quarta-feira, 17 de junho de 2015

NIETZSCHE

              Em 25 de agosto de 1900, morria prematuramente Friedrich Wilhem Nietzsche (1844-1900). Mais de cem anos depois, no entanto, podemos constatar que sua filosofia ainda exerce enorme poder sobre nossas vidas. Não é difícil entender tal fascínio.


Devemos todos nós a Nietzsche uma gratidão sem limites. Sem ele gerações se passariam ainda a insinuar timidamente o que ele afirmou com maestria, com ousadia e com loucura. É a partir dele que foi possível a criação e que a obra de arte pode existir. Eis porque considero a doutrina de Nietzsche como o prefácio, poder-se-ia mesmo dizer prefácio a toda dramaturgia futura. Parece, anacronicamente, que sua obra inteira se encontra subentendida na de um Shakespeare, de um Beethoven, de um Miguel Ângelo.[1]


            As propostas de Marx e Nietzsche situam-se nos extremos de ambições similares, como observa Antônio Cândido (1987, p.5): se o primeiro ensaiava transmudar os valores sociais no âmbito da coletividade, o segundo imprimia uma transmutação do ângulo psicológico do homem, determinado pela espécie e processado pela civilização. São atitudes que se completam, uma vez que não é suficiente rejeitar a herança burguesa ao nível da produção e das ideologias, mas, como fez Nietzsche (“psicólogo artista”), é preciso escavar o subsolo pessoal do homem moderno, iluminando-o enquanto indivíduo, “revolvendo as convenções que a ele se incorporam, e sobre as quais assenta a sua mentalidade”.   

Sim, extremo limite do individualismoa criação como um fenômeno humano por meio da arte, a transmutação de todos os valores… Comecemos com seu embate com Sócrates.

Nietzsche examina o fenômeno estranho que constitui a chave da alma de Sócrates, chamada por ele mesmo de o seu demônio. Nele, a sabedoria instintiva só se manifesta para se opor ao pensamento consciente: “Enquanto em todos os homens produtivos o instinto é precisamente a força criadora-afirmativa e a consciência se porta como crítica e dissuasiva, em Sócrates é o instinto que se torna crítico e a consciência criadora (uma verdadeira monstruosidade per defectum!)”. (NIETZSCHE, 1987b, p.12).

Antes de Sócrates, as “maneiras dialéticas” eram proscritas pela boa sociedade, tidas como inconvenientes, observa Nietzsche (1984, p.17-23). Os que, eventualmente, apresentassem suas razões por meio dela eram examinados com uma natural desconfiança: “o que precisa ser demonstrado para ser crido não vale grande coisa”. O “velho feitio”, aos poucos, desaparecia, ninguém era mais senhor de si mesmo, os instintos se revolviam uns contra os outros. Ele, Sócrates, fascinava como dominador de todos os seus “vícios e maus desejos”. Fascinava “como resposta, como solução, como aparência do tratamento que visava a cura indicada em tais casos”. O racionalismo tornou-se forçoso como remédio e, diante disto, não é pequeno o perigo de que outra força nos tiranize: ou sucumbir ou ser absolutamente racional. Neste contexto, qualquer concessão aos instintos e ao inconsciente nos rebaixa.

A degenerescência da filosofia, segundo Nietzsche, aparece nitidamente com Sócrates. Ele inventou a metafísica quando faz da vida “qualquer coisa que deve ser julgada, medida, limitada, e do pensamento [...] um limite, que exerce em nome de valores então considerados superiores (o Divino, o verdadeiro, o Belo, o Bem...” Ora, a própria dialética prolonga este passe de prestidigitador, na medida em que nos convida a recuperar propriedades alienadas. Tudo retorna ao espírito, no processo dialético.

O dionisíaco é a instauração de uma nova existência. Nossa plenitude, com a qual transfiguramos as coisas e a preenchemos de nossa própria alegria de viver. Sim, alegria de viver, apesar do sofrimento:


O profundo grego, extraordinariamente suscetível como ninguém ao mais terrível e ao mais severo sofrimento, consola-se olhando frontalmente para a terrível destrutividade da chamada história do mundo, assim como para a crueldade da natureza, e está em perigo de ansiar por uma negação budista da Vontade. A arte resgata-o, porém, e através da arte a vida. (HOLLINRAKE, 1986, p.216).


