quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

NIETZSCHE E A RELIGIÃO

Maria da Conceição José de Souza

Nietzsche escreveu sobre diversos temas como, por exemplo, arte, moral, ética, religião entre outros. Abordaremos aqui algumas de suas concepções a respeito da religião. Ele desenvolveu crítica intensa contrapondo-se à moral religiosa cristã projetada pela civilização ocidental às outras civilizações e a forma da moral regular tais civilizações.
Para Nietzsche ao contrário do que pensa e prega o cristianismo, não existe nem bem nem mal. Essas noções seriam produtos histórico-culturais elaborados pelos interesses do ser humano e que as religiões impõem tais valores como provenientes da “vontade de Deus”, entretanto, para ele o ser humano aceitar esses valores de tal forma, traz perigos ao seu desenvolvimento, pois ficaríamos como seres enjaulados já que somos regidos pela força da natureza do próprio ser.

O juízo moral pertence, como juízo religioso, a um grau de ignorância em que a noção da realidade, a distinção entre o real e o imaginário não existe, de modo que em tal grau a palavra 'verdade' serve para expressar coisas que hoje chamamos imaginação. Por isso não se deve nunca tomar ao pé da letra o juízo moral, pois entendido assim seria um contrassenso. Entretanto, como semiótica possui um valor inapreciável, pois revela ao que sabe entender, ao menos, realidades preciosas acerca das civilizações e dos gênios que não souberam o bastante para compreender a si mesmos. A moral é apenas uma linguagem de signos, uma sintomatologia, é preciso saber de antemão do que se trata para se poder tirar partido dela. (NIETZSCHE, 1999, p.69).

Segundo Nietzsche a doutrina cristã foi fundada no medo (NIETZSCHE, 1974, p. 333), no medo de pecar, morrer e ir para o inferno. Por isso, o homem utiliza-se de Deus como apoio, devido ser um covarde. Para ele esse medo causa sentimento de culpa – angústia - e leva o ser a ir em busca do perdão de Deus. Contudo, Deus fica “camuflado”, pois é escolhido um membro para representar a “palavra de Deus” sendo, portanto, esse membro quem dita e controla as ações do homem por meio da moral religiosa o que o deixa aprisionado. Porém, não podemos esquecer que esse membro que faz “papel de Deus” é um ser humano assim como qualquer outro. Temos dessa forma, o que Nietzsche chama de “moral de rebanho” onde o ser fica preso e submisso às tradições dominantes do cristianismo e dos representantes da “lei de Deus”, não vencendo o desafio de viver a própria vida e esperando que Deus faça o que cada ser deve fazer e culpando ou responsabilizando Deus por seus atos e consequências deles.
Partindo do pressuposto abordado por Nietzsche no que se refere à verdade, surgem indagações acerca de tão complexo conceito. Existiria uma verdade absoluta? Apenas a moral religiosa cristã é a verdadeira? As divindades existem ou foram criadas por homens? Acreditamos assim como Nietzsche, que a verdade é fruto da “imaginação”, pois acreditamos e aceitamos como verdade aquilo que nos interessa e nos faz crescer como humanos e podemos assim afirmar, que a moral cristã nem é certa nem errada, assim como as demais morais religiosas, e, sabemos que a moral religiosa foi criada pelos homens a fim de organizar a sociedade, portanto, cabe a nós respeitar o que cada ser deseja seguir e acreditar, mas não podemos deixar de vivermos livremente para nos sentirmos aprisionados à moral. Com a finalidade de levarmos o ser a uma reflexão sobre o que foi aqui abordado, terminaremos com um pensamento de Nietzsche que se encontra na obra O crepúsculo dos ídolos:

Em todos os tempos quis-se melhorar o homem; a rigor é o que chamamos de moral. Porém, sob a palavra moral se ocultam tendências muito diferentes. A domesticação do animal humano e a criação de uma espécie determinada de homens são um melhoramento e essas noções zoológicas as únicas que expressam realidades, porém realidades que o melhorador típico, o sacerdote, ignora e não quer saber nada a respeito. (NIETZSCHE, 1999, p.69)

Referências
NIETZSCHE, F. W. Crepúsculo dos Ídolos. 4. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.
NIETZSCHE, F. W. Genealogia da moral. In: Os pensadores. V. XXXII 1. ed. São Paulo: Abril Cultural,1974.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O PODER DAS BRUXAS

