sábado, 22 de agosto de 2015

A BONDADE DE DEUS

Dante Gatto

O paradigma da bondade é indiscutível para os cristãos. Ser cristão (pequenos cristos) é acreditar que Jesus Cristo é o único e suficiente salvador do mundo. Por meio do sangue de Deus, encarnado na pessoa de Jesus Cristo, que o véu da separação foi rompido e hoje temos livre acesso ao Pai. Por isso não precisamos recorrer a nenhum outro recurso, diferentemente das demais correntes religiosas, para sermos ouvidos, abençoados, orientados e agraciados. É por meio desse sangue que o ser humano pode ser lavado e purificado de todos os seus pecados e levado ao céu. Sem essa fé é impossível agradar a Deus. Porque a salvação não é pelas obras, para que ninguém se glorie, mas é pela graça, pela fé e pelo sacrifício vivo (sangue remido) do Senhor Deus de Israel.  Claro que quem acredita verdadeiramente em Jesus Cristo e o reconhece como Deus, produzirá frutos de amor, paz, alegria, mansidão, domínio próprio... Mas caso alguém cometa algum erro e se arrepender verdadeiramente, o sangue de Jesus Cristo é capaz de purificá-lo de todos os pecados e de perdoá-lo. Isso é ser Cristão. 
O fato é que a concepção da divindade nem sempre se ancorou na bondade. Os deuses do mundo grego, por exemplo, não necessariamente eram bons ou maus, eram potências que traziam toda sorte de características própria dos mortais, não obstante sua imortalidade.
Na verdade, quando pensei em escrever este artigo me veio, em princípio, outro título: o surgimento do pecado. A coisa começa com Sócrates, arauto de uma nova realidade como Nietzsche argumenta no Crepúsculo dos Ídolos. Antes de Sócrates, explicações dialéticas da realidade suscitavam desconfiança, mas a palavra ganhou necessidade dentro do mundo democrático que surgia. O velho feitio aristocrático não tinha mais lugar diante da forçosa racionalidade que passou a ser remédio aos instintos, tornados maléficos. Ninguém era mais senhor de si mesmo. Sócrates, precursor deste novo tempo, fascinava como dominador dos vícios, como solução, saída única em tais casos.
A unidade divina teria surgido da certeza inevitável e do medo dos frutos do individualismo que já se insinuavam? Teria sido o medo arquetípico do Caos e da desconfiança dos deuses que teria erigido o paradigma da bondade? Teria sido o perdão uma estratégia política no sentido de não dispersar o rebanho que se perdia em outras sendas? A administração dos instintos representou um forte impulso aos condicionantes burgueses da produção e do consumo?
De qualquer forma, por necessidade e fatalidade, adquirimos o pecado como condição casuística ao perdão que, por sua vez, se fez consolador como remédio necessário a uma condição interpretada como inerente ao ser humano, e reconstituímos a necessária unidade que se esfacelava. Vamos explicar isto com mais vagar.
A ideia de que somos pecadores à priori foi muito produtiva ao cristianismo: o pecado original e a crucificação sedimentaram fortemente tal condição. O sentido de bom, conforme Nietzsche argumenta em Genealogia da Moral, cujo significado primeiro estava na força e na felicidade, era o contrário ao mau, ao ruim, mas tomou um antônimo mais adequado aos novos tempos. Ora, bom passou a ser interpretado como bem, cujo contrário é mal. Uma tramoia. Vejam que o bom não necessariamente deve ser o bem, mas o será para aqueles a quem tal relação se fizer útil. Nietzsche acrescentaria: os fracos, os ressentidos. O bom não necessariamente é não egoísta, mas o bem o é, não é verdade? O que Nietzsche queria dizer é que ao processo coube utilidade, esquecimento, hábito e, por fim, erro. Ocorreu que o ressentimento dos fracos se tornou criador e produziu valores e o ódio encontrou compensação numa vingança imaginária, na ideia cristã de céu e inferno. Ora, a moral aristocrática era afirmação da vida, mas a moral dos escravos inverteu o golpe afirmador e opôs de início um não a tudo que não lhe era útil. Este não passou a ser o ato criador. O mundo exterior converte-se no ponto de partida dos valores, e não o mundo interior, a ação tornou-se reação, os instintos – supremo dom da vida – reduziram-se à abstração das palavras e perdemos o contato conosco mesmos.