José Miguel Wisnik (1987, p.219) observa a dificuldade de tal compreensão: como que uma disposição radicalmente trágica pode dar origem a um posicionamento afirmativo. Sim, por vezes sinto tal incompreensão ao afirmar que tragédia é afirmação da vida, bem como o único sentido da felicidade. O poder da liberdade dionisíaca suscita a transfiguração que garante seu lugar no eterno retorno.

Podemos considerar o eterno retorno, conforme Deleuze (1944, p.77), apesar das premissas antigas, como uma descoberta nietzscheana. Não se encontrava nos antigos, Nietzsche bem o sabia, nem na Grécia, nem no Oriente, a não ser de uma maneira parcelar e incerta, num sentido completamente diverso. O segredo de Nietzsche é que o eterno retorno é seletivo, isto é, não é simplesmente um ciclo, num retorno do todo, num retorno do mesmo, num retorno ao mesmo. Eis a doutrina nietzscheana: “Vive de tal maneira que devas desejar reviver, é o dever (porque tu reviverás, de qualquer modo! [...] Mas que saiba bem para onde vai a sua preferência e que não recue diante de nenhum meio! Aí está a eternidade!”

A crítica nietzscheana à metafísica tem dois sentidos: o ontológico e o moral. Já nos referimos, por alto, ao combate empreendido por ele contra a teoria das idéias socrático-platônicas. Ao mesmo tempo, o filósofo do eterno retorno desenvolvera uma luta acirrada contra o cristianismo. Nietzsche chama-o platonismo para o povo e vulgarização da metafísica uma vez que o mundo terrestre é entendido como provisório e aparente, em detrimento do outro mundo, autêntico e verdadeiro. O cristianismo, como o platonismo, é uma forma acabada de subversão que, apoiada em dogmas e crenças impõe, como virtude, a resignação e a renúncia, negando a vida.

A questão não é a diferença do martírio, mas o sentido. No caso de Dionísio, a vida mesma, sua eterna fecundidade e retorno condicionam o tormento, a destruição. No outro caso, o cristão, o sofrer, o crucificado como inocente, vale como objeção contra esta vida, como fórmula de sua condenação. O homem trágico é forte na medida em que afirma o mais acerbo sofrer. O cristão nega até a sorte mais feliz sobre a terra. Se Dionísio é uma promessa de vida, “o deus na cruz é uma maldição sobre a vida, um dedo apontando para redimir-se dela”. (NIETZSCHE, 1987b, p.174).

A revolta dos escravos da moral, afirma Nietzsche (1987a, p.34), começa quando o próprio ressentimento se torna criador e chega a produzir valores: o ódio encontra compensação numa vingança imaginária. Se moral aristocrática “nasce de uma triunfal afirmação de si mesma”; a moral cristã inverte o golpe de vida afirmador: “opõe de início um ‘não’ a tudo que não é seu. Este ‘não’ é o seu ato criador.” O mundo exterior converte-se no ponto de partida dos valores, e não o mundo interior: a ação torna-se reação.

André Gide que abriu nossas reflexões fecha-as agora, sintetizando afinal o que queremos dizer: “Seria mais simples dizer que todo grande criador, todo afirmador da Vida é forçosamente um nietzscheano”. (MARTINS, 1965, p.4).


Referências


CÂNDIDO, A. O portador (1946). In: Nietzsche, F. W. Obras incompletas, São Paulo: Nova Cultural, 1987. p.1-8. (Os Pensadores).

DELEUZE, G. Nietzsche. Trad. Alberto Campos. Lisboa: edições 70, 1994.

HOLLINRAKE, R. Nietzsche Wagner e a filosofia do pessimismo. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.

MARTINS, M. Nietzsche. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1965.

NIETZSCHE, F. W. Genealogia da moral. Trad. de Paulo Cesar Souza. São Paulo: Brasiliense, 1987a.

NIETZSCHE, F. W. Obras incompletas. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: nova cultural, 1987b. 2v. (Os pensadores).

WISNIK, J. M. A paixão dionisíaca em Tristão e Isolda. In: CARDOSO, S. et al. Os sentidos da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p.195-228.



[1] André Gide, nas Letres à Angèle, citado por Martins (1965, p.4).