terça-feira, 28 de julho de 2015

FELICIDADE NÃO É FACILIDADE

Este artigo foi publicado anteriormente no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência:
PIRES, Edini Maria da. Felicidade não facilidade. Tribuna de Tangará, 29 jul., 2015. p.02-02.

Edini Maria da Silva Pires

Conforme Nietzsche: “A psicologia da orgia como sentimento de vida e força trasbordante, dentro dos limites do que até a dor opera como estimulante, deu-se a chave da ideia do sentimento trágico, que nem Aristóteles nem nossos pessimistas lograram compreender”. (NIETZSCHE, 2001, p.101). Ora, uma perspectiva suportada pela orgia e pela dor não está nos nossos horizontes, por conta da vida rasa e burguesa, voltada ao consumo, ungido como necessidade. Falta-nos (não há censura nisto) um dizer sim á vida.
Nietzsche argumenta, ainda: “a afirmação da vida até em seus problemas mais árduos e duros; a vontade de viver, regozijando-se no sacrifício de nossos tipos mais elevados, é o que eu chamei de dionisíaco, e nisso acreditei encontrar o fio condutor que nos conduz à psicologia do poeta trágico”. (NIETZSCHE, 2001, p.101). Grifo nosso. Nietzsche queria dizer que devemos viver com intensidade, afirmar a vida com toda a sua problemática e não negá-la, escondendo-se, como, por vezes, fazemos, conformados com a acomodação burguesa. Nietzsche, ainda, vai reformular a própria filosofia da tragédia:

O fim da tragédia não é desembaraçar-se do medo e da piedade, nem purificar-se duma paixão perigosa, mediante sua descarga impetuosa — como o entendeu Aristóteles — mas realizar-se em si mesmo, acima do medo e da piedade, é a eterna alegria que leva em si o júbilo do aniquilamento... E neste ponto volto ao meu ponto de partida. A origem da tragédia foi minha primeira transmutação de todos os valores; para aquela senda retorno eu, o último discípulo do filósofo Dionísio; eu, o mestre do eterno retorno, me coloco no terreno onde cresceu meu querer e cresceu meu saber. (NIETZSCHE, 2001, p.101).

A catarse não deve ser vista como profilaxia ou analgésico, mas a alegria, que é eterna, portadora do júbilo do aniquilamento. Realmente, são palavras contundentes que certamente levaria muita gente a justifica-las pelo argumento da loucura de Nietzsche.
Gatto (2014, p.7), tomando como suporte, também, a reflexão de Nietzsche no Crepúsculo dos Ídolos estende-se na concepção de felicidade de Mário de Andrade. A concepção de alegria representou ponto de discórdia entre ele e Graça Aranha, no caso, extremamente significativo do que queremos salientar. Se, por um lado, na reflexão sobre literatura, tinham pontos em comum, como a firme intenção de romper com o artificialismo do passado e a necessidade premente de libertar o Brasil da influência castradora europeia; por outro, diferenciavam-se quanto à origem e sentidos do raciocínio. Graça partia das ideias para a realidade e Mário, ao contrário, partia da realidade para as ideias. Para o escritor maranhense, a alegria só seria obtida por meio dos valores estéticos, tendo estes substituídos os valores existenciais. Não era uma visão essencialista como a de Nietzsche. Isto é, pensava Graça que na valorização da arte dar-se-ia a eliminação da dualidade eu-cosmos e superar-se-ia o terror e a dor da diferenciação. Assim, o melancólico homem brasileiro seria capaz de participar do todo universal, passando a viver em um estado de inconsciente e perpétua alegria. Não havia, portanto, aquele ingrediente da afirmação. Para Mário, tal postura, contrariava as leis naturais, na medida em que criava uma metafísica, que tentava resolver tudo por meio da literatura, representava a negação da alegria. O resultado disto seria nada mais do que uma maneira de ser alegre, sem participar da verdadeira alegria. Coisa deveras doentia. Para completar o desgosto de Mário, o agir esteticamente para Graça Aranha era prerrogativa do intelectual dinâmico, atlético e jovem. A valorização do atleta, bem como o regime da perpétua alegria, condenava o prazer às contingências corpóreas, não cabendo, pois, no seu composto de felicidade, as inquietações, temores e sofrimentos. Graça Aranha revela-se preconceituoso, elitista e incapaz de ver a dor como alegria, como Mário que tinha a dor como valor positivo, uma vez que tudo que acontece ao homem passa a ser bom e pode trazer felicidade. Ora, felicidade não é facilidade, mas uma compreensão da vida em toda a sua grandeza.

