quinta-feira, 12 de novembro de 2015

AS CONDIÇÕES DO TRÁGICO

Este texto foi publicado também no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência:
GATTO, Dante. As condições do trágico. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, p. 7, 04 jun. 2014.

Dante Gatto

A construção do conhecimento humano, quando havia um mundo de aventuras a desbravar e transcender, foi acompanhada também da perda nostálgicas desse contato primeiro com a vida. Matéria e espírito se combinam contraditoriamente na efetivação do fenômeno humano: se, em última instância, estamos condenados ao conforto espiritual somos, no entanto, obrigados a construí-lo cerceados por contingências materiais, notadamente o corpo físico que nos encarcera. É bem fácil de entender que construímos um mundo interior a partir da absorção do mundo exterior. Devemos entender que, em princípio, não havia o medo de perder-se, porque não havia mesmo, ainda, a possibilidade da perda. Descobrimos o sentido da perda por conta da nostalgia do paraíso que a produtividade do espírito construiu. A religião nasceu de tal perda.
            A religião grega se faz exemplar desse fenômeno e Dioniso é o mais prodigioso Deus nesse sentido. Ora, festa, música, dança, o êxtase da embriaguez e a orgia mística estão no pacote do culto ao Deus esfacelado. O que se queria era o reencontro com o que havíamos perdido, o reencontro consigo mesmo e com Deus.
A razão suscitou a consciência da morte do Deus e sua destruição. O teatro trágico surgiu de tal condição, isto é, do choque da justiça mítica e a justiça racional. Foi no avanço à cidade, diga-se de passagem, acomodado à civilidade, que o culto a Dioniso renunciou às suas características mais selvagens. Argumenta Nietzsche que foi um momento significativo à criação artística este pacto entre Dioniso e Apolo (protetor das cidades), na medida da combinação de embriaguez e sonho que se processou. Supõe-se que o drama surgiu quando, talvez, o corifeu tenha assumido o lugar de Dioniso e respondido ao coro que pranteava sua morte.
            A racionalidade foi resultado da vida em coletividade, por força da sociabilidade, não é? Foi forçoso que assim fosse, costumo sempre insistir. Criamos as obrigações, mas a convivência não foi fácil e ainda continua sendo o grande desafio humano. A religião, enquanto festa, foi o escape divino, uma resposta incisiva e profunda à contradição da palavra enquanto explicação da vida. A festa representou, ao mesmo tempo, a negação do tempo histórico e a recuperação de um tempo sagrado, de convivência com Deus.
Quando o homem precisou explicar a vida, Dioniso se fez necessário enquanto restabelecimento da verdade mítica, de um tempo primordial em que a vida não carecia de explicação. Da tensão do mito com a razão nasceu o teatro trágico.
Essa busca metafísica do retorno divino, por meio das festas dionisíacas, tem na base a consciência da força do Demônio. Ao tentar explicar a vida por palavras, somos atravessados pela força criadora do individualismo e, principalmente, pelo veneno do discurso. Ora, o discurso se fez criador ao mesmo tempo em que foram se acentuando as diferenças humanas. Sustentamos, por vezes, a realidade pelo convencimento da palavra.
A presença de Deus, na consciência humana, se acomodou à aparência demoníaca, mas sob a magia do dionisíaco tornou-se a selar-se não apenas o laço de pessoa a pessoa, mas também a natureza alheada, inamistosa ou subjugada volta a celebrar a festa de reconciliação com seu filho pródigo.

Pela clara evidência dos fatos, podemos dizer que os valores burgueses fizeram da racionalidade racionalismo, sob o fetiche do dinheiro. As religiões foram se revestindo da dialética demoníaca e se desligou da arte e do mito. As festas foram dessacralizadas e morreu o lado festival da vida, exibindo apenas resquícios atávicos. O trágico sobrevive como condição ontológica do ser e realização estética. É no choque de forças contrárias que encontramos condições propícias a sua explicitação, e na ânsia do retorno à ingenuidade de Deus.

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