quinta-feira, 28 de maio de 2015

SOBRE O TRÁGICO E A TRAGÉDIA

Dante Gatto

“Os gregos criaram a grande arte trágica e, com isso, realizaram uma das maiores façanhas no campo do espírito”, afirma Leski (2001, p.26-27), mas não desenvolveram nenhuma teoria do trágico que tentasse ir além da plasmação deste no drama e chegasse a envolver a concepção do mundo como um todo. Aliás, perdeu-se no helenismo posterior boa parte da elevada concepção do acontecer trágico, isto é, as multivariadas refrações que se revela na tragédia clássica, sempre com majestosa grandeza. A palavra trágico desenvolveu-se em dois sentidos: significando “o horrível, o desagradável, o sanguinário”, e não há, neste sentido, aquele “emaranhado profundo a que é induzido o homem por suas paixões, ou num certo estado do mundo que permite, ou mesmo determina, tal ocorrência”; além disso, “trágico” pode significar também “empolado e bombástico”. O fato é que não se encontra no classicismo helênico a palavra com o peso da cosmovisão com que aparece em nossos dias, “destinos fatídicos de caráter bem definido e, acima de tudo com uma bem determinada dimensão de profundidade,” como temos em Mário de Andrade, ou, como preferiria Soren Kierkegaard, uma maneira muito definida de ver o mundo, separado de Deus por um abismo intransponível.
A catarse (identificação profunda com o destino do herói) não mostra coerência com as reduções morais da tragédia. “Para aclarar o mito trágico”, argumenta Nietzsche (1999, p.141), “o primeiro reclamo é justamente o de procurar o prazer a ele peculiar na esfera esteticamente pura, sem qualquer intrusão no terreno da compaixão, do medo, do moralmente sublime”. Aliás, entender a tragédia como uma proposta moralizadora soa como uma interpretação cristã, apesar de que Platão considerava a tragédia perigosa à moral dos cidadãos a ponto de expulsá-la de sua República ideal.
Na Poética, não há nada que indique uma purificação do Espírito, uma ascese da alma. Os espectadores não se sentem melhores por expulsar o mal de suas almas, como seria do gosto do cristianismo da Idade Média.
            “A tragédia, em suma, parece escapar a antítese da responsabilidade moral e do destino arbitrário, tal como escapa à antítese do bem e do mal.” (FRYE, s.d., p.208).
A tragédia para Mário de Andrade era sublinhada por um sentimento de fatalidade. Um exemplo dele mesmo faz-se bastante esclarecedor, envolvendo dois acontecimentos: no primeiro, um desastre de automóvel em que morrem cinco pessoas; no segundo, um homem, ainda vivo, dentro de um poço que desmoronou, e que convive com a possibilidade da morte a qualquer momento, tendo em vista que está difícil salvá-lo. Mário atenta para a distinção psicológica entre os dois acontecimentos:

A primeira notícia é mais propriamente dramática, é tristíssima, porém houve no caso uma colaboração do poder humano que não a transporta para o plano ilimitado da fatalidade. Mas aquele homem morrendo no fundo do poço, as horas passam, aquela terra malvada que desmorona cada vez mais: o sabor trágico da coisa é violento, o limitado humano já não colabora mais, inteiramente à mercê do Fatum, da fatalidade. E é por isso que (desumanamente) o desastre inexplicável de um submarino nos infunde mais horror e mais piedade (isto é, os sentimentos mesmos do trágico) que uma declaração de guerra. A guerra não é trágica, é dramática – vício nojento imposto á vida pela imbecilidade do limitado humano. Mas o terremoto é profundamente trágico, até no Japão, porque neles as coisas incontroláveis da fatalidade assoberbam o nosso limite. E o exaltam! (ANDRADE, 2002, p.114).

Significativo, pois, à psicologia da criação: "O poeta trágico sabe que seu herói ficara em situação trágica, mas ele emprega toda a sua força para evitar a sensação de ter forjado aquela situação para seus próprios objetivos". (FRYE, s.d., p.208).
Uma das muitas conseqüências da atualização da compreensão do trágico, com o passar do tempo, com a atenuação do mito, consiste na tragédia atualizar-se em novas formas literárias, e o herói encontrar uma saída na conciliação ou sublimação.
A noção de que o mundo é trágico em sua essência é bem antiga, mas nossa época vive dominada por idéias desse tipo. Fundamentamo-nos na concepção de que a força da tragédia, enquanto arte, está em explorar os limites da condição humana, o ser. Fazia sentido a catarse pelo desfecho trágico naquele tempo de ingenuidade. O momento de surgimento da tragédia grega é exemplar uma vez que se combina ao aparecimento do pensamento racional. O mito, enquanto expressão espontânea do ser perdeu espaço para explicações determinadas pela dialética das relações humanas. O cidadão tem de prestar contas à coletividade e a palavra ganha força neste contexto e constrói, digamos assim, verdades vazias do ser. E depois fomos, de certa forma, dominados pelo racionalismo burguês.
O paradoxo essencial da condição humana é que à medida que avançamos no domínio da natureza perdemos o contato com a nossa própria natureza. Dizendo em outras palavras, fragmentamo-nos enquanto ser. Um conceito preciso de arte seria a sua força na clarificação do ser. Eis que a tragédia nos fornece ainda recursos diante do afastamento de nós mesmo na modernidade do racionalismo pragmático. A tragédia moderna, portanto, é não estar sendo aquilo que somos. E a força para tal constatação é o que dá representatividade ao herói que por fim logra sua epifania: “[...] encontrar Deus que mana em nós como uma fonte despercebida”. (ORTEGA Y GASSET, 1978, p.71).

REFERÊNCIAS

ANDRADE, M. Do trágico. In: ______. O Empalhador de passarinho. 4. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 2002. p.113-118.
FRYE, N. O mythos do outono: a tragédia. In:______. Anatomia da crítica. São Paulo: Cultrix, s.d. p.203-219.
LESKI, Albin. A tragédia grega. São Paulo: Perspectiva, 2001. 
NIETZSCHE, F. W. O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. Trad. J. Guinsburg. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

ORTEGA Y GASSET, José. A ideia do Teatro. São Paulo: Perspectiva, 1978.