sábado, 21 de novembro de 2015

A ESSÊNCIA DO TRÁGICO É A SOLIDÃO

Este artigo foi publicado, anteriormente, no Jornal Tribuna de Tangará. Segue a referência abaixo:

GATTO, Dante. A essência do trágico é a solidão. Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, p.02-02. 02 dez. 2015.

Dante Gatto

O trágico nasceu da religião.
A religião, por sua vez, nasceu da solidão.
Ora, a essência do trágico é a solidão.
Mas que solidão é esta para, enfim, completarmos o silogismo?
Não é a solidão do cotidiano, das amizades desfeitas ou dos desencontros amorosos ou situação que as valham. Trata-se, a solidão do trágico, do sentimento da perda do paraíso de que tratam todas as religiões. Experimentamos do fruto da árvore do conhecimento, como está no Gênesis, e fomos entregue a nossa própria sorte. Desobedecemos a Deus e tornamos a vida por demais complexa por conta da produtividade do espírito solitário. Quero dizer, todas as fábulas da criação contam, de uma forma ou de outra, a mesma história que, afinal, tenta explicar a nossa condição trágica. Se não acreditamos nisto, também não temos outra explicação. De tal perda resultou a problemática da convivência em circunstâncias em que não mais nos entendemos, diferentemente dos tempos primordiais num universo fechado, quando ainda tínhamos um mundo a se revelar.
A nossa condição primordial, de que temos nostalgia, era baseada no espírito de coletividade em um universo fechado. Havia uma comunhão entre homem e natureza, coletividade e Deus. Perdemos isto, por que fomos, digamos assim, condenados à individualidade. Se, por um lado, isto foi um processo inevitável que não cabe discutir; agora, a nossa individualidade solitária bate contra a coletividade que também é outra, sujeita a outros paradigmas e contingências.
Ora, da individualidade como saída para a sobrevivência surge a individualidade pressionada por forças arquetípicas (manifestação do arquétipo), isto é, a nossa individualidade que anseia pelo espírito de comunidade, tão confortável, que foi perdido.
Arquétipo, cabe lembrar, é a memória ancestral, herança, imagens psíquicas que compõe o inconsciente coletivo, e se manifesta no inconsciente do indivíduo. Correspondem ao conjunto de crenças e valores comportamentais básicos do ser humano.
O que acontece é que agora, a nova comunidade, circunscrita aos parâmetros da burguesia, nos condena ao racionalismo como saída para a necessária produtividade. Temos de produzir para o sistema, para atender aos interesses dessa nova comunidade, sob pena de sermos expurgados, porque ele é dominante, e fomos escravizados pelas nossas próprias criações.
A necessidade de convivência, na contingência da individualidade, implicou na hegemonia da palavra. Como sabemos, foi no momento que a palavra se fez necessária enquanto explicação da vida que surgiu a expressão artística mais incisiva do trágico, a tragédia.
Mesmo Platão estabeleceu três funções para a palavra: remédio, veneno e cosmético. De qualquer forma, ela exibe sua condição trágica, mas enquanto veneno ela se torna expressão do homem atirado em um mundo demoníaco. Todos já tivemos convivência com a palavra venenosa erigindo valores, não é verdade? Quer seja do advogado esperto, do político malandro ou do amigo próximo etc. E nesse momento nos perguntamos: “o que fizemos da vida?” e a situação trágica se torna mais trágica ainda porque só dispomos do recurso da mesma palavra ou do silêncio que, no caso, paradoxalmente, se tona a mais clara expressão da verdade.
Em princípio, entendemos que a palavra surgiu como mediadora da razão. Começou lá na Grécia antiga com o surgimento da cidadania e da democracia, mas sob os valores burgueses a palavra se voltou aos interesses do capital, do lucro (racionalismo) e a situação se tornou mais trágica. Está nesta venenosidade da palavra burguesa, por vezes, a negação do ser (vida, essência) em função do ter (superficialidade, aparência) e isto só agudiza a nossa solidão.

3 comentários:

  1. ESTE TEXTO MUITO ME AJUDOU NAS ULTIMAS AULAS E NO TEXTO MONOGRÁFICO QUE FIZ SOBRE A PRESENÇA DO TRÁGICO EM JOSÉ DE MESQUITA, NO CONTO "FORTUNATO OU O FORÇOSO DA FELICIDADE". MUITO BOM DOUTOR!

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  2. ESTE TEXTO MUITO ME AJUDOU NAS ULTIMAS AULAS E NO TEXTO MONOGRÁFICO QUE FIZ SOBRE A PRESENÇA DO TRÁGICO EM JOSÉ DE MESQUITA, NO CONTO "FORTUNATO OU O FORÇOSO DA FELICIDADE". MUITO BOM DOUTOR!

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