sábado, 8 de novembro de 2014

OS GREGOS: RELIGIÃO, LITERATURA E MITO

Este artigo foi também publicado no jornal Tribuna de Tangará. Segue a referência:

FERREIRA, Luís Fernando Ortega. SANTOS, Reinaldo Messias de Melo. Os gregos: religião, literatura e mito. Tribuna de Tangará (ISSN 23577541), Tangará da Serra, p.02 . 12 nov.  2014. 

Luis Fernando Ortega Ferreira
Reinaldo Messias de Melo Santos

Na religião grega arcaica e clássica (séc. VIII e IV a.C.) não havia isto que chamamos de revelação, aliás, como outros cultos politeístas. Sendo assim, não haveremos de encontrar nela profeta ou messias, dogmas ou credo, igreja, a ideia do além e mesmo um livro sagrado, depositário da verdade a ser seguida. A convicção íntima dos gregos, a fé, os ritos, os deuses, portanto, se sustentam num vasto repertório de narrativas, de diversas versões e variadas interpretações, conhecidas desde a infância e alicerçada enquanto quadro mental.
A tradição oral, em primeiro lugar, é responsável por conservar e transmitir o conteúdo das narrativas sobre os deuses, os mythoi (famílias, genealogia, poderes, modo de ação, aventuras, conflitos, prerrogativas e honras que lhe são devidas); em segundo lugar, a voz dos poetas ocupa um lugar central na vida social e espiritual dos gregos como verdadeira instituição. A poesia fixa uma cultura comum, principalmente no que se refere às representações religiosas, quer se trate dos deuses propriamente ditos, dos demônios, dos heróis ou dos mortos.
      Põem-se um problema ao historiador das religiões: seriam, estas narrativas dramatizadas, documentos de ordem religiosa ou literária? Os mitos e a mitologia devem ser relacionados ao campo religioso ou literário?
     Como certeza, para os eruditos do renascimento, e mesmo aos cientistas até o século XIX, as narrativas lendárias conservaram, ao leitor atual, o espírito do paganismo.
Os historiadores da primeira metade do século XX apresentam outra perspectiva: o mito é visto com excrescência literária e “só poderia ter uma relação longínquas com a convicção íntima do crente engajado no concreto das cerimônias culturais, na série dos atos cotidianos que, pondo-o diretamente em contato com o sagrado, fazem dele um homem pio”. (VERNANT, 1992, p.27).
     Para A.-J. Festugière (História geral das religiões, 1944), citado por Vernant (1992, p.28) há de se esquecer a mitologia dos poetas para entender a religião grega e se voltar aos cultos mais antigos. Vernant (1992, p.28), no entanto, considera que “a rejeição da mitologia repousa num preconceito anti-intelectualista em matéria religiosa”.
O núcleo primitivo e universal de toda experiência religiosa é encontrado fora da inteligência, mas no sentimento de horror sagrado à evidência do sobrenatural (thambos). A base dos cultos mais antigos seriam as diversas formas tomadas pelo rito que emprega a mesma experiência do divino. O rito diversifica-se em função do deus particular, em função dos desejos e temores que o culto responde. Os poetas criaram figuras particulares com base nessa perspectiva comum do divino. Daí advém as narrativas. O deus invocado, por fim, torna-se único no momento para o fiel. O que ocorre, e isto é muito importante e o mais difícil de entender, é o apagar das diferenças e as oposições que num panteão distinguiam os deuses uns dos outros. Aproximam-se, assim, o politeísmo grego e o monoteísmo cristão. É claro que isto não agrada aos historiadores que procuram especificidades que dão às religiões sua fisionomia própria.
 Mito, rito, representação figurada são os três modos de expressão através dos quais a experiência religiosa dos gregos se manifesta. Não se pode tratar o mito como um projeto literário individual de caráter gratuito, mas devemos considerá-lo presos às forças coletivas, inscritas numa tradição. Implica isto um compromisso com o entendimento do público. O narrador trabalha segundo um fio condutor de uma imaginação lendária, mesmo quando parece inventar tudo.
       A decifração do mito opera segundo outras vias e responde a outras finalidades, diversas da do estudo literário. O mitólogo, neste sentido, busca reconstruir uma ideologia que é entendida como “uma concepção e uma apreciação das grandes forças que, em suas relações mútuas, seu justo equilíbrio, dominam o mundo – ao mesmo tempo a natureza –, os homens, a sociedade, e os tornam aquilo que eles devem ser”. (VERNANT, 1993, p.30).
      O mito não pode ser confundido com o ritual, mas não se opõe a ele também. Comporta, pois, aquele saber que é substrato da filosofia, mais explicito que o rito, mais apto a teorizar, mais didático. O culto, por sua vez, implica uma certa ideia de deus, é menos desinteressado e engajado nas considerações de ordem utilitária.            

Referência
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e religião na Grécia antiga. Trad. Constança Marcondes Cesar. Campinas: Papirus, 1992.

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