segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

ASPECTOS DO LIRISMO: DO FINGIDOR E DO TRÁGICO

Este artigo foi publicado anteriormente no Jornal Tribuna de Tangará. Insiro, abaixo, a referência:

GATTO, Dante. Aspectos do lirismo: do fingidor e do trágico. Tribuna de Tangará (ISSN 2357.7541). Tangará da Serra, p.02-02. 30 mar. 2016. 

Dante Gatto

Um poema de amor não requer necessariamente uma experiência amorosa. Por vezes, basta uma história assim contada, a esmo, sem segundas intenções, uma confissão por mais desajeita que seja ou só uma sugestão que pairou na atmosfera propícia da apreensão lírica. Segue abaixo um poema dessa linhagem. Resumindo e concluindo, não tenham pena de mim, porque sou somente um fingidor.

A PERDA

Assisto a cidade que me assiste
E diante do mistério me percebo...
Estou com pena de mim.

A vida, afinal, me devolve a solidão em blocos
A ponto de me entender
O quanto me fiz cativo.

Onde estavas no solstício de inverno
Da noite que te perdi?

As perguntas se avolumam
Num dúbio instante
Entre o sopro e a explosão.

E te tenho aos pedaços
Na noite sem manhã,
No sexo sem amor,
No riso de ironia,
No pranto da incerteza.

Perdi você
E agora só me resta a vida
Na perda.

A história por detrás do poema, talvez, seja mais significativa. Um jovem me contou que cometeu o erro de deixar sozinha sua namorada, justamente no dia dos namorados (solstício de inverno de 2015) e o fato que ele pensou ser sem importância acabou resultando na causa da referida perda: ela nunca mais foi a mesma, por alguma coisa que aconteceu naquela noite, sem ele. Situação trágica por conta da importância que acabam atribuindo às datas inventadas pelo comércio em detrimento, digamos assim, do pensamento dos infensos a tal ditadura. O ocorrido, a perda, lhe acordou outra perda: ele se deu conta que se entregou tanto aquela relação que sem ela só restava a solidão, porque se afastará do mundo. Por um lado, digamos assim, a sociedade o punia pelo ostracismo; por outro, ela o punia pela falta no dia dos namorados. Punição eterna, como ele me disse, pelo menos da parte dela. Ele perdeu, porque verdadeiramente a amava, apesar da indiferença à data fabricada pelo espírito burguês. Perdeu, mas não podia morrer por conta disso, não é? E no balanço da sua vida, por paradoxal que possa parecer, só lhe restou, enquanto motivação vital, a consciência da perda. Ora é como aquela “ausência assimilada” do Drummond, vocês se lembram?
Por fim, quando eu souber o desfecho da história escreverei outro poema, mas pelo que sei o casal se separou mesmo, mas posso dar outro acabamento para a história, conforme minha predisposição lírica.

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