domingo, 20 de dezembro de 2015

UMA PERGUNTA TRÁGICA ENVOLVENDO A VONTADE DE PODER E O ETERNO RETORNO NIETZSCHEANO

Este artigo foi publicado, também, no Jornal Tribuna de Tangará. Segue a referência abaixo:

GATTO, Dante. Uma pergunta trágica envolvendo a vontade de poder e o eterno retorno nietzscheanos. Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, p.02-02. 20 jan. 2016.

Dante Gatto

O conceito de vontade de poder está em Assim falou Zaratustra. Primeiramente, a vontade de poder, conforme encaminhamento de Nietzsche, estabelece as superações dos povos, por meio de seus valores. O impulso humano fica assim restrito à questões de ordem social e cultural que, de qualquer forma, tem implicação na vontade de poder, mas Nietzsche não segue a tradição filosófica pelo fato de que a vontade tem seu caráter seletivo através dos sentidos que impõe. Há o registro dos sábios dos sábios enquanto ato impositivo de uma interpretação. Zaratustra mostrará que a vontade de poder de tais sábios está na necessidade de criação de um mundo que possam dominar. A cosmovisão adequada, no entanto, segundo Nietzsche, não deve nos limitar. Dizendo de outra forma, os sábios afirmam uma vontade de verdade, mas a indicação zaratustriana aponta para uma vontade de que tudo seja passível ao pensamento. Ora, se se faz necessário que algo seja considerado verdadeiro, isto não implica que este verdadeiro seja, em absoluto, verdadeiro. O que deve nos mover, portanto, não é a busca da verdade enquanto algo previamente existente é encontrável, mas é o mover-se de sua vontade de poder que busca tornar pensável tudo que é. Zaratustra ratifica que mesmo ao falar do bem e do mal, ao erigir valores, quem o faz é a vontade de poder.
Dioniso é o signo daquilo que ainda não aconteceu, que é embrionário no homem. A vontade de poder, portanto, é um impulso à frente e como o eterno retorno contém a concepção da vida como fluxo. Interpretar a vontade de poder como desejo de dominar implica uma dependência aos valores estabelecidos, únicos que podem reconhecer o mais poderoso diante dos eventuais conflitos. Desejo de domínio, para Nietzsche, não consiste em cobiçar ou em tomar, mas sim numa virtude generosa:

Necessidade de dominar: mas como chamar necessidade a esta grandeza que condescende ao poder? Na verdade, não há aí nada de mórbido, nada de cúpido em tais desejos, em tais condescendências [...] Oh! quem poderia dizer o nome verdadeiro, o nome da virtude que convém a uma aspiração semelhante? A virtude que dá, tal foi o nome que Zaratustra deu um dia a este sentimento indizível. (DELEUZE, 1994, p.73).

O Poder, como vontade de poder, não é o que a vontade quer, mas aquilo que quer na vontade. (DELEUZE, 1994, p.22). O que impulsiona a vontade, portanto, é o pensamento seletivo. Encaminha-nos Deleuze a perspectiva nietzschiana, salientando a pressão da sociedade e da cultura:

“Mas se tudo está determinado, como posso dispor dos meus actos?” O pensamento e a crença são um peso que pesa sobre ti, tanto e mais do que qualquer outro peso. Dizes que a alimentação, o sítio, o ar, a sociedade te transformam e te condicionam? Muito bem, as tuas opiniões ainda o fazem mais, porque são elas que te determinam na escolha da tua alimentação, da tua morada, do teu ar, da tua sociedade. (DELEUZE, 1994, p.77).

            O pensamento seletivo suscita, pois, o eterno retorno: “Se assimilas este pensamento entre os pensamentos, ele te transformará. Se, em tudo o que quiseres fazer, começas por perguntar a ti mesmo: “É certo que o queira fazer um número infinito de vezes?” será para ti o centro de gravidade mais sólido. (DELEUZE, 1994, p.77).
            Aqui pra nos, caro leitor, e você, já se submeteu a tal pergunta ou se entregou a uma existência trágica, vitimado pelos próprios condicionamentos? De qualquer forma, fica a inevitabilidade da nossa busca por este centro de gravidade mais sólido.

Referência

DELEUZE, G. Nietzsche. Trad. Alberto Campos. Lisboa: edições 70, 1994.

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