domingo, 6 de setembro de 2015

O SUBLIME

Este artigo foi também publicado no Jornal Tribuna de Tangará. Segue referência abaixo:

GATTO, Dante. O Sublime. Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, 09 set. 2015. p.02-02.

Dante Gatto

Diante do destino inexorável do homem (“coisa que a história apresenta abundantemente e que a arte trágica, imitando, põe diante de nossos olhos”[SCHILLER, 1964. p.62]) há uma saída, identifica Schiller (1964, p.61), que está em “descorporificar-se moralmente”, isto é, conforme Anatol Rosenfeld explica: “renunciar, graças a uma livre opção moral, aos interesses vitais, de modo que se torne possível aceitar os males impostos pela natureza.” (SCHILLER, 1964. p.61).
Conforme Kant, uma unidade e coerência superiores não são encontráveis no mundo dos fenômenos (mundo imanente), mas somente mundo inteligível-transcendente. Toda natureza age racionalmente, mas só o homem o faz cônscia e voluntariamente. O homem é essencialmente o ser que quer. Nas outras formas de vida reside a obrigação. Impedir o querer humano é uma violência e o homem está cercado de infinitas forças, superiores, que se impõe a sua vontade. “A cultura deve libertar o homem, ajudando-o a preencher inteiramente o que ele é como conceito” (SCHILLER, 1964. p.45), tornando-o apto a manter a sua vontade. Chega-se a isto realisticamente ou idealisticamente. No primeiro caso, em relação ao meio físico, o domínio da natureza pelo homem vai até certo ponto, um limite, no qual a natureza passa a subjugá-lo; no segundo caso, o homem afasta-se da natureza. Se estivesse ele envolvido somente na cultura do mundo físico teria sido vencido em seu ideal de liberdade, mas há essa outra saída: não podendo submeter sua vontade à violência só lhe resta anular toda uma situação prejudicial, e destruir conceitualmente a violência que teria de sofrer. Eside nisto uma submissão voluntária a ela, uma concordância, e muito de divórcio do querer. A liberdade, assim vista, argumenta Schiller (1964, p.47) é prerrogativa do homem de formação moral. É o que ele chama de cultura moral.
O sentimento do belo e do sublime vão acompanhados da liberdade, uma vez que “perdem toda a influência sobre a legislação da razão” (SCHILLER, 1964, p.49). É o espírito que atua aqui, e o faz fiel as suas próprias leis. A nossa independência moral, aliás, fica provada nesta combinação de duas sensações contrárias, num só e único sentimento. Sendo impossível ao objeto exibir diante de nós duas relações opostas, nós, em face dele, é que estabelecemos a oposição. Disto resulta que deve haver em nós o interesse no objeto de maneira diametralmente antagônica. Podemos concluir, pois, que o estado do nosso espírito não se forma pelo estado dos sentidos, não necessariamente, assim como as leis da natureza não são as nossas: trazemos em nós um princípio autônomo que independe de todas as emoções sensíveis. (SCHILLER, 1964, p.50). 
No sublime, sensibilidade e razão não se harmonizam. A magia está justamente nesta contradição. O homem físico e o moral são separados, pois, justamente com relação a tais objetos é que, onde o primeiro só sente as suas limitações, o outro faz a experiência de sua força e sente-se infinitamente elevado precisamente por aquilo que esmaga o outro contra o solo. (SCHILLER, 1964, p.50). 
O sublime está em uma “faculdade moral absoluta” (SCHILLER, 1964, p.50), um encanto indescritível e peculiar que nenhum prazer dos sentidos, por mais nobre que seja, consegue disputar. O sensível-infinito nasce do emprego de todas as forças dessa faculdade. Caso o indivíduo sucumba nessa tentativa sentirá, no entanto, a superioridade de suas ideias sobre o supremo que poderia alcançar com as faculdades sensíveis. A visão de alturas intermináveis e ilimitadas distâncias arrancam o seu espírito da estreita esfera da realidade e ao opressivo cativeiro da vida física.
Ainda que o dever nunca entrasse em contradição com os impulsos, situação bastante improvável, a necessidade natural, por vezes, impõe condições ao homem que nem sua força e habilidade podem pô-lo a salvo da fatalidade. “Feliz dele, pois, se aprendeu a suportar o que não pode modificar e a abandonar com dignidade o que não pode salvar!” (SCHILLER, 1964. p.61). Afinal, depois de renovado – tornado familiar – este ato de auto-atividade, será o homem capaz de tratar uma desgraça real como sendo artificial – supremo alvo da natureza humana – dissolver o sofrimento verdadeiro numa emoção sublime.

Referência

SCHILLER, F. Teoria da tragédia. São Paulo: Herder, 1964.

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