segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

IMPOTÊNCIA E ONIPOTÊNCIA OU REFLEXÕES DA CONDIÇÃO TRÁGICA DO PROFESSOR

Este artigo foi publicado, também, no Jornal Tribuna de Tangará. Segue a referência abaixo:

GATTO, Dante. Impotência e onipotência ou reflexões da condição trágica do professor. Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, p.02-02. 16 dez. 2015.

Dante Gatto


A máscara é um dos inventos mais antigos da Humanidade, presente já na cultura paleolítica e se constitui, antes de tudo, um sintoma da clareza que o homem teve, desde sempre, da sua impotência. Parece contraditório, mas “a consciência de sua própria relatividade é no homem inseparável da consciência postuladora do absoluto”. (ORTEGA Y GASSET, 1978, p.86). Trazemos em nós o veemente afã de querer participar dessa outra superior realidade, conseguir trazê-la para a nossa realidade carente e limitada, fazer com que o onipotente colabore em nossa nativa impotência. Mesmo os adoradores de Dioniso neste adorá-lo, “reatua sobre o deus, projeta-se em sua figura mítica e plástica”. (ORTEGA Y GASSET, 1978, p.86). Queremos proximidade com o divino porque se constitui esta relação, o real, em detrimento das aparências da realidade do nosso mundo dessacralizado.
            Ao longo da história, o sentimento de impotência e onipotência acompanhará o homem. A impotência, sendo uma experiência, se vai fazendo, nunca fica encerrada, se modifica, corrige, integra de tal maneira que hoje temos possibilidades que se situavam antes na esfera do impossível. A finitude do homem é indefinida: “uma limitação ilimitável ou elástica à qual não é possível marcar termos absolutos”. (ORTEGA Y GASSET, 1978, p.86). Se nos curvamos à onipotência, também não conseguimos estabelecer o limite da nossa impotência, sempre estabelecendo novas fronteiras.
            A personagem autobiográfica de Clarice Lispector, no conto “Restos de Carnaval” se indaga se o próprio rosto não se trata de uma máscara. Clareza de Clarice com perdão ao trocadilho. Fomos nos revestindo de infinitas máscaras, por força do nosso desejo de completude, para dar conta da nossa relatividade.
Dia desses, circunstâncias profissionais me colocaram diante de uma situação exemplar do que quero argumentar aqui: uma auto avaliação do meu desempenho enquanto professor. Eu deveria inserir conceitos, de várias questões postas, se estava fazendo o que deveria fazer. Em princípio fiquei perplexo, porque me é suficiente fazer o que faço e, portanto, faço. Se tivesse clareza para discernir que não estou fazendo o que deveria fazer então faria o que não estou fazendo e, sendo, assim, a auto-avaliação pareceu-me desnecessária.
Acabei por concluir, no entanto, que já absorvemos a consciência das nossas infinitas máscaras e regulamos nossas ações profissionais nesse sentido: administrando máscaras. Não necessariamente somos nós que fazemos o que fazemos. No caso, o eu-professor seria um desdobramento do meu eu. O que, por fim, acontece? Quem faz o plano de curso, entra na sala-de-aula, se relaciona com os alunos, orientandos e os colegas etc. não seria eu ou você professor, mas o teu eu-professor, que você criou. No momento da referida avaliação de ensino, dever-se-ia, pois, dar um salto metafísico é isolar este segmento do teu eu e aplicar-lhe o devido corretivo. Neste ponto do processo entra em cena a totalidade do teu eu com todo o discernimento profissional, humano e ético. 
Eu aconselho que você não seja por demais cruel com o teu eu-professor. Há casos mesmo de agressão verbal e até física. Por que vocês acham que eu estou quase sem cabelos? Eu, por exemplo, não suporto o meu eu-professor. Tenho até desprezo por ele e o abandono perdido nos corredores da UNEMAT. E fico verdadeiramente desequilibrado quando ele me segue até minha casa, com o seu discurso de autoajuda, a sua generosidade patética de fracassado. Ou quando se aproveita, num bar, por exemplo, de um aluno que eventualmente se aproxima de mim. Ele, então, não perde tempo e se instala ali, destruindo todo o lirismo possível dos meus assomos de embriaguez.
Eu não consigo, mas penso que devemos ter complacência com o nosso eu-professor e viver em harmonia com ele. Aliás, não me entendo com o meu eu-professor, porque, talvez, seja tão cínico como ele. Neste sentido, eu o avaliei, na referida avaliação de ensino, com os critérios máximos.
A sabedoria, por fim, está em constituir o teu eu-professor mais compreensível que o teu eu, por força mesmo da nossa orientação didático-pedagógica e da nossa natureza essencialmente estética.
Tenho de terminar aqui a correção de alguns trabalhos e já sinto o meu eu-professor chegando. Ele vai ter de esperar mais um instante, porque estou tomado definitivamente pelo meu eu-trágico. Meu Deus, como bem disse Mário de Andrade: quem sabe um dia eu me encontrarei comigo.
Há de se ter cuidado, por fim, com máscaras sobrepostas.

Referência

ORTEGA Y GASSET, José. A ideia do Teatro. São Paulo: Perspectiva, 1978. 

11 comentários:

  1. Muito legal está reflexão. Genial professor!! Adorei!👏👏👏👏👏👏

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  2. Lido. Muito bom. Grande abraço professor.

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    1. Weber, acho que estou enlouquecendo, atravessado pelos meus múltiplos eus

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  3. Que maravilha de conto... Tento todos os dias compreender o meu eu.

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    1. quando penso que eu sou eu, já não sou mais.

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  4. Fantástico!! Excelente reflexão! Resta-me a questão: Sou disfarçada(o) ou até mesmo modificada(o) pelas máscaras sobrepostas ou é este mundo rouba o eu de mim?

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  5. Então, Fabiane, até que ponto nos anulamos, isto é, a máscara se incrustar ao rosto? Mas eu penso que acabamos nos tornando uma composição da nossa dupla natureza: por um lado, a afirmação da nossa individualidade, mas, por outro, como animais gregários buscamos a aceitação da coletividade. Nisto, aliás, repousa a nossa condição trágica.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Nunca li algo parecido. Que texto lindo! Me senti inteiramente nele, revestida com as máscaras da natureza humana. Penso que o meu eu ou é insano, ou sensato demais a ponto de conseguir estabelecer uma relação digamos que saudável com o meu eu-professora. E assim vou vivendo os meus dias nessa trágica condição humana. A afirmação da nossa individualidade muitas vezes é necessário que fique escondida atrás dos bastidores do teatro da vida, pois assim somos poupados de muitos dissabores!

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