segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A MEDIDA DO TRÁGICO EM JOSÉ DE MESQUITA

Luzia de Oliveira

Estudos fundamentados na teoria do trágico na pós-modernidade são pertinentes, também, porque podem aclarar perspectivas anunciadas na modernidade como defendemos que é o caso de José de Mesquita.
Na modernidade, o que se entendia por mundo melhor era outro mundo, o do futuro. A pós-modernidade, no entanto, destituiu o futuro em favor do presente. Perdemos, historicamente, a perspectiva de futuro. Sintoma disto foi a queda do muro de Berlim, o fim da guerra fria e arrefecimento da luta de classes. Padecemos agora, por assim dizer, de um capitalismo permanente. O cotidiano alcançou lugar de verdadeiro princípio da realidade e a falta de futuro nos condena a um presente eterno.
Se houve um tempo de exclusão das minorias, agora, não obstante ainda permaneçam as tentativas de exclusão todos tomam lugar à luz, dionisiacamente. Já não são simplesmente marginais, mas contaminam aos poucos o conjunto das práticas pós-modernas. Este tempo nosso, presenteísta, é trágico como a religião dionisíaca dos antigos gregos, na medida em que promovem, de uma certa forma, a exclusão da realidade em favor do momento. Para se entender isto, na verdade, temos que saber das práticas religiosas dos gregos.
O momento, hoje, ganhou em plenitude. As próprias relações humanas são marcadas mais pelo momento do que pelo futuro, e fica-se simplesmente. O tempo de produtividade saiu das garras do trabalho na esfera do capitalismo, para dar lugar às realizações pessoais. A circunferência da juventude tem agora um diâmetro muito maior. Ser jovem, aliás, é um novo imperativo categórico que atinge a todos. Na modernidade, o homem adulto e realizado era o modelo a ser seguido, na pós-modernidade, e isto é muito importante às nossas reflexões, nasce o mito do jovem eterno.
Um conto de José de Mesquita, presente no livro A Cavalhada se faz significativo como exemplo do que queremos argumentar aqui. Trata-se de “O último dia da mocidade”. Gontran, o protagonista, viveu um conflito trágico na medida em que ele se sentia velho e sem perspectiva. Isto ocorreu, evidentemente, por conta dos paradigmas da modernidade. Ora, certamente Gontran diria hoje, se estivesse no mesmo impasse que constituiu o núcleo de ação dramática do conto: sempre é tempo de viver, porque a vida que se tem não é o futuro, mas o presente.
O trágico, como sabemos, na leitura nietzschiana, se revela no viver com intensidade. Um sim a vida, apesar de todos os problemas que não devem ser escamoteados, mas absorvidos com alegria, até dos sacrifícios, porque são reveladores da vida na sua inteireza.
Sim, o trágico se revela em grande medida no conto, no caso, por conta da negação da vida. Bem claro, negação da vida na modernidade que era apoiada no futuro. Gontran viveu sempre o presente, intensamente, e se hoje ele se entenderia com a nossa realidade presenteísta, no começo do século XX ele se viu profundamente desenraizado, isto é, sozinho. Cabe lembrar que a crise que o tomou surgiu exatamente pela morte de um amigo, alma gêmea, com que partilhava ideias incomuns. Ficou sozinho.
Pensamos o trágico, como já anunciamos, com suporte no pensamento de Nietzsche, o filósofo do anticristo, por meio de um conto do declaradamente católico José de Mesquita, cuja religião tinha prioridade à estética literária como ele mesmo sempre confessou. Seria plausível que Mesquita se pautasse por temas cristãos que estão mais próximos à perspectiva aristotélica. Para Aristóteles, a tragédia, inspirando pena e temor, opera a catarse própria dessas emoções. No entanto, para Nietzsche, para aclarar o mito trágico, deve-se procurar o prazer a ele peculiar na esfera esteticamente pura, sem qualquer intrusão no terreno da compaixão, do medo, do moralmente sublime. E é isto que Mesquita acaba fazendo, aproximando-se mais de Nietzsche do que de Aristóteles. Não há remissão para Gontran, não há compensação, ele caiu no vazio como os heróis das tragédias gregas. Uma tragédia cristã caberia compensação, como aconteceu com Jesus que foi reinar à direita do pai, ou Jó que recebeu setuplicado o que já tinha por conta do sofrimento como prova de fé.
Começamos uma reflexão.

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