quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A POÉTICA DO TRANSTORNO BIPOLAR II

Este artigo foi publicado anteriormente no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência:

GATTO, Dante. A poética do transtorno bipolar II. Tribuna de Tangará, 05 ago, 2015. p.02-02.

Dante Gatto

Houve um fenômeno de despersonalização no começo do século XX, diante do processo alucinante de transformações operadas na realidade: a grande guerra, a revolução russa, a crise liberal que teve como ponto culminante o crach da bolsa de Nova York. O processo, alias, é cíclico e dialético: antes, as revoluções burguesas do século XVIII e antes ainda o Renascimento, primeiro grande momento da individuaidade. Um descaminho inevitável, cujos resultados são imprevisíveis. A tentativa de abarcar o fenômeno, poeticamente, no século XX, resultou, notadamente, nos heterônimos de Fernando Pessoa. A coisa veio se construindo por meio do surgimento do enredo amplamente psicológico, o anti-herói protagonista e os finais em aberto. A civilização só poderia ser absorvida com um inevitável mal-estar como Freud identificou. Mas a coisa não parou aí. A pós-modernidade rompeu o processo dialético suprimindo qualquer possibilidade de síntese. O núcleo de ação dramática se constitui, agora, na tensão e qualquer realização possível fica em, digamos assim, administrar as contradições. Perdemos a perspectiva de futuro e deslizamos num eterno presente.
Mas voltemos ao lirismo de Fernando Pessoa. Enquanto necessidade de conquistar a realidade fazia-se necessário abarcar múltiplas experiências. Um que se fazia vários, mas, eis a questão, exibia inteireza na sua individualidade.
Inteireza da individualidade. Desde muito cedo soube que era o que me faltava, mas tive a verdadeira clarificação quando li Mário de Sá Carneiro:

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

Pois é, “pilar da ponte do tédio”! A possível síntese efetivava-se de um para o outro. Não estou querendo particularizar a condição de precursor ao poeta, da pós-modernidade, mas afirmar uma possível harmonia na sua condição existencial. E pode-se inferir que o tédio o tenha matado, pelas suas próprias mãos, tão precocemente.
O fato é que ele se sabia entre o eu e o outro. Eu, bipolar, vivo o brutal antagonismo do eu e do outro dentro de mim. Sim, o outro é o meu oposto à medida que reivindica os meus prazeres, de todas as ordens, e se não chega a destruir a fonte me afasta dela, sujando-a com sua leviandade, sua torpeza, sua fome de aniquilação. Resta-me sempre o momento fugidio de felicidade em que rio para dentro, insipidamente, porque sei que me será tirada bruscamente.
Quando ele se insinua já não há mais como lutar. Queria diferenciá-lo de mim. Mas me é impossível. Não me entrego, mas sinto o aprisionamento e, eis o trágico momento: o desvario dele se torna meu. Estou presa dentro de mim e o ódio do aprisionamento me faz o outro. E seu beijo me queima a alma e me sangra os lábios.
Eu sou o outro e não me conformo.
Como quisera conviver comigo a ponto de que ele não me ferisse. Caminharíamos juntos então. Eu não seria privada da minha própria companhia.
Quando caio extenuada, e choro até me faltarem as forças, ele me concede uma esperança. É assim que vivemos. Ele não me permite tentar entende-lo, como, talvez, Fernando Pessoa tenha tentado e não me permite, também, um intermédio como foi o caso de Sá Carneiro, e eu vivo como um aforismo de Nietzsche que se perde no vazio da noite em que me escondo.  

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