segunda-feira, 2 de novembro de 2015

MOMENTOS FELIZES

Rosineide Alves Machado

Uma das condições do trágico é o conflito entre os impulsos da nossa condição primordial, arquetipicamente presente em nossas vidas, e a nossa contingência por força da sociabilidade. Bem, a nossa condição primordial era baseada no espírito de coletividade, não é? Havia uma comunhão entre homem e natureza, coletividade e Deus. Perdemos isto, por que fomos, digamos assim, condenados à individualidade. Um processo inevitável. Agora, a nossa individualidade solitária bate contra a coletividade. Ora, da individualidade como saída para a sobrevivência surge a individualidade pressionada por forças arquetípicas, isto é, a nossa individualidade que anseia pelo espírito de comunidade tão confortável, que foi perdido. Agora, a comunidade nos condena ao racionalismo burguês como escape para a necessária produtividade. Temos de produzir para o sistema e fomos escravizados pelas nossas próprias criações. Bem, tomamos o fruto da árvore do conhecimento desobedecendo a Deus. Quero dizer, todas as fábulas da criação contam, de uma forma ou de outra, a mesma história que, afinal, explica a nossa condição trágica.
A forçosa individualidade que nos condena à solidão (essência do trágico), e os impulsos arquetípicos suscitados não se equilibram, ou, pelo menos, apresentam um frágil equilíbrio que pode ser abalado até por suaves modulações. De qualquer forma, a nossa existência é trágica. O conto “Amor” de Clarice Lispector é exemplar do que argumento aqui. Vamos citar somente um parágrafo:

No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.

Ana busca um equilíbrio e forças contrárias se apresentam. Ela sente e o narrador pensa no tradicional modelo narrativo de Clarice em que se seleciona a onisciência de um único personagem. Por um lado: “caminhos tortos”, “destino de mulher”, a impressão que isto tudo foi inventado como realmente foi, não é? Por outro, sua juventude anterior: “doença de vida”, “exaltação perturbada”, “felicidade insuportável”. Muito dionisíaco tudo isto. Ela tomou um lugar bem definido neste contexto, “assim ela o quisera e o escolhera” consciente de que “sem a felicidade se vivia”. Renunciando à felicidade, ela se inseria adequadamente no rebanho: “encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria”. Bem, esta opção de alegria não é felicidade, por fim. “Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto”.
“Ana” somos todos nós, na medida em que equacionamos nossas vidas, estudando felicidade e possibilidades, e aceitando a alegria possível. Significativo desse frágil equilíbrio trágico está na máxima disseminada dos “momentos felizes” já tão cantado em verso e prosa.

Bem, momentos felizes seria uma equação do conformismo? O momento apolíneo em que fazemos um recorte da força transformadora dionisíaca e nos torna a realidade suportável? Há muito que se argumentar sobre tal questão e mesmo sem clareza de uma resposta pode-se garantir que a reflexão continuará indefinidamente.

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