sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O SENTIDO SAGRADO DO ANO NOVO

GATTO, Cinthia Renata. O sentido trágico do ano novo. Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, p.02-02. 09 mar. 2016.

Cinthia Renata Gatto


Festas pagãs antes de tudo são sagradas no sentido mais puro e primeiro do sagrado. O cristianismo mudou a significação do sagrado, tornando Deus histórico e compreensível intelectualmente, bem diverso das perspectivas míticas.
A comemoração do Ano Novo constitui-se num ritual sagrado e está ligado à forças arquetípicas da recriação da cosmogonia, isto é, a afirmação do Cosmos em detrimento ao caos. Toda construção ou fabricação tem como modelo exemplar a cosmogonia. A Criação do Mundo torna-se o arquétipo de todo gesto criador humano, seja qual for seu plano de referência.
Consagramos o Cosmos quando nos situamos em um território. Quem já não trouxe em si o sentimento do antes de si caótico? A nossa consciência é histórica, mas antes de tudo é mítica, e pensamos o universo a partir da nossa inserção nele, e por conta disso temos de reatualizá-lo periodicamente. O mito implica rito. É o mito cosmogônico que relata o surgimento do Cosmos e o acontecimento mítico torna a ser presente por meio do ritual.
O Ano Novo, portanto, é uma reatualização da cosmogonia e há a retomada do Tempo primordial, do Tempo puro, do momento da Criação. Processa-se a expulsão dos pecados, dos demônios ou simplesmente elege-se um bode expiatório no sentido de fazer valer o ritual. Isto é comum em todas as culturas. O sentido das purificações rituais está na supressão dos pecados do indivíduo e da comunidade como um todo, muito além da mera purificação. Por conta disto se trata de ritual coletivo.
Ora, como para os persas que se faz bom exemplo, o tempo gastou o ser humano, a sociedade, o Cosmos, e esse tempo destruidor é profano justamente por conta disto. Faz-se necessário, portanto, aboli-lo, no sentido de restabelecer o momento mítico em que o mundo veio à existência, num tempo puro, forte e sagrado. A abolição do tempo profano decorrido realizava-se por meio de rituais que significavam uma espécie de fim do mundo. Bem, eu nem preciso me estender referindo-me aos nossos rituais, porque estão todos sintonizados e já se preparando para eles, não é verdade?
O processo implica regressão periódica do mundo ao caos no sentido de rejuvenescimento: aniquilam-se assim os pecados e o próprio homem renasce, porque começa uma nova existência, torna-se então mais livre e mais puro, pois se libertou do peso de faltas e pecados. Fazemos promessas para nós mesmos, assumimos compromissos de fazer melhor isto e aquilo. Restabelece-se dessa forma o Tempo sagrado e forte da Criação: sagrado porque transfigurado pela presença dos deuses; forte porque era o Tempo próprio e exclusivo da criação mais gigantesca que já se realizara: a do Universo. Simbolicamente, o homem volta a ser contemporâneo da cosmogonia, assiste à criação do Mundo.
Esse Tempo prodigioso obceca o homem desde sempre, o que explica o esforço por voltar a unir se a ele, em que os deuses tinham manifestado seus máximos poderes. Está na cosmogonia a suprema manifestação divina, o exemplar gesto de superabundância e criatividade. Está neste ritual sagrado a realidade. O homem religioso é sedento do real, da verdade. Esforça se, por todos os meios, para instalar-se na própria fonte da realidade primordial e firmar seu contato com os deuses. Somos criadores por excelência, não é verdade? O impulso para a criação é o mais forte motivador humano.

Evidente que os arquétipos se degradam ou se revestem de novas formas, mas na noite de passagem de ano, por mais que você se sinta um ser dessacralizado e areligioso, estará repetindo um ritual que te aproxima dos primórdios da humanidade, da criação e dos deuses.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

ASPECTOS DO LIRISMO: DO FINGIDOR E DO TRÁGICO

Este artigo foi publicado anteriormente no Jornal Tribuna de Tangará. Insiro, abaixo, a referência:

GATTO, Dante. Aspectos do lirismo: do fingidor e do trágico. Tribuna de Tangará (ISSN 2357.7541). Tangará da Serra, p.02-02. 30 mar. 2016. 