Resumindo e concluindo: da maldade, erigida ao pedestal de valor em primeira instância, surgiu a necessária bondade, transfigurada no perdão. O cristão absorveu o fenômeno com o consolo da vingança transcendental do inferno aos que não se redimissem do mal e, por fim, como sustentação de tudo, fez-se necessária a bondade de Deus. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A POÉTICA DO TRANSTORNO BIPOLAR II

Este artigo foi publicado anteriormente no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência:

GATTO, Dante. A poética do transtorno bipolar II. Tribuna de Tangará, 05 ago, 2015. p.02-02.

Dante Gatto

Houve um fenômeno de despersonalização no começo do século XX, diante do processo alucinante de transformações operadas na realidade: a grande guerra, a revolução russa, a crise liberal que teve como ponto culminante o crach da bolsa de Nova York. O processo, alias, é cíclico e dialético: antes, as revoluções burguesas do século XVIII e antes ainda o Renascimento, primeiro grande momento da individuaidade. Um descaminho inevitável, cujos resultados são imprevisíveis. A tentativa de abarcar o fenômeno, poeticamente, no século XX, resultou, notadamente, nos heterônimos de Fernando Pessoa. A coisa veio se construindo por meio do surgimento do enredo amplamente psicológico, o anti-herói protagonista e os finais em aberto. A civilização só poderia ser absorvida com um inevitável mal-estar como Freud identificou. Mas a coisa não parou aí. A pós-modernidade rompeu o processo dialético suprimindo qualquer possibilidade de síntese. O núcleo de ação dramática se constitui, agora, na tensão e qualquer realização possível fica em, digamos assim, administrar as contradições. Perdemos a perspectiva de futuro e deslizamos num eterno presente.
Mas voltemos ao lirismo de Fernando Pessoa. Enquanto necessidade de conquistar a realidade fazia-se necessário abarcar múltiplas experiências. Um que se fazia vários, mas, eis a questão, exibia inteireza na sua individualidade.
Inteireza da individualidade. Desde muito cedo soube que era o que me faltava, mas tive a verdadeira clarificação quando li Mário de Sá Carneiro:

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

Pois é, “pilar da ponte do tédio”! A possível síntese efetivava-se de um para o outro. Não estou querendo particularizar a condição de precursor ao poeta, da pós-modernidade, mas afirmar uma possível harmonia na sua condição existencial. E pode-se inferir que o tédio o tenha matado, pelas suas próprias mãos, tão precocemente.
O fato é que ele se sabia entre o eu e o outro. Eu, bipolar, vivo o brutal antagonismo do eu e do outro dentro de mim. Sim, o outro é o meu oposto à medida que reivindica os meus prazeres, de todas as ordens, e se não chega a destruir a fonte me afasta dela, sujando-a com sua leviandade, sua torpeza, sua fome de aniquilação. Resta-me sempre o momento fugidio de felicidade em que rio para dentro, insipidamente, porque sei que me será tirada bruscamente.
Quando ele se insinua já não há mais como lutar. Queria diferenciá-lo de mim. Mas me é impossível. Não me entrego, mas sinto o aprisionamento e, eis o trágico momento: o desvario dele se torna meu. Estou presa dentro de mim e o ódio do aprisionamento me faz o outro. E seu beijo me queima a alma e me sangra os lábios.
Eu sou o outro e não me conformo.
Como quisera conviver comigo a ponto de que ele não me ferisse. Caminharíamos juntos então. Eu não seria privada da minha própria companhia.
Quando caio extenuada, e choro até me faltarem as forças, ele me concede uma esperança. É assim que vivemos. Ele não me permite tentar entende-lo, como, talvez, Fernando Pessoa tenha tentado e não me permite, também, um intermédio como foi o caso de Sá Carneiro, e eu vivo como um aforismo de Nietzsche que se perde no vazio da noite em que me escondo.  

