sexta-feira, 17 de abril de 2015

O HERÓI NA LITERATURA

Dante Gatto
Rosineide Alves Machado.

Este artigo foi também publicado no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência:

GATTO, Dante; MACHADO, Rosineide Alves. O herói na literatura. Tribuna de Tangara (ISSN 23577541)Tangará da Serra, 10 set. 2014. p.2.
      
Três conceitos orientarão aqui estas reflexões preliminares: heróiherói problemático e anti-herói.
O nascimento do herói se deu com o mito. O mito corresponde às crenças de um povo, do conjunto, da comunidade, da coletividade. Por conta disso, o mito se torna a verdade desse povo. Verdade no sentido de mentalidade coletiva. Um mito não explica a realidade de um povo, mas representa um aspecto legal dele e por isso sobrevive. Neste sentido, as sociedades primitivas procuram na idade mítica aquilo que julgaram ter perdido: a verdade eterna. Isto envolve ritos, cultos e lendas, como se isso permitisse o seu retorno, porque toda transformação assusta. Revela-se, pois, o mito, um paliativo à brusca arrancada da história, bem como, o herói, uma tentativa de compensar as limitações humanas.
herói problemático encontrou lugar na realidade, nitidamente, a partir das revoluções burguesas do século XVIII em que, por conta da complexidade da realidade, se perderam os referenciais coletivos: herói, pois, de sua própria história. Exemplar sim, mas não mais representativos da coletividade. Os feitos gloriosos cantados nas epopéias se transformam na aventura do espírito de uma interioridade privilegiada. Criou-se, em termos de lírica, a ideia de artista gênio que não tinha lugar no mundo clássico. Gênio por conta da exemplaridade no mergulho à interioridade. O enredo de ação perde, pois, espaço ao enredo psicológico e a epopéia dá lugar a uma forma artística mais compatível com os novos tempos, o romance, epopéia da classe burguesa.
Cabe equacionar dois momentos históricos (eras), tendo como fronteira a revolução romântica: era clássica (permanência, equilíbrio e mímesis) e era moderna (ruptura, loucura e criação). O espírito de totalidade e unidade, enquanto anseio humano irreprimível, busca ajustar-se neste contexto de alienação, como a única saída que resta: individualidade (interioridade), aonde se dará o enfrentamento com os mecanismos da racionalidade burguesa.
O herói do romantismo, no entanto, na grade maioria dos casos, ainda se ajustará à tentativa de recompor o equilíbrio, como na era clássica, mas a prerrogativa maior já não pode ser a razão (compreensão por meio do intelecto) que não dá conta mais da diversidade de perspectivas, e buscará no amor (compreensão por meio dos sentidos) a força motriz para resistir à fria ordem racional burguesa, que avança inexorável, e que podemos resumir à simbiose consumo e lucro. Eis, pois, o problema que dá sentido à designação herói problemático. Este buscará também o equilíbrio que consistirá na clareza sobre si mesmo, o seu papel e seu lugar. E já não serão ações que o configurarão enquanto herói, mas o seu sucesso na auto-clarificação pelos labirintos da interioridade. A forma romanesca objetiva, pois, a busca do herói, como psicologia dele.
Talvez, a maior ruptura da era moderna para a literatura seja a condição de protagonista ao anti-herói. Não fica difícil entender que a literatura, na era moderna, tenha perdido seu caráter supostamente formativo. Se na era clássica, a literatura estava filiada a uma ordem de valores, integrada com a história, ganhou especificidade com o romantismo, acentuando-se enquanto forma privilegiada de conhecimento do ser. Cabe, pois, à ordem posta, não apenas uma resposta dialética, mas principalmente uma resposta dionisíaca. E o retrato artístico da aventura humana pela arte da palavra, no caso a ficção, ganhará este tipo de herói em primeiro plano, possibilidade, aliás, inaceitável na era clássica.
O anti-herói não procurará recuperar um equilíbrio perdido, mas se acomodará à situação da contraditória realidade que o conforma, infenso a qualquer heroísmo, oportunista ou até anacrônico como Dom Quixote, precursor de um estado de coisas que se anunciava e, talvez por conta disto, absolutamente genial.
O anti-herói deve ser visto como o resultado estético de um tempo que não há mais como conceber homogeneidades, sintoma da totalidade para sempre perdida, mas uma esperança sempre possível na homogeneidade nas heterogeneidades, isto é, aceitação das diversidades.


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