domingo, 19 de abril de 2015

DIALÉTICA, DIONISISMO E ETERNO RETORNO

Dante Gatto

Este texto foi publicado também no Jornal Tribuna de Tangará:
GATTO, Dante. NIETZSCHE: dialética, dionisismo e eterno retorno. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, p. 06, 27 nov. 2013.

Nietzsche analisa o fenômeno estranho que constitui a chave da alma de Sócrates, chamada por ele mesmo de o seu “demônio”. Nele, a sabedoria instintiva só se manifesta para se opor ao pensamento consciente, “uma verdadeira monstruosidade per defectum!" (NIETZSCHE, 1987, p.11).     
Antes de Sócrates, observa Nietzsche (1984, p.17-23), as “maneiras dialéticas” eram proscritas pela boa sociedade, examinados com uma natural desconfiança: “o que precisa ser demonstrado para ser crido não vale grande coisa”. Sócrates, originário do populacho, foi um polichinelo levado a sério. Pergunta Nietzsche: seria a ironia socrática uma fórmula de ressentimento popular? Na punhalada do silogismo saboreia ele sua ferocidade de oprimido? Seria sua dialética uma forma de vingança? Nietzsche avalia assim o fenômeno: Sócrates previu que a idiossincrasia de seu caso já não era excepcional, era uma degeneração que se propagava rápida e secretamente. O “velho feitio” aos poucos desaparecia. Ninguém era mais senhor de si mesmo, os instintos se revolviam uns contra os outros. Ele, Sócrates, apesar da feiura, fascinava como dominador de todos os seus “vícios e maus desejos”. Fascinava “como resposta, como solução, como aparência do tratamento que visava a cura indicada em tais casos”. O racionalismo tornou-se forçoso como remédio e, diante disto, não é pequeno o perigo de que outra força nos tiranize: ou sucumbir ou ser absolutamente racional. Agora, argumenta Nietzsche, qualquer concessão aos instintos e ao inconsciente nos rebaixa.
            É do temperamento do herói euripidiano uma necessidade imprescindível de justificar seus atos: herói dialético, portanto. O triunfo do otimismo dialético encontra seu lugar na fria clareza e consciência. As três formas essenciais de otimismo, objetivadas nas máximas socráticas (Virtude é saber; só se peca por ignorância; o virtuoso é feliz), tão contrárias aos instintos dos antigos helenos, resumem a morte da tragédia, “pois agora o herói virtuoso tem de ser dialético [...] agora a justiça transcendental de Ésquilo se rebaixa ao princípio raso e insolente da ‘justiça poética’, com o seu costumeiro deus ex machina. (NIETZSCHE, 1987, p.13-4).
            A degenerescência da filosofia, segundo Nietzsche, aparece nitidamente com Sócrates. “Ele inventou a metafísica quando faz da vida qualquer coisa que deve ser julgada, medida, limitada, e do pensamento um limite, que exerce em nome de valores superiores - o Divino, o verdadeiro, o Belo, o Bem...” (DELEUZE, 1994, p.19). Ora, a própria dialética prolonga este passe de prestidigitador, na medida em que nos convida a recuperar propriedades alienadas.        O dionisíaco é a instauração de uma nova existência. Nossa plenitude, com a qual transfiguramos as coisas e a preenchemos de nossa própria alegria de viver. Sim, alegria de viver, apesar do sofrimento.    Wisnick (1987, p.219) observa que muitos não entenderam jamais como que uma disposição radicalmente trágica pode dar origem a um posicionamento afirmativo. Com Dioniso, a vida mesma, sua eterna fecundidade e retorno, condicionam o tormento, a destruição, a vontade de aniquilamento. O herói trágico afirma ainda o mais acerbo sofrer: ele é forte, pleno, divinizante o bastante para isso. Dioniso cortado em pedaços é uma promessa de vida: eternamente renascerá e voltará da destruição. (NIETZSCHE, 1987, p.174).
            Podemos considerar o eterno retorno, apesar das premissas antigas, como uma descoberta nietzscheana.  O eterno retorno nietzschiano é seletivo, isto é, não é simplesmente um ciclo, num retorno do todo, num retorno do mesmo, num retorno ao mesmo. Aliás, o eterno retorno é duplamente seletivo. Primeiro como pensamento. Eis a doutrina nietzscheana:

Vive de tal maneira que devas desejar reviver, é o dever - porque tu reviverás de qualquer modo! Aquele cujo esforço é a alegria suprema, que se esforçe! Aquele que gosta sobretudo de repouso, que repouse! Aquele que gosta antes de tudo de submeter-se, obedecer e seguir, que obedeça! Mas que saiba bem para onde vai a sua preferência e que não recue diante de nenhum meio! Aí está a eternidade! (DELEUZE, op. cit., p.77).

            O eterno retorno é, também, o Ser seletivo. Como uma roda, o movimento do eterno retorno é dotado de um poder centrífugo que expulsa todo o negativo. São expulsas as forças reativas e todas as formas de niilismo. Só as veremos uma vez. O que retorna, portanto, é tudo aquilo que pode ser afirmado: a vida aceita na sua inteireza.

REFERÊNCIAS

DELEUZE, G. Nietzsche. Trad. Alberto Campos. Lisboa: edições 70, 1994.
NIETZSCHE, F. W. Crepúsculo dos Ídolos ou filosofia a golpes de marteloTrad. Edson Bini e Márcio Pugliesi. São Paulo: Hemus, 1984.
NIETZSCHE, F. W. Obras incompletas. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: nova cultural, 1987. 2v. (Os pensadores).
WISNIK, J. M.  A paixão dionisíaca em Tristão e Isolda. In: CARDOSO, S. et al. Os sentidos da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p.195-228.

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