Referências
GATTO, Dante. Tragédia e felicidade. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, p. 07, 29 jan. 2014.
NIETZSCHE, Friedrich Willen. O Crepúsculo dos Ídolos ou a filosofia a golpes de martelo. Tradução de Edson Bini e Marcio Pugliesi. Curitiba: Hemus, 2001.

INTELECTUAIS E ESCRITORES: SUA FUNÇÃO PÚBLICA

Este artigo foi anteriormente publicado no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência:

SOUSA, Maria da Conceição Jose de. Intelectuais e escritores: sua função pública. Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, 22 jul., 2015. p.02-02.


Maria da Conceição José de Sousa

        Ao falarmos as palavras escritores e intelectuais, talvez, os imaginamos como seres distintos ou intimamente ligados, já que uma pessoa pode ser intelectual e escritor. Escritor é aquele que produz obras literárias ou científicas, enquanto, intelectual é aquele que domina um campo de conhecimento intelectual ou que tem muita cultura geral, erudito.
         Mas, afinal qual é a função dos escritores e intelectuais? Cada vez mais, escritores e intelectuais assumem os atributos de usarem seus textos como forma de propagarem seus ideais, testemunhos e verdades diante das opressões as quais a sociedade sofre. Nesse sentido, podemos delegar a ambos o mesmo papel. “Devemos nos concentrar naquilo que escritores e intelectuais tem em comum quando intervém na esfera pública.” (SAID, 2003, p. 31).
       Vivemos a era da mídia eletrônica, assim, escritores e intelectuais devem repensar seus discursos. A velocidade da mídia eletrônica facilita aos escritores alcançarem milhões de leitores, entretanto, “a rapidez é uma faca de dois gumes” (SAID, 2003, p.33), há consequências e riscos de se escrever nesse amplo espaço, uma delas é a dificuldade de relação entre o autor e o seu púbico, é quase improvável um escritor conseguir traçar um perfil para o seu público, outra consequência seria o risco de se escrever um texto neutro. Segundo Edward Said:

Mas escrever neste espaço expandido tem, sim uma outra e inusitadamente arriscada consequência: ser incentivado a dizer coisas que são ou completamente opacas ou completamente transparentes (e se temos qualquer consciência do intelectual ou vocação política, deverá ser, é claro, o segundo caso e não o primeiro). (SAID, 2003, p. 33).

            Dessa forma, escritores e intelectuais deixariam de exercer um dos seus principais papéis, que ainda, conforme Said, é “elucidar a disputa, desafiar e derrotar tanto o silêncio imposto quanto o silêncio conformado do poder invisível” (SAID, 2003, p. 35). Escritores e intelectuais não podem e nem devem curvar-se diante do “poder simbólico” (termo utilizado por Pierre Bourdieu), mesmo que esteja em toda parte (crença, política, cultura, etc).
            Infelizmente, de um lado temos uma sociedade dominada por uma minoria que retém o poder de imagens e notícias; do outro lado, temos intelectuais “isolados” fisicamente ou em pequenos grupos lutando contra a monstruosa máquina da mídia dominante. Mesmo assim, escritores e intelectuais não podem calar-se defronte do acúmulo de poder que distorcem a vida humana. Não temos a solução para a quebra dessa máquina, porém, não podemos dar-nos como vencidos. Devemos oportunizar alternativas de leituras para uma elucidação da sociedade. “É aqui que o intelectual coletivo pode desempenhar um papel insubstituível, ajudando a criar as condições sociais para a produção coletiva de utopias realistas”. (SAID, 2003, p. 37).

Referências
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 13ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.
SAID, W. Edward. Cultura e Política. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003.