segunda-feira, 30 de novembro de 2015

SOBRE O CORO TRÁGICO E A TRAGÉDIA

Este artigo foi publicado anteriormente no Jornal Tribuna de Tangará. Segue a referência abaixo:

MENDONÇA, Adriana Monteiro. Sobre o coro trágico e a tragédia. Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, p.02-02. 02 dez. 2015.

Adriana Monteiro Mendonça

A tradição ensina que a tragédia nasceu do coro trágico e que originalmente ela era somente coro e nada mais. A ideia do coro como pressentimento de uma “representação constitucional do povo”, para Nietzsche (1999, p.51-52) não passa de uma blasfêmia. Esta explicação é superada pela concepção de Schlegel. Para ele, o coro seria o extrato da multidão de espectadores, como o ‘espectador ideal’. Não há possibilidade, no entanto, segundo Nietzsche, de admitir um gênero artístico cuja forma é extraída do conceito de espectador, considerando o ‘espectador em si’, como não dá para aceitar a ideia do espectador sem espetáculo. Nietzsche, então, recupera Schiller: o coro seria como a muralha humana de proteção à tragédia para que esta decorresse íntegra, separada do mundo real, salvaguardando o seu domínio ideal e a sua liberdade poética.
O coro da tragédia primitiva requer um terreno “ideal”, acima das sendas reais do perambular dos mortais. A tragédia ficou livre de se submeter a uma retratação servil da realidade. Representa, portanto, um mundo dotado de realidade e credibilidade como o Olimpo, com seus habitantes, tinha para o povo grego crente. O consolo metafísico da tragédia “aparece com nitidez corpórea como coro sátiro, como coro de seres naturais, que vivem, por assim dizer indestrutíveis por trás de toda civilização, e que, a despeito de toda mudança de gerações e das vicissitudes da história dos povos, permanecem perenemente os mesmos”. (NIETZSCHE, 1999, p.55).
Na leitura nietzschiana, o coro de sátiros é a imagem mais verdadeira, mais real, mais completa da existência (coisa em si), em oposição ao homem culto (aparência), embora este se considere a única realidade. Tal como a tragédia mostra a evidência eterna desta essência da vida, apesar da perpétua destruição da aparência, também o coro de sátiros exprime, simbolicamente, a relação primordial da coisa em si com a aparência. A imagem do sátiro, para os gregos, era acompanhada pela visão de uma natureza ainda não maculada por forma alguma de conhecimento, ainda não lavrada por qualquer forma de cultura. Representava, pois, o sátiro, o tipo primigênio do homem, a expressão das suas emoções mais altas e mais fortes, o sonhador entusiasta que cai em êxtase na presença do deus, a voz profunda da natureza que proclama a sabedoria. O homem culto, diante dele, torna-se uma caricatura mentirosa.
Na constituição posterior da tragédia ática, o público passou a ocupar, também, o coro da orquestra. Passaram a formar um grande coro sublime de sátiros, cantando e dançando. Isto, segundo Nietzsche, permite uma interpretação mais profunda da definição de Schlegel: o coro é o “espectador ideal” porque é um vidente, isto é, vê o mundo de visões que estão em cena. O papel do coro na tragédia, portanto, constitui-se numa visão da multidão dionisíaca, da mesma forma que o mundo da cena é uma visão do coro de sátiros. A força desta visão — Schiller tinha razão — é suficiente para insensibilizar, pelo deslumbramento, as impressões externas da realidade. (NIETZSCHE, 1999, p.59).
O coro trágico emerge como um reconforto diante à incrível destrutividade da história universal e da crueldade da natureza. (NIETZSCHE, 1999, p.55). A aniquilação dos limites da existência, provocado pelo êxtase do estado dionisíaco, apresenta, enquanto dura, um elemento letárgico em que submerge toda vivência pessoal do passado. A realidade cotidiana e a dionisíaca separam-se, nesse processo, por meio de um abismo de esquecimento. O retorno da realidade cotidiana na consciência virá acompanhado de náusea que, por sua vez, desencadeará aquela disposição ascética negadora da vontade. Quando já consolação nenhuma nos pode valer, o desejo projeta-se para além do mundo, para a morte, e se desprezam os próprios deuses.
Em outras palavras, na tragédia fica exposta a falta de sentido da vida humana, sua trajetória rumo ao nada própria da sua natureza essencialmente fatalista. Tem-se, pois, a impotência da vontade perante as forças da natureza. Porém, graças à interferência do espírito apolíneo (nossa natureza estética) o sujeito depara-se de modo contemplativo com a aniquilação de sua existência e a ruína como um espetáculo que expressa seu próprio ser, mas sem comprometê-lo. Salva-o, pois, a arte, configurada na força dessa visão estética. Afirma Nietzsche: “aqui se faz agora necessário, com uma audaz arremetida, saltar para dentro de uma metafísica da arte [...] de que a existência e o mundo aparecem justificados somente como fenômeno estético.” (NIETZSCHE, 1999, p.141). O mito trágico tem precisamente por fim convencer-nos de que até o que nos parece horrível e monstruoso não é mais do que uma representação estética, com que a vontade brinca na eterna plenitude da sua alegria. Será a libertação do gosto rude de viver, suscitando outra existência, de uma alegria mais alta que não é divisada pelo herói por meio de suas vitórias, mas ele encontrará tal alegria por meio da derrota e da ruína. Para muitos de nós, não é fácil entender isto.
Nietzsche, em obras posteriores, avançará para uma autopoiesis em que a afirmação da existência em seu devir já não se faz unicamente a partir de uma transfiguração artística e, portanto, a vida já não depende necessariamente de uma justificação estética, mas pode ser criada como uma obra de arte.

Referência
NIETZSCHE, F. W. O Nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. Trad. J. Guinsburg. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

Nenhum comentário:

Postar um comentário