Dante Gatto

Um poema de amor não requer necessariamente uma experiência amorosa. Por vezes, basta uma história assim contada, a esmo, sem segundas intenções, uma confissão por mais desajeita que seja ou só uma sugestão que pairou na atmosfera propícia da apreensão lírica. Segue abaixo um poema dessa linhagem. Resumindo e concluindo, não tenham pena de mim, porque sou somente um fingidor.

A PERDA

Assisto a cidade que me assiste
E diante do mistério me percebo...
Estou com pena de mim.

A vida, afinal, me devolve a solidão em blocos
A ponto de me entender
O quanto me fiz cativo.

Onde estavas no solstício de inverno
Da noite que te perdi?

As perguntas se avolumam
Num dúbio instante
Entre o sopro e a explosão.

E te tenho aos pedaços
Na noite sem manhã,
No sexo sem amor,
No riso de ironia,
No pranto da incerteza.

Perdi você
E agora só me resta a vida
Na perda.

A história por detrás do poema, talvez, seja mais significativa. Um jovem me contou que cometeu o erro de deixar sozinha sua namorada, justamente no dia dos namorados (solstício de inverno de 2015) e o fato que ele pensou ser sem importância acabou resultando na causa da referida perda: ela nunca mais foi a mesma, por alguma coisa que aconteceu naquela noite, sem ele. Situação trágica por conta da importância que acabam atribuindo às datas inventadas pelo comércio em detrimento, digamos assim, do pensamento dos infensos a tal ditadura. O ocorrido, a perda, lhe acordou outra perda: ele se deu conta que se entregou tanto aquela relação que sem ela só restava a solidão, porque se afastará do mundo. Por um lado, digamos assim, a sociedade o punia pelo ostracismo; por outro, ela o punia pela falta no dia dos namorados. Punição eterna, como ele me disse, pelo menos da parte dela. Ele perdeu, porque verdadeiramente a amava, apesar da indiferença à data fabricada pelo espírito burguês. Perdeu, mas não podia morrer por conta disso, não é? E no balanço da sua vida, por paradoxal que possa parecer, só lhe restou, enquanto motivação vital, a consciência da perda. Ora é como aquela “ausência assimilada” do Drummond, vocês se lembram?
Por fim, quando eu souber o desfecho da história escreverei outro poema, mas pelo que sei o casal se separou mesmo, mas posso dar outro acabamento para a história, conforme minha predisposição lírica.

domingo, 20 de dezembro de 2015

UMA PERGUNTA TRÁGICA ENVOLVENDO A VONTADE DE PODER E O ETERNO RETORNO NIETZSCHEANO

Este artigo foi publicado, também, no Jornal Tribuna de Tangará. Segue a referência abaixo:

GATTO, Dante. Uma pergunta trágica envolvendo a vontade de poder e o eterno retorno nietzscheanos. Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, p.02-02. 20 jan. 2016.

Dante Gatto

O conceito de vontade de poder está em Assim falou Zaratustra. Primeiramente, a vontade de poder, conforme encaminhamento de Nietzsche, estabelece as superações dos povos, por meio de seus valores. O impulso humano fica assim restrito à questões de ordem social e cultural que, de qualquer forma, tem implicação na vontade de poder, mas Nietzsche não segue a tradição filosófica pelo fato de que a vontade tem seu caráter seletivo através dos sentidos que impõe. Há o registro dos sábios dos sábios enquanto ato impositivo de uma interpretação. Zaratustra mostrará que a vontade de poder de tais sábios está na necessidade de criação de um mundo que possam dominar. A cosmovisão adequada, no entanto, segundo Nietzsche, não deve nos limitar. Dizendo de outra forma, os sábios afirmam uma vontade de verdade, mas a indicação zaratustriana aponta para uma vontade de que tudo seja passível ao pensamento. Ora, se se faz necessário que algo seja considerado verdadeiro, isto não implica que este verdadeiro seja, em absoluto, verdadeiro. O que deve nos mover, portanto, não é a busca da verdade enquanto algo previamente existente é encontrável, mas é o mover-se de sua vontade de poder que busca tornar pensável tudo que é. Zaratustra ratifica que mesmo ao falar do bem e do mal, ao erigir valores, quem o faz é a vontade de poder.
Dioniso é o signo daquilo que ainda não aconteceu, que é embrionário no homem. A vontade de poder, portanto, é um impulso à frente e como o eterno retorno contém a concepção da vida como fluxo. Interpretar a vontade de poder como desejo de dominar implica uma dependência aos valores estabelecidos, únicos que podem reconhecer o mais poderoso diante dos eventuais conflitos. Desejo de domínio, para Nietzsche, não consiste em cobiçar ou em tomar, mas sim numa virtude generosa:

