terça-feira, 21 de abril de 2015

A DINÂMICA DAS TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS

Dante Gatto

Podemos, a modo introdutório e com pretensões didáticas, pensar as transformações da sociedade apoiando nosso pensamento em três suportes básicos: a dialética, o materialismo histórico e no que convencionamos chamar de fenômeno humano.
Modernamente, dialética é a maneira de pensarmos a realidade em constante processo de transformação. A contradição suscita o movimento dialético. Podemos resumir a questão ao trinômio tese, antítese e síntese. A afirmação (tese) engendra necessariamente a sua negação (antítese), quando apresenta uma contradição. Porém a negação não prevalece como tal, por conta também de uma contradição: tanto afirmação como negação são superadas e o que acaba por prevalecer é uma síntese, isto é, a negação da negação. Mas o processo continua ad infinitum, comprometendo irremediavelmente a concepção de verdade absoluta.
         A concepção metafísica prevaleceu ao longo da história (a linha do pensamento da metafísica ensinava que o movimento  a mudança  era um fenômeno de superfície), porque correspondia, nas sociedades divididas em classes, aos interesses das classes dominantes, sempre preocupadas em organizar duradouramente o que já está funcionando, sempre interessada em amarrar bem todos os valores e conceitos como as instituições existentes, para impedir que os homens cedam à tentação de querer mudar o regime social vigente.
         A concepção dialética foi reprimida historicamente: foi empurrada para posições secundária, condenada a exercer uma influência limitada. A metafísica se tornou hegemônica, mas a dialética não desapareceu. Para sobreviver precisou renunciar às suas expressões mais drásticas. Foi, ainda, de Aristóteles, a introdução de princípios dialéticos em explicações dominadas pelos modos de pensar metafísico, uma vez que dávamos o nome de movimento a processos muitos diferentes que vão desde um mero deslocamento mecânico de um corpo no espaço, ou o aumento quantitativo de alguma coisa, e a modificação qualitativa de um ser. Para explicar cada movimento, precisamos verificar qual é a sua natureza.
         Segundo Aristóteles, todas as coisas possuem determinadas potencialidades: os movimentos das coisas são potencialidades que estão se atualizando, isto é, são possibilidades que estão se transformando em realidades efetivas. Com seus conceitos de ato e potência, Aristóteles conseguiu impedir que o movimento fosse considerado apenas uma ilusão desprezível, um aspecto superficial da realidade. Os filósofos não abandonaram, a partir de tais idéias, completamente o estudo do lado dinâmico e mutável do real.
O materialismo histórico consiste pensar a economia como base no processo de transformação da sociedade, isto é, como estrutura preponderante sobre a superestrutura ideológica, social, política, jurídica, literária etc., que, de qualquer forma, não são passivas, isto é, agem sobre a economia e umas sobre as outras. Isto implica dizer que a estrutura econômica funciona com o mais forte motivação para imprimirmos transformações na realidade.
Por fim, o fenômeno humano é uma condição inerente ao ser (natureza humana) que podemos resumir em duas características básicas que se articulam e se completam: liberdade, enquanto autonomia e transcendência, enquanto anseio de superação. Autonomia para assumir a condução da própria vida e necessidade de superação para vencer os muitos obstáculos que se apresentam, de todas as ordens (sociais, existenciais, metafísicos etc.) que lhe tolhem a tal liberdade. Afinamos continuamente nossa concepção de liberdade e, impelidos a conquistá-la, transcendemos aos avanços dos nossos antepassados.

Ora, o fenômeno humano, inevitavelmente limitado às condições materiais que sua realidade histórica configura, não se acomodará às situações sociais contraditórias que limitam sua liberdade e autonomia e promoverá a transformação dialética da sociedade.

domingo, 19 de abril de 2015

DIALÉTICA, DIONISISMO E ETERNO RETORNO

Dante Gatto

Este texto foi publicado também no Jornal Tribuna de Tangará:
GATTO, Dante. NIETZSCHE: dialética, dionisismo e eterno retorno. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, p. 06, 27 nov. 2013.

