segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A POÉTICA DO TRANSTORNO BIPOLAR

            Dante Gatto

            Sempre quis escrever um livro, mas tudo que tenho a dizer, e tenho muito a dizer, me parece bastante fluido e transitório que ao fim me sentiria mal, enclausurada num volume, porque aquilo que lá estaria não teria mais a substância do que sou.
       A essência do fenômeno é que me transformo tão rapidamente a ponto de assustar a mim própria, a ponto de me pegar sorrindo sozinha pelo que descobri de mim, ou chorando. Ironia coruscante. Nem tudo de mim me é cabível dizer e se disser que seja por meio da virtualidade que pode se dissolver tão rapidamente quanto se instalou.
Quando me visto tento ratificar uma imagem coerente a uma leitura semiótica. Tento deixar alguma coisa por meio da imagem exterior e isto é mais uma preocupação comigo mesma do que pelo outro, apesar de que exteriormente estou sendo vista pelo mundo. Ora, o mundo não me pode compreender, minhas contradições interiores, mas ao tentar fixar uma imagem exterior parece que escamoteio minha perplexidade interior e isto me dá um certo conforto.
     Penso que o âmago da questão da minha relação com a exterioridade (na construção da interioridade) é que não pude ser absorvida dentro dos paradigmas das relações humanas. Penso até que se não foi completamente expurgada do convívio dos vivos foi porque me fiz de morta. Não é sem razão, portanto, que me visto de preto. Assusta-me dizer, mas trata-se de luto e luto por mim mesma. Desprezo mesmo a vida dentro das limitações em que ela se apresenta na cotidianidade em que estamos inseridos. Todos os modelos de sucesso que construímos são amplamente espúrios. É isto. Mas se eu saísse gritando a minha loucura transgressora me depositariam num sanatório o que me seria muito desconfortável. Sendo assim, eu me calo, me escondo, me anestesio com os paliativos da arte e me apresento aos olhos dos viventes de preto.
         Por longo tempo ignorei ou desprezei as manifestações de amor em torno de mim. Como querem me amar se não podem me conhecer, me compreender. Amor implica ampla compreensão. Se não me podem compreender não me venham falar de amor, porque a piedade não é substantivo que se alinhe com amor. Horrível para um espírito forte acomodar-se à piedade para sustentar as relações de convívio. Mas, ao optar pela solidão, encontrei almas, não necessariamente solitárias, que entendem meu desprezo pelas relações sustentadas pela pena, e descobri uma forma de amor. Ora, amo os que, como eu, compreendem as condições de amor e me dedico a tal amorosa comunhão.
         Há de se considerar ainda que mesmo a não compreensão é perdoável em determinadas incondicionalidades. O que eu quero dizer, por exemplo, que uma mãe pode não compreender um filho, mas não consegue não amá-lo e não investir nele. Pai e mãe me foram levados muito cedo, antes mesmo que eu assentisse-lhes os sentimentos, mas tive experiências de compreensão que me fizeram por vezes me sentir amada.
            O cerne dos meus escritos repousa no antagonismo interior que, digamos assim, de certa forma me anula para a exterioridade. Talvez a melhor configuração do fenômeno estaria no mito de Sísifo, a ver rolar montanha abaixo o fruto do seu esforço. E me pergunto o que terei feito aos deuses. Mas não me vejo, infelizmente, presa a uma rebeldia prometeica que pudesse me trazer algum consolo.
          E se minha rebeldia um dia foi combinação de iconoclastia autodestrutiva, e foi só isto, hoje a segunda condição anula a primeira num sentido doloroso de salvação que me põe aqui a escrever. E sigo de preto; tenho poucos, raros amigos; tento me livrar do cigarro para ser mais livre; procuro caminhos solitários nas inevitáveis investidas em me inserir na vida e um dia, acredito, haverei de me encontrar comigo e por sentido nas coisas, interpretá-las com a clareza possível da felicidade almejada.

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