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A POÉTICA DO TRANSTORNO BIPOLAR

            Dante Gatto

            Sempre quis escrever um livro, mas tudo que tenho a dizer, e tenho muito a dizer, me parece bastante fluido e transitório que ao fim me sentiria mal, enclausurada num volume, porque aquilo que lá estaria não teria mais a substância do que sou.
       A essência do fenômeno é que me transformo tão rapidamente a ponto de assustar a mim própria, a ponto de me pegar sorrindo sozinha pelo que descobri de mim, ou chorando. Ironia coruscante. Nem tudo de mim me é cabível dizer e se disser que seja por meio da virtualidade que pode se dissolver tão rapidamente quanto se instalou.
Quando me visto tento ratificar uma imagem coerente a uma leitura semiótica. Tento deixar alguma coisa por meio da imagem exterior e isto é mais uma preocupação comigo mesma do que pelo outro, apesar de que exteriormente estou sendo vista pelo mundo. Ora, o mundo não me pode compreender, minhas contradições interiores, mas ao tentar fixar uma imagem exterior parece que escamoteio minha perplexidade interior e isto me dá um certo conforto.
     Penso que o âmago da questão da minha relação com a exterioridade (na construção da interioridade) é que não pude ser absorvida dentro dos paradigmas das relações humanas. Penso até que se não foi completamente expurgada do convívio dos vivos foi porque me fiz de morta. Não é sem razão, portanto, que me visto de preto. Assusta-me dizer, mas trata-se de luto e luto por mim mesma. Desprezo mesmo a vida dentro das limitações em que ela se apresenta na cotidianidade em que estamos inseridos. Todos os modelos de sucesso que construímos são amplamente espúrios. É isto. Mas se eu saísse gritando a minha loucura transgressora me depositariam num sanatório o que me seria muito desconfortável. Sendo assim, eu me calo, me escondo, me anestesio com os paliativos da arte e me apresento aos olhos dos viventes de preto.
         Por longo tempo ignorei ou desprezei as manifestações de amor em torno de mim. Como querem me amar se não podem me conhecer, me compreender. Amor implica ampla compreensão. Se não me podem compreender não me venham falar de amor, porque a piedade não é substantivo que se alinhe com amor. Horrível para um espírito forte acomodar-se à piedade para sustentar as relações de convívio. Mas, ao optar pela solidão, encontrei almas, não necessariamente solitárias, que entendem meu desprezo pelas relações sustentadas pela pena, e descobri uma forma de amor. Ora, amo os que, como eu, compreendem as condições de amor e me dedico a tal amorosa comunhão.
         Há de se considerar ainda que mesmo a não compreensão é perdoável em determinadas incondicionalidades. O que eu quero dizer, por exemplo, que uma mãe pode não compreender um filho, mas não consegue não amá-lo e não investir nele. Pai e mãe me foram levados muito cedo, antes mesmo que eu assentisse-lhes os sentimentos, mas tive experiências de compreensão que me fizeram por vezes me sentir amada.
            O cerne dos meus escritos repousa no antagonismo interior que, digamos assim, de certa forma me anula para a exterioridade. Talvez a melhor configuração do fenômeno estaria no mito de Sísifo, a ver rolar montanha abaixo o fruto do seu esforço. E me pergunto o que terei feito aos deuses. Mas não me vejo, infelizmente, presa a uma rebeldia prometeica que pudesse me trazer algum consolo.
          E se minha rebeldia um dia foi combinação de iconoclastia autodestrutiva, e foi só isto, hoje a segunda condição anula a primeira num sentido doloroso de salvação que me põe aqui a escrever. E sigo de preto; tenho poucos, raros amigos; tento me livrar do cigarro para ser mais livre; procuro caminhos solitários nas inevitáveis investidas em me inserir na vida e um dia, acredito, haverei de me encontrar comigo e por sentido nas coisas, interpretá-las com a clareza possível da felicidade almejada.