segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A MORTE E A MORTE EM A HORA DA ESTRELA

Rosineide Alves Machado

Impossível ficar indiferente à Estrela de Clarice Lispector. Refiro-me a personagem Macabéa do romance A Hora da Estrela. Macabéa instaura-se, enquanto personagem, numa problemática bem específica cujo resultado é a completa falta de luz. O efeito estético está em acordar em nós mesmos a falta de luz em que acabamos mergulhados pelas condições trágicas da vida. Se a personagem, por meio de um delírio, alcança “a hora da estrela”. Nós, na condição de leitores, só alcançamos essa consciência por meio da reflexão sobre a vida que a protagonista nos proporciona.
A nulidade de Macabéa suscita a nossa própria nulidade. O narrador se faz um elo dessa evidência que se efetivaria mesmo sem ele. De qualquer forma, o narrador, muito mais próximos de nós conclui, à partir dela: “eu também não faço a menor falta”. (LISPECTOR, 1988, p. 14).
            A era moderna jogou o Homem à individualidade. Acostumamo-nos à individualidade, mas ela representa uma profunda solidão, aquela solidão da perda do paraíso que conclama todas as religiões. Diríamos num arrojado desejo de síntese: o trágico nasceu da religião; a religião nasceu da solidão; a solidão, por fim, é a essência do trágico.
Macabéa, ainda, é produto de uma problemática muito particular que a tornou uma personagem, num primeiro olhar, inverossímil. Por causa disso, ela desafia o narrador e o faz deixá-la na sombra para falar de si mesmo. Por que isso ocorre? Porque tal situação, por fim, torna-se verossímil ao ponto de acordar a falta de luxo ou estrelismo do próprio narrador?
O espírito burguês (o homem do comércio, do consumo, dos juros e da prevaricação) incomoda-se diante de Macabéa, porque ela é uma negação dos seus valores que está na sua relativa concepção de prosperidade, no vencer na vida que passa pela inserção no sistema capitalista. Aos espíritos, digamos assim, não aburguesados, por falta de uma terminologia mais adequada, Macabéa aponta outros horizontes: a condição do ser.
Macabéa não brilha? Nós também não brilhamos. Quais são os horizontes de Macabéa? Olímpico? Glória, a carioca da gema? O chefe do escritório, iracundo e reacionário? Por fim, Macabéa está sozinha e consegue saída por meio de um delírio, em tecnicolor, como confessa a autora. E nós? Quais são os horizontes que nos diferem de Macabéa, por mais que encontremos elos nas nossas vidas? Estamos afundados na profunda solidão da individualidade, também, e Macabéa, como já dissemos, está nesse processo como realização estética.
Assim, o narrador diz: “essa moça não tem consciência de mim, se tivesse teria para quem rezar e seria a salvação. Mas eu tenho plena consciência dela: através dessa jovem dou o meu grito de horror à vida. À vida que tanto amo”. (LISPECTOR, 1998, p. 33).  Macabéa, por fim, nos representa exemplarmente. Se ninguém foi tão sozinho como ela, nossa solidão particular cresce, atinge completude e significação, ao contato da solidão macabeana.
A solidão é essência do trágico, explica Lukács (2009, p. 43), “pois a alma que se fez a si mesma destino pode ter irmãos nas estrelas, mas jamais parceiros”, mas a solidão é paradoxalmente dramática, porque a forma diálogo pressupõe “um alto grau de comunhão desses solitários para manter-se polifônica, verdadeiramente dialógica e dramática”, assim como a situação se efetiva no desempenho de Macabéa. “A solidão terá de tornar-se problemática e, aprofundando e complicando o problema trágico, tomar-lhe o lugar” (LUKÁCS, 2009, p. 43).
Assim, diremos que só compreendemos a saída macabeana quando conseguimos ter clareza do nosso próprio isolamento. Isolamento esse que adquirimos por meio de acontecimentos que leva o indivíduo a um estado de perplexidade e a saída, verdadeiramente epifânica, é naturalmente lírica:

Macabéa me matou.
Ela estava enfim livre de si e de nós. Não vos assusteis, morrer é um instante, passa logo, eu sei porque acabo de morrer com a moça. Desculpai-me esta morte. É que não pude evita-la, a gente aceita tudo porque já beijou a parede. Mas eis que de repente sinto o meu último esgar de revolta e uivo: o morticínio dos pombos!!! Viver é luxo.
Pronto, passou. (LISPECTOR, 1998, p. 86).

Diríamos, finalizando, que, no plano estético, Macabéa morre para dar sentido a nossas vidas perpassadas pela morte. O narrador não suja a mão de sangue ao se matar, e absorve a morte dentro de si que, por fim, lhe dá um sentido essencial à vida na sua natureza trágica.

Referências
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

LUKÁCS, Georg. A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico. 2. ed. São Paulo: Duas Cidades, 2009.

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