Necessidade de dominar: mas como chamar necessidade a esta grandeza que condescende ao poder? Na verdade, não há aí nada de mórbido, nada de cúpido em tais desejos, em tais condescendências [...] Oh! quem poderia dizer o nome verdadeiro, o nome da virtude que convém a uma aspiração semelhante? A virtude que dá, tal foi o nome que Zaratustra deu um dia a este sentimento indizível. (DELEUZE, 1994, p.73).

O Poder, como vontade de poder, não é o que a vontade quer, mas aquilo que quer na vontade. (DELEUZE, 1994, p.22). O que impulsiona a vontade, portanto, é o pensamento seletivo. Encaminha-nos Deleuze a perspectiva nietzschiana, salientando a pressão da sociedade e da cultura:

“Mas se tudo está determinado, como posso dispor dos meus actos?” O pensamento e a crença são um peso que pesa sobre ti, tanto e mais do que qualquer outro peso. Dizes que a alimentação, o sítio, o ar, a sociedade te transformam e te condicionam? Muito bem, as tuas opiniões ainda o fazem mais, porque são elas que te determinam na escolha da tua alimentação, da tua morada, do teu ar, da tua sociedade. (DELEUZE, 1994, p.77).

            O pensamento seletivo suscita, pois, o eterno retorno: “Se assimilas este pensamento entre os pensamentos, ele te transformará. Se, em tudo o que quiseres fazer, começas por perguntar a ti mesmo: “É certo que o queira fazer um número infinito de vezes?” será para ti o centro de gravidade mais sólido. (DELEUZE, 1994, p.77).
            Aqui pra nos, caro leitor, e você, já se submeteu a tal pergunta ou se entregou a uma existência trágica, vitimado pelos próprios condicionamentos? De qualquer forma, fica a inevitabilidade da nossa busca por este centro de gravidade mais sólido.

Referência

DELEUZE, G. Nietzsche. Trad. Alberto Campos. Lisboa: edições 70, 1994.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

IMPOTÊNCIA E ONIPOTÊNCIA OU REFLEXÕES DA CONDIÇÃO TRÁGICA DO PROFESSOR

Este artigo foi publicado, também, no Jornal Tribuna de Tangará. Segue a referência abaixo:

GATTO, Dante. Impotência e onipotência ou reflexões da condição trágica do professor. Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, p.02-02. 16 dez. 2015.

