domingo, 13 de setembro de 2015

O DRAMA E OS ATORES, ILUSÃO E REALIDADE

Este artigo foi também publicado no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência:

MACHADO, Rosineide Alves. O drama e os atores, ilusão e realidade. Tribuna de Tangará, 16 set. 2015. p.02-02.



Rosineide Alves Machado

Se compararmos às outras artes miméticas, o teatro (um texto dramático transformado em espetáculo) contém um percentual muito mais alto de realidade. É um dos elementos mais fascinantes do drama: a fusão do totalmente imaginário com elementos da realidade viva dos atores.
Quando se trata do estudo acadêmico do drama, a atenção fica na análise: o texto, a peça como literatura. No entanto, o espetáculo, a iluminação, o magnetismo dos atores desempenham, também, papel decisivo na atração do público pelo teatro (ou ao cinema ou a apresentação televisada). Resumindo, o que faz cada espetáculo uma obra de arte inteiramente diferente é a fusão de um elemento fixo (o texto) com um elemento fluido (os atores).
O que defendemos aqui é que o ator é a pedra de toque de todo drama.
Nem tudo no teatro é ilusão provocada pelo texto, como é o mais comum de se ouvir. Sob esse aspecto, o teatro se aproxima bastante de outra área na qual o instinto lúdico do homem se manifesta em grande medida, o esporte, na medida do enfoque ao real, ao ator.
O balé, que não usa texto de espécie alguma, ou a Comedia dell'Arte da Renascença italiana, cujo texto era alterado durante o espetáculo, ou, ainda, o cinema mudo, são tipos de drama quase sem conteúdo literário. Portanto, é possível existir drama sem texto. É, portanto, no ator que os elementos da realidade e da ilusão se encontram. Existe uma tensão criativa entre o personagem fictício imaginado pelo dramaturgo e o homem real que empresta a essa ficção nascida da imaginação do autor sua sólida realidade física. Existe uma poesia no teatro, tanto quanta uma poesia do teatro. Poesia no teatro é a linguagem poética criada pelo dramaturgo, mas muito da poesia do teatro nasce de um olhar, uma entrada, uma pausa. E estes são, na maioria dos casos, criações dos atores ou dos diretores.
            A possibilidade da montagem, no teatro comercial, seu sucesso, sem dúvida, passa pela escolha dos atores. Atores famosos asseguram o lucro ao investimento. Muitos desses atores famosos tornam-se exibidores de si mesmos, reduzem o elemento ficção ao mínimo, não se preocupam com o personagem imaginado pelo dramaturgo, mas a realidade do seu magnetismo. Não é uma degradação da arte teatral, “eu a considero com uma triunfal afirmação de uma das mais permanentes forças do teatro”. (ESSLIN, 1977, p.99).
Há um delicado equilíbrio entra a ilusão e a realidade e está nisto a mágica do teatro. O prazer do drama implica sentir simultaneamente em dois níveis: ao assistir Otelo, por exemplo, ficamos comovidos pelos infortúnios do herói, porém no próprio momento de tal comoção, “estamos também, quase esquizofrenicamente, dizendo-nos a nos mesmos: ‘Como foi brilhante o modo pelo qual Olivier sustentou aquela pausa! Com que beleza ele conseguiu atingir aquele efeito pelo mero levantar de uma sobrancelha!’” (ESSLIN, 1977, p.100).
A consciência da tensão ilusão e realidade é terreno explorado pelos dramaturgos no drama moderno. Exemplo é Pirandello com Seis personagens em busca de um autor, chegando a mostrar os atores como indivíduos em sua vida particular, reunindo-se para um ensaio e, posteriormente, os personagens tal como eles foram concebidos pelo autor e, finalmente, esses personagens sendo interpretados por aqueles atores. Para Brecht, também, a plateia não deveria ser iludida do caráter ficcional da montagem.
O teatro de vanguarda, do qual talvez o melhor exemplo seja o grupo americano The Living Theatre (os atores provocavam brigas na plateia e eles mesmos brigam com os espectadores), dá lugar a questionamentos muito profundos, na medida em que boa parte de nossa vida fora do teatro é igualmente artificial. Somos personagens de nós mesmos. Shakespeare, inclusive, comparou o mundo ao palco e todos os homens e mulheres apenas atores. A própria natureza da realidade e em si problemática uma vez que somos capazes de perceber a realidade apenas por intermédio de nossos sentidos imperfeitos, o que percebemos pode ser uma ilusão. O teatro, por fim, apenas acrescenta mais uma dimensão de ilusão a essa teia de ilusões que chamamos de realidade, é uma imagem perfeita de nossa situação neste mundo como seres humanos.

Referência
ESSLIN, Martin. Uma anatomia do drama. Tradução de Barbara Heliodora. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1977. 

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