segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A QUESTÃO DO MONOTEÍSMO COMO PRODUTO DO INDIVIDUALISMO

Dante Gatto

               Por que substituímos uma perspectiva politeísta pelo monoteísmo? Acredito que na base do fenômeno está a imergência do individualismo. Não optamos pelo individualismo, mas fomos reduzidos a tal saída.
          A palavra alcançou força, e isto se deu ao mesmo tempo do surgimento da democracia e da cidadania na Grécia antiga, porque a explicação das coisas perdeu a obviedade. Fez-se necessário inventar a verdade, e a palavra é instrumento privilegiado nesse sentido. A verdade se tornou relativa como a própria palavra também o é.
          O mundo se tornou infinitamente complexo e a necessidade de conviver levou os homens a tentarem o entendimento por meio da participação de todos (democracia e cidadania). É claro que estamos falando dos gregos, de uma sociedade aristocrática e excludente, mas o entendimento que ambiciona a democracia é porque as pessoas já não se entendem mais, como faziam com a clareza do mito. Ora, era preciso o entendimento. A concessão às perspectivas do outro se fazia necessária dentro de uma perspectiva de produtividade que, sabemos, a burguesia levou ao paroxismo.
          Pois bem, a democracia era necessária para que todos se entendessem e a cidadania serviu para que todos participassem. A participação, desde sempre, foi forte motivadora da produtividade, não é?
          A visão de mundo politeísta, inerente ao mito, implicava uma apreensão espontânea, numa relação direta com a vida. O homem ainda não precisava explicar a vida que valia por si mesma. Era o universo fechado da epopeia. No tempo da tragédia já a vida precisava de explicação, a verdade mítica já não cabia no horizonte do cidadão que carecia de se justificar para ser aceito. Assim, os deuses foram reduzidos ao Deus único, que instaurou leis que deviam ser seguidas para controlar os impulsos que não se fizessem produtivos. A lei mosaica e exemplar nesse sentido.
          Em outras palavras, a verdade óbvia do mito no mundo fechado da coletividade foi substituída pela palavra que passou a instaurar a verdade, enquanto explicação da complexidade do mundo da individualidade. Se já não podíamos nos entender espontaneamente era preciso construir regras, por meio das palavras, que deveriam ser aceitas para tentar forjar a unidade perdida. A palavra que não se fazia necessária na realidade mítica, tornou-se a única saída da realidade do individualismo, mas por vezes funciona com um poderoso veneno, construindo verdade, aprisionada por interesses mesquinhos, anulando a vida, configurando nossa realidade essencialmente trágica. A força da individualidade está nesse processo, bem como o Deus único, expressão mítica da mesma individualidade, funciona com uma tentativa unificadora de todos os homens.
          Ora, o mito unificava todos os homens, em um universo fechado, apesar da multiplicidade de deuses. A complexidade do mundo anulou tal unificação que é necessária pela nossa contingência de animais gregários. O que fizemos para tentar manter a unidade do rebanho? Criamos regras suscitadas pela força mítica do Deus único. Acreditamos em Deus enquanto força da nossa necessidade mítica e seguimos às regras que, por fim, são fundamentais ao nosso conviver.

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