Dante Gatto


A máscara é um dos inventos mais antigos da Humanidade, presente já na cultura paleolítica e se constitui, antes de tudo, um sintoma da clareza que o homem teve, desde sempre, da sua impotência. Parece contraditório, mas “a consciência de sua própria relatividade é no homem inseparável da consciência postuladora do absoluto”. (ORTEGA Y GASSET, 1978, p.86). Trazemos em nós o veemente afã de querer participar dessa outra superior realidade, conseguir trazê-la para a nossa realidade carente e limitada, fazer com que o onipotente colabore em nossa nativa impotência. Mesmo os adoradores de Dioniso neste adorá-lo, “reatua sobre o deus, projeta-se em sua figura mítica e plástica”. (ORTEGA Y GASSET, 1978, p.86). Queremos proximidade com o divino porque se constitui esta relação, o real, em detrimento das aparências da realidade do nosso mundo dessacralizado.
            Ao longo da história, o sentimento de impotência e onipotência acompanhará o homem. A impotência, sendo uma experiência, se vai fazendo, nunca fica encerrada, se modifica, corrige, integra de tal maneira que hoje temos possibilidades que se situavam antes na esfera do impossível. A finitude do homem é indefinida: “uma limitação ilimitável ou elástica à qual não é possível marcar termos absolutos”. (ORTEGA Y GASSET, 1978, p.86). Se nos curvamos à onipotência, também não conseguimos estabelecer o limite da nossa impotência, sempre estabelecendo novas fronteiras.
            A personagem autobiográfica de Clarice Lispector, no conto “Restos de Carnaval” se indaga se o próprio rosto não se trata de uma máscara. Clareza de Clarice com perdão ao trocadilho. Fomos nos revestindo de infinitas máscaras, por força do nosso desejo de completude, para dar conta da nossa relatividade.
Dia desses, circunstâncias profissionais me colocaram diante de uma situação exemplar do que quero argumentar aqui: uma auto avaliação do meu desempenho enquanto professor. Eu deveria inserir conceitos, de várias questões postas, se estava fazendo o que deveria fazer. Em princípio fiquei perplexo, porque me é suficiente fazer o que faço e, portanto, faço. Se tivesse clareza para discernir que não estou fazendo o que deveria fazer então faria o que não estou fazendo e, sendo, assim, a auto-avaliação pareceu-me desnecessária.
Acabei por concluir, no entanto, que já absorvemos a consciência das nossas infinitas máscaras e regulamos nossas ações profissionais nesse sentido: administrando máscaras. Não necessariamente somos nós que fazemos o que fazemos. No caso, o eu-professor seria um desdobramento do meu eu. O que, por fim, acontece? Quem faz o plano de curso, entra na sala-de-aula, se relaciona com os alunos, orientandos e os colegas etc. não seria eu ou você professor, mas o teu eu-professor, que você criou. No momento da referida avaliação de ensino, dever-se-ia, pois, dar um salto metafísico é isolar este segmento do teu eu e aplicar-lhe o devido corretivo. Neste ponto do processo entra em cena a totalidade do teu eu com todo o discernimento profissional, humano e ético. 
Eu aconselho que você não seja por demais cruel com o teu eu-professor. Há casos mesmo de agressão verbal e até física. Por que vocês acham que eu estou quase sem cabelos? Eu, por exemplo, não suporto o meu eu-professor. Tenho até desprezo por ele e o abandono perdido nos corredores da UNEMAT. E fico verdadeiramente desequilibrado quando ele me segue até minha casa, com o seu discurso de autoajuda, a sua generosidade patética de fracassado. Ou quando se aproveita, num bar, por exemplo, de um aluno que eventualmente se aproxima de mim. Ele, então, não perde tempo e se instala ali, destruindo todo o lirismo possível dos meus assomos de embriaguez.
Eu não consigo, mas penso que devemos ter complacência com o nosso eu-professor e viver em harmonia com ele. Aliás, não me entendo com o meu eu-professor, porque, talvez, seja tão cínico como ele. Neste sentido, eu o avaliei, na referida avaliação de ensino, com os critérios máximos.
A sabedoria, por fim, está em constituir o teu eu-professor mais compreensível que o teu eu, por força mesmo da nossa orientação didático-pedagógica e da nossa natureza essencialmente estética.
Tenho de terminar aqui a correção de alguns trabalhos e já sinto o meu eu-professor chegando. Ele vai ter de esperar mais um instante, porque estou tomado definitivamente pelo meu eu-trágico. Meu Deus, como bem disse Mário de Andrade: quem sabe um dia eu me encontrarei comigo.
Há de se ter cuidado, por fim, com máscaras sobrepostas.

Referência

ORTEGA Y GASSET, José. A ideia do Teatro. São Paulo: Perspectiva, 1978.