quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

DO SENTIMENTO TRÁGICO DA VIDA

Unamuno (2013, p.21) argumenta que o sentimento, e não a razão, é o grande diferencial do homem em relação aos demais animais. Este é o ponto de partida para identificar o sentimento trágico da vida. Unamuno encaminha sua reflexão pela filosofia kantiana, defendendo que da crítica da razão pura à crítica da razão prática, o filósofo de Konigsberg reconstrói com o coração o que havia destruído com a cabeça. E do “Deus racional, “projeção para o infinito de fora do homem, do homem abstrato, o homem não homem”, tem-se o Deus sentimental ou volitivo, “projeção para o infinito de dentro do homem na procura de vida, do homem concreto, de carne e osso”. Na crítica da razão prática, a existência de Deus se deduz da imortalidade da alma. No entanto, ao atuar como professor, Kant tinha que justificar racionalmente a atitude pouco racional da imortalidade da alma.
É de Hegel, segue Unamuno (2013, p.22) o aforismo: “tudo que é racional é real e tudo que é real é racional”, mas nós acreditamos que o realmente real é a irracionalidade.
Identificamo-nos com tal ideia.
Talvez tenha sido o positivismo o maior erro humano no sentido de negar a irracionalidade. Entre os males do positivismo, defende Unamuno (2013, p.25) está em ter tornado fatos apenas fragmentos de fatos.
            Um princípio de unidade e um princípio de continuidade é o que faz um homem, “um e não outro”. (UNAMUNO, 2013, p.25). Para nosso propósito conspira a sinergia de nossas ações. O princípio de continuidade – é óbvio – está na evidência de que o que sou hoje vem de uma série continua de estados de consciência.
            Nem a um homem ou a um povo, portanto, se pode exigir mudanças que rompam a unidade e a continuidade. O rompimento da unidade e continuidade da minha vida conspira a destruir-me e, por isso, a destruir-se. Porque para mim, o fato de me tornar outro, rompendo a unidade e a continuidade de minha vida significa deixar de ser quem sou, ou seja, significa simplesmente deixar de ser. E não queremos isso.
            Se não sou nada para o universo, sou tudo para mim. O fato é que quando um homem afirma seu eu, sua consciência pessoal, está afirmando o homem concreto e real. Afirmação do humanismo das coisas do homem e, ao afirmar o homem, afirma-se a consciência do homem que é a única de que temos consciência.  Por fim, o mundo é para a consciência. E consciência e finalidade acabam sendo a mesma coisa.
            Toda trágica batalha do homem, o anseio de imortalidade, o salto de Kant, são batalhas da consciência. Há quem veja nisto contradição. “Vive-se apenas de contradições e por elas; a vida é tragédia e a tragédia é uma perpétua luta sem vitória nem esperança dela; é contradição”. (UNAMUNO, 2013, p.29).
            Contra os valores afetivos não valem as razões. Não há verdade nas razões. “Quantas vezes não cabe dizer: para pensar com tu só é preciso não ter nada além de inteligência!” (UNAMUNO, 2013, p.29).
            Há pessoas que só pensam com o cérebro, enquanto outros pensam com todo o corpo e toda a alma. Aqueles são os “definidores: tornam-se profissionais do pensamento”. (UNAMUNO, 2013, p.30). Um soco de um boxista tem precisão de músculos para uma definida finalidade, mas um soco de um não profissional, apesar de não ter tanta eficácia, vitaliza muito mais a quem o dá, obrigando-o a por em jogo quase todo o corpo. Sabemos que os atletas de feira não costumam ser sadios.
            Todo conhecimento tem uma finalidade. “E o problema mais trágico da filosofia é conciliar as necessidades intelectuais com as necessidades afetivas e volitivas”. (UNAMUNO, 2013, p.31). Aqui parece fracassar toda filosofia que pretende desfazer a eterna e trágica contradição, base de toda existência. 
            A suprema preocupação (o primeiro porquê e o último para quê) não pode ser puramente racional, mas afetiva. “Não basta pensar, devemos sentir o nosso destino. E aquele que, pretendendo dirigir seus semelhantes, diz e proclama que não se preocupa com as coisas não mundanas não merece dirigi-los. Isso não significa, obviamente, que devamos pedir-lhe alguma solução determinada. Solução! Por acaso existe?” (UNAMUNO, 2013, p.31).
            Porque choramos se não adianta. Sólon responderia: ‘precisamente por isso, porque não adianta’. A santidade de um templo está em se chorar em comunidade. Não basta curar a peste, é necessário saber chorá-la.
            É um sentimento trágico da vida que traz não apenas o homem individual, mas povos inteiros. Tal sentimento determina ideias mais do que surgir delas que, no entanto, podem reagir sobre ele, corroborando-o. Além disso, pode provir de uma doença, mas pode ser constitucional: “Além de não haver uma noção normativa de saúde, ninguém provou que o homem tenha de ser naturalmente alegre. Mais ainda: o homem, pelo fato de ser homem, por ter consciência, já é, em relação ao burro ou a um caranguejo, um animal doente. A consciência é uma doença”. (UNAMUNO, 2013, p.31).

REFERÊNCIAS


UNAMUNO, Miguel de. O sentido trágico da vida. São Paulo: Hedra, 2013.

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