Pâmela Barros de Melo

            Talvez a obra mais importante para o estudo da bruxaria hoje seja o livro de Gerald Gardner, intitulado precisamente A Bruxaria Hoje. Margaret Murray, na introdução brasileira do mesmo, aponta um aspecto significativo à argumentação que ambicionamos desenvolver aqui: “O dr. Gardner mostrou em seu livro o quanto a chamada ‘bruxaria’ vem dos antigos rituais e nada tem a ver com lançar feitiços ou outras práticas maldosas, sendo a sincera expressão do sentimento para com Deus, também expresso, mais decorosamente embora não com maior sinceridade, pela cristandade moderna nos cultos da Igreja. Mas as danças processionais das bacantes bêbadas, as cabriolas selvagens em torno do Santo Sepulcro como registradas por Maundrell no fim do século XVII, a dança saltitante das "bruxas" medievais, o solene zikr do camponês egípcio, os rodopios dos dervixes, tudo tem origem no desejo de estar ‘Mais próximo, meu Senhor, de Ti’, e de mostrar por suas ações a intensa gratidão que os adoradores acham incapazes de exprimir com palavras”.
            Podemos entender que a ideia de pecado, como a cristandade inquisitória interpretou certos rituais que lhes pareciam fugir a civilidade, como muito anteriormente as festas dionisíacas foram tratadas pelo cidadão grego, configura-se em tratamento bastante inadequado ao fenômeno da bruxaria. No fundo, tudo se resume à uma questão de poder e ideologia. Quando, por exemplo, no início da Idade Média, os cristãos tentaram dominar os celtas, trataram de reprimir certas práticas como o poder feminino e suas artes curativas, como está descrito na obra de Marion Zimmer Bradley, As Brumas de Avalon. Mas o que significa o poder para as bruxas? Isabel Vasconcelos é bastante esclarecedora neste aspecto: “[...] O poder não significa muito para quem acredita ser parte de um Todo e irmã de todos os seres vivos. O poder, no sentido que hoje lhe damos, é um tanto absurdo para essa mentalidade”. (VASCONCELOS, 2006, p.194). Ora, as bruxas anseiam por harmonia. “O poder masculino é a dominação do outro, e foi exatamente isso que a inquisição fez quando queimou mulheres que eles chamavam de bruxas, mas eram apenas detentoras de uma sabedoria milenar que não combinava muito bem com os dogmas da igreja e muito menos com os anseios de poder da sociedade patriarcal”.
Sim, Bruxas são de paz. Tal verdade, Isabel Vasconcelos desenvolve no seu delicado livro ... Todas as mulheres são bruxas. A obra é constituída de 16 contos que, não obstante tratar-se de ficção, envolvem um universo fantasticamente real que, principalmente, nos apontam uma contra ideologia. As protagonistas dos contos sustentam tal legitimidade a ponto de fazer a ficção vasconceliana ser mais esclarecedora da verdade do que a própria verdade. Se isto é prerrogativa da literariedade no que se refere ao gênero, Isabel Vasconcelos tem um tratamento particular ao fenômeno que o torna único. As circunstâncias acabam se repetindo, de uma certa forma. As bruxas em questão (quer seja Geraldina, proprietária de uma fazenda; Mariana, a gerente de um Banco em São Paulo; Cristina, a decoradora socialite; Valentina, a jovem entusiasta pela liberdade feminina e literatura; Joana, a advogada; Eli, a estrela da TV; Beatriz, a executiva que abandona seu sucesso para viver em inteiração com a natureza etc.) não se adequam aos valores institucionalizados, mas não os destitui. Ora, “Bruxas trabalham pela conciliação, com respeito às outras verdades que possam ser diferentes das verdades delas”. (VASCONCELOS, 2006, p.195).
            Mas não é só de ficção que se sustenta o livro. Intercalando os contos, Vasconcelos nos oferece textos fundamentais ao estudo da bruxaria moderna, enfocando assuntos diversos como a condição das bruxas, a inteiração com as plantas, aspectos históricos, tensão entre amor e ódio, o poder, a morte, renascimento, história da luta das mulheres etc. Poder-se-ia dizer, inclusive, a interação com a história. Os contos são datados, com determinação dos locais (Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador etc.) e enfocando os principais movimentos sociais do século XX: as duas guerras mundiais, a queda da bolsa, a revolução russa, a semana de 22, o governo de Getúlio, as ditaduras militares e, digamos assim, os aspectos do mundo de uma maneira geral que colocam em cheque a condição das bruxas.
            Talvez eu lhes possa dar algumas sugestões para o estudo da bruxaria moderna (wicca), conforme venho desenvolvendo: A Bruxaria Hoje, de Gerald Gardner que já comentamos; Evangelho das Bruxas de Charles Godfrey Leland, O Culto das Bruxas na Europa Ocidental, de Margaret Murray; A Deusa Branca de Robert Graves, O Ramo de Ouro de Sir James Fraser e o básico Enciclopédia da bruxaria de Doreen Valiente. Mas você pode começar bem, seguindo exatamente o meu percurso, lendo o livro de Isabel Vasconcelos Todas as Mulheres são Bruxas.
Sim, todas as mulheres são bruxas, mas, devemos acrescentar como a própria Vasconcelos acentua, que existem bruxas do bem e bruxas do mal. Esta opção é intransferivelmente sua. Boa leitura.

Referência
VASCONCELOS, Isabel. Todas as mulheres são bruxas. Belo Horizonte: Soler, 2006.


Pâmela Barros de Melo (pamstranger@hotmail.com) é acadêmica do curso de Letras da UNEMAT de Tangará da Serra.