Nietzsche analisa o fenômeno estranho que constitui a chave da alma de Sócrates, chamada por ele mesmo de o seu “demônio”. Nele, a sabedoria instintiva só se manifesta para se opor ao pensamento consciente, “uma verdadeira monstruosidade per defectum!" (NIETZSCHE, 1987, p.11).     
Antes de Sócrates, observa Nietzsche (1984, p.17-23), as “maneiras dialéticas” eram proscritas pela boa sociedade, examinados com uma natural desconfiança: “o que precisa ser demonstrado para ser crido não vale grande coisa”. Sócrates, originário do populacho, foi um polichinelo levado a sério. Pergunta Nietzsche: seria a ironia socrática uma fórmula de ressentimento popular? Na punhalada do silogismo saboreia ele sua ferocidade de oprimido? Seria sua dialética uma forma de vingança? Nietzsche avalia assim o fenômeno: Sócrates previu que a idiossincrasia de seu caso já não era excepcional, era uma degeneração que se propagava rápida e secretamente. O “velho feitio” aos poucos desaparecia. Ninguém era mais senhor de si mesmo, os instintos se revolviam uns contra os outros. Ele, Sócrates, apesar da feiura, fascinava como dominador de todos os seus “vícios e maus desejos”. Fascinava “como resposta, como solução, como aparência do tratamento que visava a cura indicada em tais casos”. O racionalismo tornou-se forçoso como remédio e, diante disto, não é pequeno o perigo de que outra força nos tiranize: ou sucumbir ou ser absolutamente racional. Agora, argumenta Nietzsche, qualquer concessão aos instintos e ao inconsciente nos rebaixa.
            É do temperamento do herói euripidiano uma necessidade imprescindível de justificar seus atos: herói dialético, portanto. O triunfo do otimismo dialético encontra seu lugar na fria clareza e consciência. As três formas essenciais de otimismo, objetivadas nas máximas socráticas (Virtude é saber; só se peca por ignorância; o virtuoso é feliz), tão contrárias aos instintos dos antigos helenos, resumem a morte da tragédia, “pois agora o herói virtuoso tem de ser dialético [...] agora a justiça transcendental de Ésquilo se rebaixa ao princípio raso e insolente da ‘justiça poética’, com o seu costumeiro deus ex machina. (NIETZSCHE, 1987, p.13-4).
            A degenerescência da filosofia, segundo Nietzsche, aparece nitidamente com Sócrates. “Ele inventou a metafísica quando faz da vida qualquer coisa que deve ser julgada, medida, limitada, e do pensamento um limite, que exerce em nome de valores superiores - o Divino, o verdadeiro, o Belo, o Bem...” (DELEUZE, 1994, p.19). Ora, a própria dialética prolonga este passe de prestidigitador, na medida em que nos convida a recuperar propriedades alienadas.        O dionisíaco é a instauração de uma nova existência. Nossa plenitude, com a qual transfiguramos as coisas e a preenchemos de nossa própria alegria de viver. Sim, alegria de viver, apesar do sofrimento.    Wisnick (1987, p.219) observa que muitos não entenderam jamais como que uma disposição radicalmente trágica pode dar origem a um posicionamento afirmativo. Com Dioniso, a vida mesma, sua eterna fecundidade e retorno, condicionam o tormento, a destruição, a vontade de aniquilamento. O herói trágico afirma ainda o mais acerbo sofrer: ele é forte, pleno, divinizante o bastante para isso. Dioniso cortado em pedaços é uma promessa de vida: eternamente renascerá e voltará da destruição. (NIETZSCHE, 1987, p.174).
            Podemos considerar o eterno retorno, apesar das premissas antigas, como uma descoberta nietzscheana.  O eterno retorno nietzschiano é seletivo, isto é, não é simplesmente um ciclo, num retorno do todo, num retorno do mesmo, num retorno ao mesmo. Aliás, o eterno retorno é duplamente seletivo. Primeiro como pensamento. Eis a doutrina nietzscheana:

Vive de tal maneira que devas desejar reviver, é o dever - porque tu reviverás de qualquer modo! Aquele cujo esforço é a alegria suprema, que se esforçe! Aquele que gosta sobretudo de repouso, que repouse! Aquele que gosta antes de tudo de submeter-se, obedecer e seguir, que obedeça! Mas que saiba bem para onde vai a sua preferência e que não recue diante de nenhum meio! Aí está a eternidade! (DELEUZE, op. cit., p.77).

            O eterno retorno é, também, o Ser seletivo. Como uma roda, o movimento do eterno retorno é dotado de um poder centrífugo que expulsa todo o negativo. São expulsas as forças reativas e todas as formas de niilismo. Só as veremos uma vez. O que retorna, portanto, é tudo aquilo que pode ser afirmado: a vida aceita na sua inteireza.

REFERÊNCIAS

DELEUZE, G. Nietzsche. Trad. Alberto Campos. Lisboa: edições 70, 1994.
NIETZSCHE, F. W. Crepúsculo dos Ídolos ou filosofia a golpes de marteloTrad. Edson Bini e Márcio Pugliesi. São Paulo: Hemus, 1984.
NIETZSCHE, F. W. Obras incompletas. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: nova cultural, 1987. 2v. (Os pensadores).
WISNIK, J. M.  A paixão dionisíaca em Tristão e Isolda. In: CARDOSO, S. et al. Os sentidos da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p.195-228.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

O HERÓI NA LITERATURA

Dante Gatto
Rosineide Alves Machado.

