tem pressa não, minha filha. (RAMOS, 1957, p.7).

Cabe aqui considerações da estrutura da narrativa tradicional, conforme colhemos de Mesquita (1987). A condição de narrativa, aliás, requer ação e conflito. Se levarmos em conta a matéria de uma narrativa tradicional, vemos que esta sempre parte de uma situação inicial, que geralmente é a apresentação de personagens em seu contexto sociocultural, familiar ou em suas características físicas e morais. A situação inicial deve corresponder a um equilíbrio. Com o surgimento de um motivo desequilibrador, começa o processo de desenvolvimento da narrativa até o clímax, isto é, o auge do conflito, em que a situação tem de ser resolvida. Em seguida, o desfecho, uma situação final que apresentará outro equilíbrio, diferente do primeiro, mas assim mesmo equilíbrio. O romancista inglês Hanry James estabeleceu a seguinte classificação nesta mesma perspectiva: apresentação, complicação, desenvolvimento, clímax e desenlace.
A apresentação pode ser feita pelos personagens em ação (cena), mas o mais comum está em começar por um sumário. Norman Friedman (Point of View in Fiction), citado por Ligia Chiappini Moraes Leite, faz uma síntese adequada aos nossos propósitos: “sumário narrativo é um relato generalizado ou a exposição de uma série de eventos abrangendo um certo período de tempo e uma variedade de locais, e parece ser o modo normal, simples, de narrar [...]”. (LEITE, 1987, p.119-120).
O conto de Machado de Assis “Missa do Galo” é um exemplo bem significativo do “do modo normal e simples de narrar”. O narrador, depois de confessar, rapidamente, nunca ter entendido “a conversação que teve com uma senhora”, sumariza os precedentes, ambientalizando a situação:

A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranquilo, naquela casa assobradada da rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito. (MACHADO DE ASSIS, 2011, p.11).

Temos, pois, todos os dados preliminares neste sumário: uma clara localização do tempo e do espaço, e uma preliminar apresentação das personagens. A cena emergirá deste background. Não é o caso de nos estender em considerações teóricas, mas de deixar bem claro a diferença em relação ao conto “O trole” de Ricardo Ramos que começa diretamente na cena, aliás, é o que podemos chamar de cena sumarizada. O narrador aponta apenas o nome das personagens: “major Camilo” e “D. Alcinda”. O designativo “major” não serve apenas para indicar patente militar, mas guarda também o significado de maior. Assim devemos entender, tendo em vista que o dito cujo, após o café, se entrega a “[...] ficar algum tempo a olhar uns poucos homens que trabalhavam no curral, fazendo a limpeza e tarefas miúdas”. Ora, trata-se de uma fazenda, não é? E a situação não é boa, tendo em vista que o Major não tem pressa. Demais informações relevantes à verossimilhança da narrativa, neste caso, serão inseridas oportunamente e se trata de recurso muito produtivo à participação do leitor.
Ambos os estilos são fecundos. Romper com a tradição pode ser perigoso, mas, por vezes, é a causa do sucesso. Acrescente-se, por fim: estamos diante de dois autores bem sucedidos: Machado de Assis e Ricardo Ramos.

Referências
LEITE, Ligia Chiappini Moraes. O foco narrativo. 3. ed. São Paulo: Ática, 1987.
MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Missa do galo e outros contos. São Paulo: Unesp, Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, 2011.
MESQUITA, S. N. O Enredo. 2. ed. São Paulo: Ática, 1987.
RAMOS, Ricardo. Terno de Reis. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1957.