segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O PODER DAS BRUXAS

Pâmela Barros de Melo

            Talvez a obra mais importante para o estudo da bruxaria hoje seja o livro de Gerald Gardner, intitulado precisamente A Bruxaria Hoje. Margaret Murray, na introdução brasileira do mesmo, aponta um aspecto significativo à argumentação que ambicionamos desenvolver aqui: “O dr. Gardner mostrou em seu livro o quanto a chamada ‘bruxaria’ vem dos antigos rituais e nada tem a ver com lançar feitiços ou outras práticas maldosas, sendo a sincera expressão do sentimento para com Deus, também expresso, mais decorosamente embora não com maior sinceridade, pela cristandade moderna nos cultos da Igreja. Mas as danças processionais das bacantes bêbadas, as cabriolas selvagens em torno do Santo Sepulcro como registradas por Maundrell no fim do século XVII, a dança saltitante das "bruxas" medievais, o solene zikr do camponês egípcio, os rodopios dos dervixes, tudo tem origem no desejo de estar ‘Mais próximo, meu Senhor, de Ti’, e de mostrar por suas ações a intensa gratidão que os adoradores acham incapazes de exprimir com palavras”.
            Podemos entender que a ideia de pecado, como a cristandade inquisitória interpretou certos rituais que lhes pareciam fugir a civilidade, como muito anteriormente as festas dionisíacas foram tratadas pelo cidadão grego, configura-se em tratamento bastante inadequado ao fenômeno da bruxaria. No fundo, tudo se resume à uma questão de poder e ideologia. Quando, por exemplo, no início da Idade Média, os cristãos tentaram dominar os celtas, trataram de reprimir certas práticas como o poder feminino e suas artes curativas, como está descrito na obra de Marion Zimmer Bradley, As Brumas de Avalon. Mas o que significa o poder para as bruxas? Isabel Vasconcelos é bastante esclarecedora neste aspecto: “[...] O poder não significa muito para quem acredita ser parte de um Todo e irmã de todos os seres vivos. O poder, no sentido que hoje lhe damos, é um tanto absurdo para essa mentalidade”. (VASCONCELOS, 2006, p.194). Ora, as bruxas anseiam por harmonia. “O poder masculino é a dominação do outro, e foi exatamente isso que a inquisição fez quando queimou mulheres que eles chamavam de bruxas, mas eram apenas detentoras de uma sabedoria milenar que não combinava muito bem com os dogmas da igreja e muito menos com os anseios de poder da sociedade patriarcal”.
Sim, Bruxas são de paz. Tal verdade, Isabel Vasconcelos desenvolve no seu delicado livro ... Todas as mulheres são bruxas. A obra é constituída de 16 contos que, não obstante tratar-se de ficção, envolvem um universo fantasticamente real que, principalmente, nos apontam uma contra ideologia. As protagonistas dos contos sustentam tal legitimidade a ponto de fazer a ficção vasconceliana ser mais esclarecedora da verdade do que a própria verdade. Se isto é prerrogativa da literariedade no que se refere ao gênero, Isabel Vasconcelos tem um tratamento particular ao fenômeno que o torna único. As circunstâncias acabam se repetindo, de uma certa forma. As bruxas em questão (quer seja Geraldina, proprietária de uma fazenda; Mariana, a gerente de um Banco em São Paulo; Cristina, a decoradora socialite; Valentina, a jovem entusiasta pela liberdade feminina e literatura; Joana, a advogada; Eli, a estrela da TV; Beatriz, a executiva que abandona seu sucesso para viver em inteiração com a natureza etc.) não se adequam aos valores institucionalizados, mas não os destitui. Ora, “Bruxas trabalham pela conciliação, com respeito às outras verdades que possam ser diferentes das verdades delas”. (VASCONCELOS, 2006, p.195).
            Mas não é só de ficção que se sustenta o livro. Intercalando os contos, Vasconcelos nos oferece textos fundamentais ao estudo da bruxaria moderna, enfocando assuntos diversos como a condição das bruxas, a inteiração com as plantas, aspectos históricos, tensão entre amor e ódio, o poder, a morte, renascimento, história da luta das mulheres etc. Poder-se-ia dizer, inclusive, a interação com a história. Os contos são datados, com determinação dos locais (Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador etc.) e enfocando os principais movimentos sociais do século XX: as duas guerras mundiais, a queda da bolsa, a revolução russa, a semana de 22, o governo de Getúlio, as ditaduras militares e, digamos assim, os aspectos do mundo de uma maneira geral que colocam em cheque a condição das bruxas.
            Talvez eu lhes possa dar algumas sugestões para o estudo da bruxaria moderna (wicca), conforme venho desenvolvendo: A Bruxaria Hoje, de Gerald Gardner que já comentamos; Evangelho das Bruxas de Charles Godfrey Leland, O Culto das Bruxas na Europa Ocidental, de Margaret Murray; A Deusa Branca de Robert Graves, O Ramo de Ouro de Sir James Fraser e o básico Enciclopédia da bruxaria de Doreen Valiente. Mas você pode começar bem, seguindo exatamente o meu percurso, lendo o livro de Isabel Vasconcelos Todas as Mulheres são Bruxas.
Sim, todas as mulheres são bruxas, mas, devemos acrescentar como a própria Vasconcelos acentua, que existem bruxas do bem e bruxas do mal. Esta opção é intransferivelmente sua. Boa leitura.

Referência
VASCONCELOS, Isabel. Todas as mulheres são bruxas. Belo Horizonte: Soler, 2006.


Pâmela Barros de Melo (pamstranger@hotmail.com) é acadêmica do curso de Letras da UNEMAT de Tangará da Serra.

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