Este artigo foi também publicado no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência:

GATTO, Dante; MACHADO, Rosineide Alves. O herói na literatura. Tribuna de Tangara (ISSN 23577541)Tangará da Serra, 10 set. 2014. p.2.
      
Três conceitos orientarão aqui estas reflexões preliminares: heróiherói problemático e anti-herói.
O nascimento do herói se deu com o mito. O mito corresponde às crenças de um povo, do conjunto, da comunidade, da coletividade. Por conta disso, o mito se torna a verdade desse povo. Verdade no sentido de mentalidade coletiva. Um mito não explica a realidade de um povo, mas representa um aspecto legal dele e por isso sobrevive. Neste sentido, as sociedades primitivas procuram na idade mítica aquilo que julgaram ter perdido: a verdade eterna. Isto envolve ritos, cultos e lendas, como se isso permitisse o seu retorno, porque toda transformação assusta. Revela-se, pois, o mito, um paliativo à brusca arrancada da história, bem como, o herói, uma tentativa de compensar as limitações humanas.
herói problemático encontrou lugar na realidade, nitidamente, a partir das revoluções burguesas do século XVIII em que, por conta da complexidade da realidade, se perderam os referenciais coletivos: herói, pois, de sua própria história. Exemplar sim, mas não mais representativos da coletividade. Os feitos gloriosos cantados nas epopéias se transformam na aventura do espírito de uma interioridade privilegiada. Criou-se, em termos de lírica, a ideia de artista gênio que não tinha lugar no mundo clássico. Gênio por conta da exemplaridade no mergulho à interioridade. O enredo de ação perde, pois, espaço ao enredo psicológico e a epopéia dá lugar a uma forma artística mais compatível com os novos tempos, o romance, epopéia da classe burguesa.
Cabe equacionar dois momentos históricos (eras), tendo como fronteira a revolução romântica: era clássica (permanência, equilíbrio e mímesis) e era moderna (ruptura, loucura e criação). O espírito de totalidade e unidade, enquanto anseio humano irreprimível, busca ajustar-se neste contexto de alienação, como a única saída que resta: individualidade (interioridade), aonde se dará o enfrentamento com os mecanismos da racionalidade burguesa.
O herói do romantismo, no entanto, na grade maioria dos casos, ainda se ajustará à tentativa de recompor o equilíbrio, como na era clássica, mas a prerrogativa maior já não pode ser a razão (compreensão por meio do intelecto) que não dá conta mais da diversidade de perspectivas, e buscará no amor (compreensão por meio dos sentidos) a força motriz para resistir à fria ordem racional burguesa, que avança inexorável, e que podemos resumir à simbiose consumo e lucro. Eis, pois, o problema que dá sentido à designação herói problemático. Este buscará também o equilíbrio que consistirá na clareza sobre si mesmo, o seu papel e seu lugar. E já não serão ações que o configurarão enquanto herói, mas o seu sucesso na auto-clarificação pelos labirintos da interioridade. A forma romanesca objetiva, pois, a busca do herói, como psicologia dele.
Talvez, a maior ruptura da era moderna para a literatura seja a condição de protagonista ao anti-herói. Não fica difícil entender que a literatura, na era moderna, tenha perdido seu caráter supostamente formativo. Se na era clássica, a literatura estava filiada a uma ordem de valores, integrada com a história, ganhou especificidade com o romantismo, acentuando-se enquanto forma privilegiada de conhecimento do ser. Cabe, pois, à ordem posta, não apenas uma resposta dialética, mas principalmente uma resposta dionisíaca. E o retrato artístico da aventura humana pela arte da palavra, no caso a ficção, ganhará este tipo de herói em primeiro plano, possibilidade, aliás, inaceitável na era clássica.
O anti-herói não procurará recuperar um equilíbrio perdido, mas se acomodará à situação da contraditória realidade que o conforma, infenso a qualquer heroísmo, oportunista ou até anacrônico como Dom Quixote, precursor de um estado de coisas que se anunciava e, talvez por conta disto, absolutamente genial.
O anti-herói deve ser visto como o resultado estético de um tempo que não há mais como conceber homogeneidades, sintoma da totalidade para sempre perdida, mas uma esperança sempre possível na homogeneidade nas heterogeneidades, isto é, aceitação das diversidades.