segunda-feira, 19 de outubro de 2015

AS SEIS FASES DA TRAGÉDIA

Clairton José Weber

Frye classifica a tragédia em seis fases que são resumidamente estas: na primeira o personagem central (protagonista) recebe a maior dignidade possível. A segunda fase corresponde à juventude do herói romanesco “[...] a tragédia da inocência, no sentido de que não é experiente, envolvendo em regra pessoas jovens.” (FRYE, 1973, p. 216). Para exemplificar, Frye cita inúmeras obras, das quais vamos reproduzir aqui apenas uma: “Romeu e Julieta”. Contudo, aproveitamos o ensejo para inserir nesse contexto o conto “Meninão do Caixote”, de João Antônio. “Em muitas tragédias desse tipo a personagem central sobrevive, de modo que a ação termina com algum ajustamento a uma experiência nova e mais madura.” (FRYE, 1973, p. 216). A terceira fase corresponde ao tema da procura. Nesta, explica Frye a ênfase é posta no sucesso ou realização da façanha do herói. A quarta fase é a queda típica do herói por causa da hamartía, ou falha aristotélica. Na quinta fase o elemento irônico aumenta, o heróico diminui e as personagens tem menor perspectiva “[...] a sensação de vida sob a lei está presente em toda parte [...]” (FRYE, 1973, p.218) e acrescenta:

A ação trágica da quinta fase apresenta na maior parte a tragédia do rumo perdido e da falta de conhecimento, não diferentemente da segunda fase, a não ser em que o contexto é o mundo da experiência adulta. Édipo Rei enquadra-se aqui, e todas as tragédias e episódios trágicos que sugerem a projeção existencial do fatalismo, e, como boa parte do Livro de Jó, parecem suscitar questões metafísicas ou teológicas, em vez de sociais ou morais. (FRYE, 1973, p. 218)

            E a sexta e última fase, pela classificação de Northrop Frye é a fase do choque e do horror em que as imagens centrais são o canibalismo, mutilação e tortura. “Qualquer tragédia pode ter uma ou mais cenas chocantes, mas a tragédia da sexta fase choca em globo, em seu efeito total”. (FRYE, 1973, p. 218).
Erich Auerbach (2004), no capítulo “A Ceia Interrompida” onde descreve as atividades literárias desenvolvidas na corte francesa onde reinava o soberano Luiz XIV, especialmente do Duque Louis de Saint-Simon (apresentado como memorialista) observa que a literatura caminhava a passos largos para uma transformação jamais imaginada, onde os caracteres humanos alcançariam um nível de representação tamanho que não mais seria necessário a figura do herói clássico, representativo e de feições sobre-humanas utilizada até então.

No que se refere ao nível estilístico, a mentalidade que domina os escritos iluministas já inclui um rebaixamento da posição do homem, ainda que não seja tão insolentemente mordaz quanto a de Voltaire; o enaltecimento trágico do herói clássico desaparece desde o começo do século XVIII, a própria tragédia torna-se, com Voltaire, mais colorida e espirituosa, perde em gravidade; por outro lado, florescem os gêneros poéticos médios, assim como o romance e a narração em verso, e entre a tragédia e a comédia, introduz-se o gênero médio da Comédie larmoyante. [Comédia chorosa] A tendência da época não se dirige para o sublime, mas para o gracioso, elegante, espirituoso, sentimental, racional e útil, tudo o que pertence ao nível médio. (2004, p. 367).

            À luz da composição de Eurípedes (último dos três grandes trágicos), examinados por Frye, uma definição mais apropriada para as situações em que nos deparamos nos dias atuais. Na composição euripidiana, segundo Frye, apareciam os primeiros sinais do caminho que viria a ser percorrido do trágico ao dramático “[...] a representação da alma humana a mover-se nas vicissitudes dos acontecimentos.” (2010, p. 246). No drama de “Ifigênia”, Eurípedes valoriza a mais a decisão da heroína em submeter-se aos desígnios do que o sacrifício em si e nota que num curto espaço de tempo houve uma importante transformação da personagem. “Com esse conceito de transformação, que aqui forma por uma vez o tema central, Eurípedes preparou o drama moderno, na mesma medida em que afrouxou o conceito clássico de physis. (2010, p. 263).
            Postas deste modo, em sequência, as fases da “tragédia”, melhor dizendo, da representação trágica ao longo dos séculos de produção cultural, oferecem uma nova perspectiva de análise estética. Reforçam o que estamos indicando já de longa data, que o trágico é o centro estético de um sem número de narrativas. Mais evidente quando vinha a público no drama encenado, sutil nas narrativas que seguiram e, nos dias atuais, aos olhos de um observador atento, será encontrado até mesmo nas produções audiovisuais.

Referências

AUERBACH, Erich. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 2004.

FRYE, Northrop. Anatomia da crítica. Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Cultrix, 1973.

4 comentários:

  1. ESSE TIPO DE MATERIAL É IMPORTANTÍSSIMO PARA OS AMANTES DO TRAGICO

    ResponderExcluir
  2. ESSE TIPO DE MATERIAL É IMPORTANTÍSSIMO PARA OS AMANTES DO TRAGICO

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, destaco esta afirmação: "amantes do trágico". Isto pode parecer um paradoxo para aqueles que entendem a felicidade como facilidade ou não compreendem a vida em sua inteireza.

      Excluir