quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

NOTAS SOBRE O CONTO SÉTIMO ANDAR DE DANTE GATTO

Este artigo foi publicado, também, no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência

MELO, Ivana Ferigolo. Notas sobre o conto Sétimo andar de Dante Gatto. Tribuna de Tangará (ISSN 23577541). Tangará da Serra, n. 1625, ano XXVI, p. 07, 23 abr. 2014.

Ivana Ferigolo Melo

O conto Sétimo Andar, de Dante Gatto (publicado em 07 de março – neste jornal – e disponível em http://dante-gatto.blogspot.com.br/2014/03/um-conto-setimo-andar.html), narra, de forma intensa e intrigante, o transcurso de retorno à casa de uma personagem feminina sem nome após sua “jornada diária de trabalho”. Nesse transcurso, não são muitas as ações realizadas pela personagem, pois o foco do conto é explorar e trazer à tona pela via da escrita, fato que se concretiza de forma exemplar, o estado existencial dessa personagem. O que se destaca nessa narrativa é, então, a intenção analítica do narrador que vai relatando as ações da personagem no intuito de caracterizá-la tanto objetivamente como subjetivamente. O resultado é o desenho, pela via da escrita, de um ser deprimido, afetado por uma anestesia mental e sensível que lhe rouba a possibilidade de reconhecer seu entorno e seu cotidiano. Detectar a presença de amigos, perceber e sentir o caminho que lhe conduz a seu apartamento, tomar consciência de que está em casa são coisas que custam à personagem protagonista do conto.
Ela percebe o mundo de forma súbita como se sua condição existencial cotidiana estivesse profundamente automatizada ao ponto de ela mover-se, deslocar-se, realizar ações sem perceber ou sentir que está viva.  Toma consciência de si e de sua existência física, por exemplo, quando já está guiando o carro, pára no sinal e aproveita “o sinal fechado para olhar-se no retrovisor interno” e perceber que está feia. É somente após dirigir por um bom tempo que, subitamente, se lembra da amiga e colega de trabalho que vai ao seu lado no carro e, supostamente, saíra do trabalho com ela. A amiga, segundo o narrador do conto, é amiga de infância e mora no mesmo prédio em que vive a protagonista.
Diante da percepção e da sensibilidade diminuída da personagem principal, essa amiga, ganha uma dimensão mínima, mostrando-se estranha, distanciada da protagonista. Elas falam pouco durante a volta para casa, nem parece que se conhecem desde muito tempo. O que fica evidenciado, em virtude de o narrador comunicar o leitor sobre a longa amizade das duas personagens, é que o comportamento da protagonista em relação à amiga não corresponde ao comportamento de um ser humano de sensibilidade, de razão e de percepção aguçadas.  A protagonista cresce no conto como um ser automatizado, incapaz de se compreender e de compreender o mundo. O resultado dessa dificuldade de compreender, de sentir é uma sensação intensa de mal estar, de melancolia, amenizada somente pela ingestão de remédios, como se pode constatar no início do conto: “não deveria tomar o remédio de estômago vazio, mas qualquer efeito seria mais suportável do que aquela súbita melancolia que a tomava.”.

A frustração, a melancolia, a incompreensibilidade, a diminuição da sensibilidade e da percepção, a dependência de remédios são os traços que compõem a instância subjetiva da protagonista e que nos levam a percebê-la como uma personagem que revela muito da própria condição existencial dos seres humanos hoje. Os tempos atuais, não há como negar, são os tempos de registros altíssimos de depressão, de sensação de vazio, de incompreensão e, consequentemente, de ingestão excessiva de antidepressivos. Na leitura do conto Sétimo andar, de Dante Gatto, encontra-se, portanto, a possibilidade de se visualizar ou constatar, com profundidade, alguns aspectos da condição existencial do homem atual. Nessa imagem desoladora e automatizada da protagonista que o conto magistralmente constrói, encontra-se problematizado e denunciado o mal estar que afeta o ser humano de nossos tempos. A leitura de Sétimo andar permite, assim, uma percepção profunda da vida e nisso encontramos sua importância e seu mérito enquanto construção ficcional ou literária.

Nenhum comentário:

Postar um comentário