sexta-feira, 16 de outubro de 2015

DO DITIRAMBO À TRAGÉDIA EM POUCAS PALAVRAS

Rosineide Alves Machado

Aristóteles foi o primeiro a tentar elucidar a gênese da tragédia. Na Poética, ele condena a argumentação dórica (tribo dos antigos gregos) de que na Ática, o conceito de “fazer” se expressava pelo verbo práttein, enquanto os dórios preferiam o verbo drân, (drama). Pretendiam eles, portanto, argumenta Aristóteles, descobrir um indício por meio de palavras.

A tragédia teria nascido, segundo os dórios, na região do Peloponeso. Tal afirmação é interpretada como alusão a cidade de Sicione (nordeste de Corinto), longe de Esparta e bem próxima de Atenas. Há um trecho de Heródoto referente à substituição do culto do herói argivo Adrasto em benefício de Dioniso e do herói tebano Melanipo. Clistenes (600–565 a.C.), tirano de Sicione, lutando contra Argos, tentou suprimir o prestígio da cidade inimiga, tendo em vista que Adrasto era de origem argiva. O culto lhe foi proibido, apesar da oposição do Oráculo de Delfos. Celebravam o herói Adastro por meio de coros trágicos que foram atribuídos a Dioniso, enquanto os sacrifícios ficaram reservados a Melanipo.

A expressão coros trágicos que, aliás, é de Herodoto atraiu a atenção dos estudiosos da origem da tragédia grega: entre muitas hipóteses, seriam conjuntos corais de elementos disfarçados no todo e em parte em trágoi, bodes, ou pela expressão coros trágicos o historiador queria dizer apenas coros, semelhantes aos empregados nas representações trágicas de seu tempo, em pleno século V a.C?

O que é essencial disto tudo, no entanto, conforme Lesky (apud BRANDÃO, 1980, p.31-32), foi a política religiosa dos tiranos gregos que nos permite compreender como a tragédia dionisíaca se fundiu com o tesouro dos mitos heroicos do povo grego e nele encontrou seu verdadeiro conteúdo.

Apesar de que os significantes da tragédia são dionisíacos (a festa, a indumentária etc.), o conteúdo do drama trágico, o significado, aponta outra direção. Em comparação a outros ciclos de mitos, os mitos dionisíacos são reduzidos, de tal forma que a tragédia em gestação não encontraria material suficiente. Com Dioniso encontramos, sim, uma das forças vitais “do desenvolvimento do drama trágico como obra de arte, mas, quanto ao conteúdo, a tragédia foi configurada por um outro campo da cultura grega, pelo mito dos heróis”. (BRANDÃO, 1980, p.33). Dioniso nunca deixou o seu lugar. Pode-se afirmar que, quanto mais trágica é uma tragédia, mas dionisíaca ela representa.

A contradição aparente entre a tragédia como parte do culto dionisíaco e seu conteúdo não dionisíaco foi identificada já pelos antigos. No entanto, se a tragédia parece não ter nada a ver com Dioniso, no passado teve. “Para qualquer estudo da origem da tragédia tem-se obrigatoriamente que partir de Dioniso e seus Sátiros, de seu êxtase e entusiasmo, sem o que não existe tragédia”. (BRANDÃO, 1980, p.33). O elemento básico da religião dionisíaca, segundo Lesky (apud BRANDÃO, 1980, p. 34), é a transformação: “o homem arrebatado pelo Deus, transportado para o seu reino por meio do êxtase, é diferente do que era no mundo quotidiano. Mas a transformação é aquilo de onde, e somente daí, pode surgir a arte dramática”.

Há mais comentários a se fazer das pretensões dóricas à origem da tragédia. Aríon de Metimna, segundo Heródoto, chegou a corte de Piriandro (583-543 a.C.) em Corinto, e ali foi o primeiro a compor, denominar e ensinar o Ditirambo. Na Suda (enciclopédia, composta no século X), está que ele foi o inventor do estilo trágico, o primeiro a organizar um coro e fazê-lo cantar um ditirambo, a denominar o que o coro cantava e a introduzir sátiros que falavam em versos.


Brandão (1980) afirma que Aríon não foi realmente o inventor do ditirambo, uma vez que, historicamente, já existia como um canto cultural dionisíaco. Da mesma forma, não foi Adrasto substituído por Dioniso: o deus do vinho recebeu de volta que a muito lhe pertencia. Aríon somente foi um inovador. O ditirambo ira reunir elementos originalmente dispersos (de um lado pelo lirismo: o coro, a poesia e a dança mimada; de outro, pela religião) dando inicio ao teatro. É desconhecida a etimologia da palavra. Ditirambo é um canto apaixonado, ora entusiasta e alegre, e não raro melódico e sombrio, bem de acordo com a natureza do deus do êxtase e do entusiasmo.

Referência

BRANDÃO, Junito de Souza. Teatro Grego: origem e evolução. Rio de Janeiro: Tarifa aduaneira do Brasil, 1980. 

4 comentários: